O terreno
ficava ao lado da minha casa, apertada, sem espaço, entre
muros. Era baldio, cheio de lixo, mato, espinhos, garrafas quebradas,
latas enferrujadas, lugar onde moravam assustadoras ratazanas que,
vez por outra, nos visitavam. Quando o sonho apertava eu encostava
a escada no muro e ficava espiando.
Eu não acreditava que meu sonho pudesse ser realizado.
E até andei procurando uma outra casa para onde me mudar,
pois constava que outros tinham planos diferentes para aquele
terreno onde viviam os meus sonhos. E se o sonho dos outros se
realizasse, eu ficaria como pássaro engaiolado, espremido
entre dois muros, condenado à infelicidade.
Mas um dia o inesperado aconteceu. O terreno ficou meu. O meu
sonho fez amor com a terra e o jardim nasceu.
Não chamei paisagista. Paisagistas são especialistas
em jardins bonitos. Mas não era isto que eu queria. Queria
um jardim que falasse. Pois você não sabe que os
jardins falam? Quem diz isto é o Guimarães Rosa:
"São muitos e milhões de jardins, e todos os
jardins se falam. Os pássaros dos ventos do céu
- constantes trazem recados. Você ainda não sabe.
Sempre à beira do mais belo. Este é o Jardim da
Evanira. Pode haver, no mesmo agora, outro, um grande jardim com
meninas. Onde uma Meninazinha, banguelinha, brinca de se fazer
Fada... Um dia você terá saudades... Vocês,
então, saberão..." É preciso ter saudades
para saber. Somente quem tem saudades entende os recados dos jardins.
Não chamei um paisagista porque, por competente que fosse,
ele não podia ouvir os recados que eu ouvia. As saudades
dele não eram as saudades minhas. Até que ele poderia
fazer um jardim mais bonito que o meu. Paisagistas são
especialistas em estética: tomam as cores e as formas e
constróem cenários com as plantas no espaço
exterior. A natureza revela então a sua exuberância
num desperdício que transborda em variações
que não se esgotam nunca, em perfumes que penetram o corpo
por canais invisíveis, em ruídos de fontes ou folhas...
O jardim é um agrado no corpo. Nele a natureza se revela
amante... E como é bom!
Mas não era bem isto que eu queria. Queria o jardim dos
meus sonhos, aquele que existia dentro de mim como saudade. O
que eu buscava não era a estética dos espaços
de fora; era a poética dos espaços de dentro. Eu
queria fazer ressuscitar o encanto de jardins passados, de felicidades
perdidas, de alegrias já idas. Em busca do tempo perdido...
Uma pessoa, comentando este meu jeito de ser, escreveu: "Coitado
do Rubem! Ficou melancólico. Dele não mais se pode
esperar coisa alguma..." Não entendeu. Pois melancolia
é justamente o oposto: ficar chorando as alegrias perdidas,
num luto permanente, sem a esperança de que elas possam
ser de novo criadas. Aceitar como palavra final o veredicto da
realidade, do terreno baldio, do deserto. Saudade é a dor
que se sente quando se percebe a distância que existe entre
o sonho e a realidade. Mais do que isto: é compreender
que a felicidade só voltará quando a realidade for
transformada pelo sonho, quando o sonho se transformar em realidade.
Entendem agora por que um paisagista seria inútil? Para
fazer o meu jardim ele teria que ser capaz de sonhar os meus sonhos...
Sonho com um jardim. Todos sonham com um jardim. Em cada corpo,
um Paraíso que espera... Nada me horroriza mais que os
filmes de ficção científica onde a vida acontece
em meio aos metais, à eletrônica, nas naves espaciais
que navegam pelos espaços siderais vazios... E fico a me
perguntar sobre a perturbação que levou aqueles
homens a abandonar as florestas, as fontes, os campos, as praias,
as montanhas... Com certeza um demônio qualquer fez com
que se esquecessem dos sonhos fundamentais da humanidade. Com
certeza seu mundo interior ficou também metálico,
eletrônico, sideral e vazio... E com isto, a esperança
do Paraíso se perdeu. Pois, como o disse o místico
medieval Angelus Silésius:
Se, no teu centro
um Paraíso não puderes encontrar,
não existe chance alguma de, algum dia,
nele entrar.
Este pequeno poema de Cecília Meireles me encanta, é
o resumo de uma cosmologia, uma teologia condensada, a revelação
do nosso lugar e do nosso destino:
"No mistério do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro:
no canteiro, urna violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de urna borboleta."
Metáfora: somos a borboleta. Nosso mundo, destino, um
jardim. Resumo de uma utopia. Programa para uma política.
Pois política é isto: a arte da jardinagem aplicada
ao mundo inteiro. Todo político deveria ser jardineiro.
Ou, quem sabe, o contrário: todo jardineiro deveria ser
político. Pois existe apenas um programa político
digno de consideração. E ele pode ser resumido nas
palavras de Bachelard: "O universo tem, para além
de todas as misérias, um destino de felicidade. O homem
deve reencontrar o Paraíso." (O retorno eterno, p
65).