Resumindo:
os vestibulares são, em primeiro lugar, inúteis.
Um leitor, assustado como minha sugestão insólita
de que os vestibulares sejam substituidos por um sorteio enviou-me
um e-mail em que me acusava de estar trocando um critério
baseado na competência – critério racional,
portanto – por um critério baseado na sorte,
coisa irracional. Mas eu pergunto a vocês, que conseguiram
sobreviver à câmara de torturas: o vestibular
os tornou competentes em que? Competência tem a ver
com a capacidade de resolver problemas reais, situações
tais como elas aparecem na vida. Em que o preparo para os
vestibulares os tornou competentes? Eu me arrisco a dizer
que a única competência que o preparo para os
vestibulares desenvolve é... a efêmera capacidade
de passar nos vestibulares... Efêmera, que dura apenas
um dia. Tanto esforço, tanto sofrimento, para nada.
Pois, como já demonstramos, essa capacidade logo desaparece
no buraco negro do esquecimento. A memória é
uma função da vida, do corpo. E o corpo não
é bobo. Aquilo que não é instrumental
para a vida é logo esquecido. Pense na memória
como um escorredor da macarrão. Um escorredor de macarrão
é uma bacia cheia de furos. A gente põe o macarrão
na água fervente para amolecer. Amolecido o macarrão
é preciso livrar-se da água. Joga-se então
macarrão e água no escorredor. A água
escorre pelos furos e o macarrão fica. A memória
é assim: ela se livra do que não tem serventia
por meio do esquecimento. E o que é que tem serventia?
Duas coisas apenas. Primeiro, coisas que são úteis,
conhecimentos-ferramentas, conhecimentos que nos ajudam a
entender e a fazer coisas. ( Note, por favor, que a utilidade
é variável. Para os esquimos é conhecimento-instrumental
a arte de fazer iglus. Mas esse conhecimento é inútil
para beduinos no deserto. Para eles o instrumental é
fazer tendas. Conhecimentos que são úteis para
as crianças das praias de Alagoas são totalmente
inúteis para as crianças que vivem nas montanhas
de Minas. Daí o absurdo dos programas que ensinam ferramentas
em geral, como os nossos. ) A outra coisa que tem serventia
são os prazeres. Prazeres não são ferramentas.
Não têm uma função prática..
Mas dão alegria. Dão sentido à vida.
O corpo não se esquece dos prazeres. Educar, assim,
tem a ver com as duas caixas que o corpo carrega: a caixa
das ferramentas e a caixa dos brinquedos. Na caixa das ferramentas
estão os conhecimentos que são meios para viver.
Na caixa dos brinquedos estão os conhecimentos que
nos dão razões para viver. E eu pergunto: que
ferramentas o preparo para os vestibulares lhe deu? Que prazeres?
Ao final o escorredor de macarrão fica vazio: não
havia macarrão, só havia água.
Mas, além
de serem inúteis, os vestibulares são perniciosos
por deformar a capacidade de pensar dos nossos jovens.O que
é mais importante, saber as respostas ou saber fazer
as perguntas? Se você me disser que o mais importante
é saber as respostas ou lhe digo: você ou já
está obsoleto ou está a caminho da obsolescência.
Porque uma das características do nosso momento histórico
é o caráter efêmero das respostas. Quem
sabe as respostas logo fica sabendo nada. Pensar não
é saber as respostas. Pensar é saber fazer perguntas.
Sobre esse assunto aconselho a leitura do prefácio
à Crítica da Razão Pura, de Kant, em
que ele diz precisamente isso – que o conhecimento se
inicía com as perguntas que fazemos à natureza.
Mas essas perguntas surgem quando nós, ao contemplara
natureza, nos sentimos provocados por seus assombros. O início
do pensamento se encontra nos olhos que têm a capacidade
de se assombrar com o que vêem. Mas é precisamente
isso, os olhos assombrados, que o preparo para os vestibulares
destroi. Vestibulares são cega-olhos...
Schopenhauer
tem um curto e delicioso texto sobre livros e leitura em que
ele diz o seguinte: “Quando lemos, outra pessoa pensa
por nós: só repetimos os seu processo mental”.
Segue-se que “aquele que lê muito ou quase o dia
inteiro... perde paulatinamente a capacidade de pensar por
conta própria”. Que é o caso de muito
eruditos “leram até ficar estúpidos”.
Coisa semelhante acontece com aqueles que se preparam para
os vestibulares: de tanto serem treinados para dar as respostas
certas acabam por perder a capacidade de fazer perguntas,
que é a essência do pensamento inteligente. O
preparo para os vestibulares, assim, é um processo
estupidificador, um mecanismo pernicioso para a inteligência.
Acrescente-se a isso o fato de que, devido a fúria
da competição, os candidatos, no seu preparo,
são forçados a abandonar tudo aquilo que tem
a ver com a “caixa dos brinquedos”, o que provoca
um embrutecimento da sua sensibilidade.
O maior
benefício da abolição dos vestibulares
seria esse: as escolas estariam finalmente livres dessa guilhotina
horrenda no horizonte e poderiam se dedicar à tarefa
de educar, de desenvolver a arte de pensar, que nada tem a
ver com o preparo para os vestibulares.