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Minhas
netas: Heitor Villa-Lobos foi um compositor brasileiro.
Era um apaixonado pelo nosso país e resolveu pintar o
Brasil com sons. Pintar com sons? É isso mesmo. Os
pintores pintam com cores. A gente olha para um quadro e
os olhos vêem coisas que não estão por perto, e,
talvez, mesmo coisas que não existem. Cândido
Portinari (sua tela Paisagem – arara, bananeira,
banana, macaco –é linda!), Tarsila do Amaral, Lasar
Segall, Di Cavalcanti, Alfredo Volpi são artistas que
nos fazem ver coisas que nossos olhos não vêem. Os músicos,
diferentes dos pintores, usam sons para pintar. A gente
ouve a música e os olhos começam a ver coisas. Não
acreditam? Villa-Lobos compôs uma música chamada O
trenzinho do caipira. Ouvindo, a gente vê uma
maria-fumaça resfolegando e apitando. Villa-Lobos
pintou índios dançando, crianças brincando, serestas
românticas (pergunte ao seu pai o que é
‘seresta’...). E, dentre suas músicas, uma se chama
Alegria na Horta.
Alegria na horta? Isso mesmo. A horta é lugar de
alegria. Tem alegria no supermercado? Tem. Mas é uma
alegria diferente daquela que cresce na horta. No
supermercado as verduras e legumes já vêm prontos e
embrulhados em plástico. Na horta a gente vê as
verduras e legumes nascendo. Verduras e legumes nascem
na horta porque a gente semeou. Semear é fazer amor com
a terra. Vocês conhecem aquela música do Milton
Nascimento Cio da Terra. Se não conhecem, tratem de
conhecer. É muito bonita. ‘Cio’ é ‘desejo
sexual’. O Milton, nascido na cidade de Três Pontas,
bem pertinho de onde eu nasci, Boa Esperança, sabe
muito bem essas coisas sobre que estou falando. O mundo
onde ele viveu menino se parecia com o mundo onde eu
vivi menino. E ele, músico-poeta, tratou de colocar em
sons e palavras o mistério da terra que ele viu e
sentiu: terra dura e seca, cheia de pedras e pragas,
querendo ser terra fértil. Vem alguém, tira os matos,
arreda as pedras, ara, aduba, rega... A terra fica
alegre. Cheiro de terra molhada faz bem ao corpo. Terra
afofada, regada, adubada é terra pedindo: ‘Quero
ficar grávida! Façam buracos! Ponham sementes dentro
de mim! E eu transformarei as sementes que vocês
semearem em coisas vivas, boas para ver, cheirar e
comer!’
As pessoas gostam de louvar a natureza. Eu também.
Natureza é beleza, é força, é vida. Os tigres se
parecem com a natureza. Eles são também belos, fortes
e cheios de vida. Eu os acho animais maravilhosos –
longe de mim. Eu jamais entraria numa jaula com um
tigre. Os tigres matam. A natureza é tigre. Ela é
cruel. Duvida? Veja o filme O Náufrago, com o Tom
Hanks. Esse filme é uma versão moderna do livro
Robinson Crusoe, muito antigo, que eu, pessoalmente,
acho muito mais interessante. Vocês já leram o
Robinson Crusoe? Pois tratem de ler. Seria interessante
que o seu professor, na escola, lesse esse livro para
vocês. A aula seria uma delícia – e vocês acabariam
por querer ter e ler o livro, para chegar logo ao fim.
Imagine que você está sozinha, numa ilha deserta. Que
é que você faria? Seria preciso arranjar água,
comida, abrigo... Natureza-tigre eu quero contemplar –
de longe! A história da humanidade pode ser contada
como a luta dos homens para domar a natureza-tigre, para
fazer com que o tigre fique amigo.
A horta, como o jardim, é um lugar onde a natureza
ficou amiga. Para que ela fique amiga é preciso que
seja amada e cuidada. A natureza só fica amiga quando
os homens cuidam dela. É por isso que há alegria na
horta – lugar onde a natureza é cuidada.
Cuidados: primeiro era preciso capinar a terra, tirar os
matos, cavar fundo, para que a terra ficasse macia.
Depois, estercar. Misturar bosta de vaca, de cavalo, de
galinha, reduzidas a pó, com a terra. Aí a terra fica
fértil. Que transformação fantástica: bosta,
malcheirosa e feia, sendo transformada em comida! Não só
em comida: em beleza – as flores são belas, os
legumes são fascinantes. Em perfume: a hortelã é
perfumada – e o seu perfume nada tem a ver com o
cheiro da bosta que lhe deu vida. A natureza tem o poder
mágico de transformar coisas em outras. Ela é a grande
alquimista (pergunte ao seu professor o que é
‘alquimista’).
O que se encontrava na horta? Abóbora, abobrinha,
moranga, mandioca, cará, inhame, batata, cebola,
cebolinha, ervilha, vagem, alho, quiabo, couve, ora-pró-nobis,
chuchu, tomatinho, agrião, espinafre, milho, pimenta,
pimentões, hortelã, bucha, mangericão, salsa, almeirão...
A primeira alegria era quando o brotinho aparecia de
dentro da terra: a semente germinou, está viva, quer
crescer. Aí a gente vai cuidando dele como se cuida de
uma criancinha, tirando os matos, regando, pondo
estacas, amarrando. Chega um momento em que a planta
quer dar fruto. Mas, para isso, ela tem que, primeiro,
virar flor. É da flor que nasce o fruto. Quando se fala
em flor a gente pensa em rosa, violeta, orquídea,
cravo, gérbera – essas flores que são vendidas em
floriculturas. Você já viu a flor da abóbora? A flor
do quiabo? São lindas. Mas não são encontradas nem
nas floriculturas e nem nos supermercados. Assim, as
pessoas não sabem que os legumes tiveram uma outra
beleza que não aquela que têm, quando vendidos.
Falei em tomate mas, na verdade, lá onde eu vivia não
havia tomates, como esses que comemos. Havia tomatinhos
vermelhos que cresciam selvagens, sem que ninguém os
plantasse. Era divertido pegar os tomatinhos vermelhos e
comer! E era bom pegar folhas de hortelã, esfregar na mão
e cheirar. O cheiro da hortelã é tão bom que ele foi
colocado nas pastas de dente. A hortelã tem o cheiro de
uma manhã fresca. Toda manhã, ao escovar os dentes,
sinto-me de novo na horta, cheirando hortelã. Lindos são
os pés de pimenta, verdes com centenas de pequenas
frutas vermelhas. Menino, eu não me atrevia a tocar
nelas. Meu irmão, teimoso, embirrou de colher pimenta.
Colheu. E se esqueceu de que havia colhido. Passou a mão
no olho. Foi uma gritaria. E ainda dizem que ‘pimenta
nos olhos dos outros é refresco’. Esse é um ditado
popular malvado que revela muito sobre a alma dos seres
humanos. Por que será que os homens começaram a
misturar a pimenta ardida com a comida? Não sei. Só
sei que acho bom. Dizem que pimenta faz mal. Não estou
convencido. Os passarinhos gostam de pimenta, comem
pimenta e gozam de boa saúde. E como tudo o que entra
pela boca tem de sair na outra extremidade, as sementes
das pimentas são espalhadas por todos os lugares. Os
baianos comem pimenta, os mexicanos comem pimenta, os
indianos comem pimenta – e não me parece que eles
tenham menos saúde que os outros que não as comem. Em
Pocinhos do Rio Verde, onde tenho um pedacinho de terra,
há muitos pés de pimenta carregados de frutinhas que
começam a ficar vermelhas. Na sopa, quando a pimenta é
demais, o nariz começa a pingar e pode mesmo ter um
ataque de espirros... É divertido!
Bom mesmo seria se você pudesse plantar uma hortinha.
Visitei Berlim muitos anos atrás. Berlim está na
Alemanha e foi arrasada durante a Segunda Guerra Mundial
pelos bombardeios aéreos. Terminada a guerra, ficaram
aqueles terrenos vazios onde antes havia casas. Notei
que eles estavam cultivados. Me contaram, então, que o
governo cedia aqueles terrenos para quem quisesse
plantar hortas. Cada qual queria ter a horta mais
bonita. Assim, ao invés de ir malhar na academia de ginástica
em aparelhos metálicos para tentar manter a forma e ter
saúde, muitas pessoas iam cuidar dos seus jardins. Com
uma diferença: quem está malhando na academia fica
olhando no relógio, para saber quanto tempo falta –
pois é muito chato ficar pedalando numa bicicleta ergométrica
que não sai do lugar, enquanto quem cuida da horta não
quer que o tempo passe, pois é gostoso mexer com as
plantas.
Se você não pode plantar um hortinha quero fazer uma
sugestão: que você chame sua mãe para fazer compras
na feira. É muito mais divertido que fazer compras nos
supermercados. As pessoas se conhecem. Ficam amigas. E
trate de abrir os olhos para ver bem! Uma amiga,
cozinheira acostumada a cortar cebolas, um dia, ao
prestar atenção na cebola que cortava levou um susto:
nunca havia percebido que uma cebola era tão bonita:
dezenas de anéis circulares, brilhantes, como se fossem
um vitral de uma catedral. A cebola é tão bonita que
Pablo Neruda escreveu um poema para a cebola, no qual
ele se refere a ela como ‘rosa de água com suas
escamas de cristal’. Não é lindo? Experimente você
mesma. Olhe para os legumes e hortaliças como se fossem
obras de arte. Observe as formas, as cores, a ordem dos
elementos numa espiga de milho, no tomate, no pimentão,
numa cabeça de alho! As hortaliças não são só para
serem comidas: elas são para serem vistas!
Junto à horta crescia o pomar: laranja, mexirica, mamão,
cidra, pitanga, uvaia, banana, limão vermelho, manga,
jabuticaba, limão do mato, jambo, caqui... Felicidades:
uma jabuticabeira florida, perfumada, milhares de
abelhas zumbindo! A forma e a cor da pitanga e do caqui!
Uma laranja cortada ao meio, milhares de garrafinhas
transparentes onde o suco está guardado!
Houve um pintor chamado Giusepe Arcimboldo (1527-1593)
que compôs rostos humanos usando cenouras, beringelas,
rabanetes, tomates, cebolas, alho, uvas, azeitonas, pêssegos,
figos... Não sei de onde lhe veio esta idéia e nem
como ele conseguiu.. Talvez ele acreditasse que nós
somos hortas e pomares onde crescem frutas, legumes e
hortaliças. Quem sabe ele estava certo? (Correio
Popular, Caderno C, 01/04/2001.)
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