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Minhas
netas: Olhem ao redor de vocês. Que coisas vocês estão
vendo? As coisas que vocês estão vendo existem. Estão
lá. Mas nós temos olhos que vêem coisas que não estão
lá. Mesmo coisas que não existem. São os olhos da
imaginação. Por exemplo: se eu escrever a palavra
“unicórnio“, vocês vão ver, na sua imaginação,
um cavalo com um chifre na testa. Ora, cavalos com
chifre na testa não existem na realidade. Cavalos reais
não têm chifre. Mas, na imaginação, eles existem. E
eu posso, então, inventar uma estória de uma princesa
que cavalgava um unicórnio! Não é fascinante isso? Na
imaginação tudo é possível! Cavalos com asas, vacas
azuis, elefantes cor de rosa com bolinhas roxas, abóboras
que viram carruagens, ratos que falam... Nós, crianças,
homens e mulheres, somos capazes de viver no mundo das
coisas que não existem. E é aí que se encontra o
poder mágico dos livros: eles nos transportam para o
mundo das coisas que não existem e nós vivemos estas
coisas como se elas existissem. Vocês não se
emocionaram lendo a estória do Harry Potter? E não
choraram lendo a estória do amor triste de Romeu e
Julieta? E não vibraram com as aventuras do Bastian
Baltazar Bux e do Atreiu, do livro História sem fim?
Pois eu quero levar vocês a visitar o mundo encantado
da imaginação que havia lá na roça onde vivi quando
criança...
Era uma vez uma casinha de paredes brancas, com portas e
janelas azuis, sozinha no meio do campo. Sozinha,
nenhuma outra por perto, como a casinha da estória do
João e Maria. Solitária, no meio dos pastos verdes,
pastos que terminavam numa floresta, lá no fundo. Da
chaminé da casinha saía fumaça. A fumaça que sai
pela chaminé nos conta que, lá dentro, há um fogão
de lenha aceso. E se há um fogão aceso é porque alguém
está fazendo comida. O sol está descendo, e já está
próximo do horizonte. É o fim da tarde. Os homens que
trabalhavam no campo com enxadas, foices e machados, estão
voltando para casa. Estão cansados, suados e sujos.
Suas mãos são grossas, duras, cheias de calos. Os pássaros
pararam de voar. Também eles estão voltando para suas
casas. Menos as andorinhas, que gostam de revoar no
final da tarde. No fundo da mata um sabiá canta seu
canto triste. Vocês já ouviram o canto de um sabiá,
no fim da tarde? É tão bonito! As vacas deixaram os
pastos e estão no curral. De vez em quando uma delas
solta um mugido grosso e comprido. E as galinhas que
passaram o dia ciscando a terra à procura de bichinhos
pararam de ciscar. Também elas voltaram para o
galinheiro. E os galos não cantam mais. Galos e
galinhas espicham os seus pescoços na direção dos
poleiros ou galhos de árvores, acho que para medir a
distância do vôo que terão de voar para se
empoleirar. O poleiro alto é garantia de estarem a
salvo, longe dos bichos que procuram comida durante a
noite. Menos as galinhas chocas, que continuam deitadas
nos seus ninhos. Por 21 dias elas chocarão seus ovos,
até que deles saiam os pintinhos. Se algum gambá
aparecer, era uma vez uma galinha choca... Em casa os
homens lavam as mãos, os braços, os pés. Antigamente
era assim. Não havia chuveiros com água quente para o
banho. Banho era coisa rara. E há mesmo, na Bíblia, a
estória de Jesus, que lavou os pés dos seus discípulos.
E até o Papa, uma vez por ano, lava os pés de alguns
fiéis. Limpos, chegou a hora de comer. Há o cheiro bom
da lenha que queima. Sopa de abóbora, feijão, arroz,
costelinha de porco, abobrinha refogada. É preciso
comer enquanto o sol não se põe, enquanto há
claridade. Porque depois que o sol se esconder atrás
das montanhas, tudo ficará escuro. Não há luz elétrica.
Só a luz das lamparinas, com seu cheiro fedido de
querosene. Todos comidos, café na canequinha de lata, lá
fora já é noite, escuridão, lua, estrelas,
vaga-lumes. É a hora quando os bichos da noite saem
para fora: as corujas, os morcegos, os curiangos. Na
escuridão, os olhos não vendo nada, a imaginação
começa a ver coisas. Coisas que dão medo. Cada pio de
coruja, cada barulho de árvore sacudida pelo vento,
cada estalo de bambu é um susto. Na escuridão a
imaginação começa a ver monstros. É por isso que o
escuro dá medo. O escuro lhe dá medo? Quando você
acorda no meio da noite e não consegue dormir... Sem
luz, sem rádio, sem televisão, é preciso fazer alguma
coisa com o vazio da noite. Vocês se lembram? Já
escrevi sobre o vazio. É preciso fazer alguma coisa com
ele, para a gente se tranquilizar. Quem está com medo não
quer ficar sozinho. Todo mundo se reunia na cozinha. A
cozinha era o melhor lugar. Todos se assentavam à roda
do fogão. Como as chamas do fogo da lenha dançam sem
parar, as sombras que elas projetam nas paredes também
dançam sem parar. Era então que os adultos começavam
a contar casos. Contavam casos de onças, de cobras
enormes, de macacos que roubavam crianças, de crianças
perdidas dentro da mata escura... E havia também as estórias
do lobisomem, da mula-sem-cabeça que soltava fogo pelas
ventas, do saci, de almas do outro mundo... O lobisomem,
o nome está dizendo, era um homem que, nas noites de
lua cheia, se transformava em lobo. Contavam de uma
mulher com o filhinho no colo e que foi atacada por um
lobisomem. Ela subiu numa árvore para se defender, mas
o lobisomem saltava e abocanhava a ponta do cobertor que
cobria o nenezinho. Quando a madrugada foi chegando o
lobisomem se foi e ela pôde voltar para casa. Mas qual
não foi o seu susto ao ver que havia fiapos de cobertor
nos dentes do seu carinhoso marido... E se contavam estórias
de almas do outro mundo, espíritos dos mortos que
voltavam para pôr medo nos vivos. Razão por que,
naqueles tempos, todo mundo tinha medo de passar perto
dos cemitérios tarde da noite. Pois era ali que as
almas do outro mundo ficavam à espreita... Se vocês
acham que isso é bobeira, eu digo que não é não.
Pois é justo isso que fazem os filmes e a televisão.
Naquele tempo não era preciso ir ao cinema e ligar a
televisão. Porque cada um tinha cinema e televisão
dentro da sua imaginação.
Foi assim que surgiram muitas das estórias infantis que
hoje estão escritas em livros. A princípio não
estavam escritas; eram só contadas, certamente à
noite, ao redor do fogo. Se as estórias eram boas
aqueles que as ouviam as aprendiam e, numa outra roda,
quando chegasse a sua vez, eles contavam as estórias
que tinham ouvido. Assim as estórias iam andando pelo
mundo, de boca em boca, seguindo a regra de que “quem
conta um conto aumenta um ponto“. Jesus foi um grande
contador de estórias. As estórias que ele contava têm
o nome de parábolas. Mas ele mesmo nunca escreveu
nenhuma. Por muitos anos elas foram passadas adiante por
aqueles que as haviam ouvido. Esse passar de uma estória
de boca em boca tem o nome de “tradição oral“. Até
que alguém, com medo de que elas se perdessem, resolveu
escrevê-las. A gente escreve algo para que aquilo não
seja esquecido, porque julgamos digno de ser preservado.
Quando eu era menino gostava de ler estórias que
estavam escritas num livro Contos de Grimm. Grimm era o
sobrenome de dois irmãos que se puseram a colecionar e
escrever estórias que andavam de boca em boca, há vários
séculos. Quando as estórias saem do “de boca em
boca” e são escritas, elas se transformam em
literatura.
O encanto da literatura está nisso: ela nos tira do
mundo das coisas reais e nos faz entrar no mundo da
fantasia. Eu posso viver num lugarzinho apertado e sem
interesse. Mas se tomo um livro, eu viajo para espaços
longínquos e tempos distantes, no passado ou no futuro.
O escritor Isaac Asimov escreveu estórias fantásticas
a acontecer daqui a 1.000 anos... E o escritor Júlio
Verne fez uma viagem à lua muitos anos antes que
houvesse aviões e foguetes. A literatura, assim, tem o
poder mágico de abolir o espaço e o tempo. Na imaginação
tudo é possível.
Na roça os livros eram raros, não havia dinheiro para
comprá-los. Mas o meu pai, que tinha sido rico antes de
ser pobre, guardou uma coleção de livros chamada Biblioteca
Internacional de Obras Célebres. Eram livros
grossos, as capas escritas com letras douradas. Eu não
sabia ler, mas meu pai me contava a estória do Robinson
Crusoé, mostrando-me a figura do Robinson Crusoé,
naufragado e sozinho numa ilha deserta, caminhando pela
praia, horrorizado diante das marcas de um pé diferente
na areia... Você já leu a estória do Robinson Crusoé?
Pois trate de ler!
Mas de todas as estórias a de que eu mais gostava era a
do Jeca Tatuzinho. Sem saber ler, eu a sabia de cor.
Jeca Tatu era um pobre caboclo que vivia numa casinha de
sapé... Doente, cheio de lombrigas, andando sempre
descalço, ele não tinha ânimo para nada. Mas depois
que tomou os remédios, se livrou das doenças, pôs as
lombrigas para fora e passou a usar sapatos, ele ficou
um espanto de força, disposição e coragem. Na fazenda
dele até os bichos passaram a usar botina. Mas a cena
de que eu mais gostava era quando, indo pelo meio do
mato, ele se encontrou com duas onças. Ele não teve
medo. Deu murro na cara da onça dizendo: “Conheceu,
papuda!“ Pois diz a estória que as onças estão
correndo até hoje...
(Correio Popular, 14/07/2002)

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