Lembro-me
do livro de contabilidade do meu pai. Ao lado esquerdo ficava
a página do “Deve”, onde ele anotava os
pagamentos feitos, dinheiro que não era mais seu. Ao
lado direito estava a página do “Haver”,
onde se registravam as “entradas”, sua pequena
riqueza. Na alma também se encontra um livro de contabilidade.
Tanto assim que o Vinícius escreveu um poema com o
título “O Haver”. Ele já estava
velho e fazia um balanço final do que restara. “Resta”:
é assim que cada verso se inicia. “Resta essa
intimidade perfeita com o silêncio... Resta esse sentimento
de infância subitamente desentranhado... Resta essa
vontade de chorar diante da beleza.. Resta essa comunhão
com os sons.... Resta essa súbita alegria ao ouvir
na madrugada passos que se perdem sem memória...”
Quem diria
que o som de passos na madrugada poderia ser parte da herança
de felicidade um poeta! Os poetas são seres muito estranhos.
Ficam felizes com nada. A poesia se faz com nadas...Bem disse
o Manoel de Barros: “Todas as coisas cujos valores podem
ser disputados no cuspe à distância servem para
poesia. As coisas que não servem para nada têm
grande importância”... Fernando Pessoa sofria
da mesma peculiaridade auditiva do Vinícius. Lembro-me
de um verso seu que não consegui encontrar, que é
mais ou menos assim: “Por esse barulho do vento nos
meus ouvidos valeu a pena eu ter nascido”. Se o verso
não foi dele fica sendo meu porque eu já tive
a mesma experiência várias vezes. Caminhando
sozinho no silêncio das árvores o vento me sussurra
segredos de felicidades: “Assim a brisa nos ramos diz
sem o saber uma imprecisa coisa feliz...” (Fernando
Pessoa ).
Ouvir
os sons do mundo é uma felicidade que somente os artistas
recebem por nascimento. Os outros têm de aprender. Para
isso há de haver os mestres da escuta. Como John Cage
que compôs uma curiosa peça para piano. É
assim: o pianista faz precisamente o que fazem todos os pianistas.
Entra no palco, encaminha-se para o piano, assenta-se, regula
a distância do banco, concentra-se – e não
faz o que todo pianista faz. Ele não toca! Não,
não! Não está certo! Eu errei! O pianista
toca sim. Ao piano ele executa o silêncio.O piano toca
uma grande pausa! Cage faz o piano tocar silêncio para
que se ouçam os delicados sons do mundo que não
seriam ouvidos se o piano tocasse: as batidas do coração,
a respiração, o ranger de uma cadeira, uma tosse,
um sussurro... “Há quem não ouça
até que lhe cortem as orelhas”, disse Lichtenberg.
O não fazer é a forma suprema de fazer, afirma
a filosofia Tao. Fazer nada é estar à espera.
Por isso se aconselha meditação, que nada tem
a ver com a meditação ocidental. A meditação
ocidental é falar baixo os próprios pensamentos
de uma forma metódica. O piano toca. Mas a meditação
oriental é silenciar os próprios pensamentos
para que os sons do mundo possam ser ouvidos. O piano não
toca. Pra que serve isso? Pra nada. Não é ferramenta.
Não tem utilidade. É coisa da caixa de brinquedos.
Só dá felicidade.
O mundo
está cheio de música. Há os sons que
não existem mais, que estão perdidos na memória.
Meu amigo Severino Antônio, poeta de voz mansa, sugeriu
aos seus alunos que um passo primeiro para a poesia seria
chamar do esquecimento os sons que um dia ouviram e que não
se ouvem mais. A música do realejo, o canto do carro
de bois, o apito das fábricas, das locomotivas, o “din-din”
dos bondes, o canto dos galos, o repicar fúnebre dos
sinos, o crepitar do fogo nos fogões de lenha, a gaita
do sorveteiro, a buzina das charretes... Parece que a poesia
fica guardada nos sons que não mais se ouvem. Há
também os sons da cidade, os gritos dos vendedores,
o vozerio nas feiras, a algazarra das crianças ao sair
das escolas, os bate-estacas das construtoras, o canto dos
pardais, os rádios ligados dos trabalhadores, o latido
ardido dos poodles... E há os sons da natureza: o assobio
do vento, o barulho da chuva, os mantras das cachoeiras, o
canto dos pássaros, dos sapos, dos grilos ( tantos
hai-kais sobre os grilos...), dos galos, o barulho das ondas...
“Todo
homem – até mesmo o rico – é poeta
entre os quinze e os vinte anos. A nova educação
deverá fazer do homem um poeta em todas as idades,
sem que lhe seja necessário escrever versos. Viver
a poesia é muito mais necessário e importante
do que escrevê-la” – assim disse Murilo
Mendes. Poesia é música. A primeira poesia que
se ouve é uma canção de ninar. Depois,
é a música do mundo...
“Agora
os ouvidos dos meus ouvidos acordaram”, escreveu Cummings.
Acordar os ouvidos! Não me consta que essa tarefa tenha
sido jamais mencionada em tratados sobre a educação.
É compreensível. Para isso os professores teriam
que ser artistas, pianos que não tocam nada e que só
fazem ouvir. Quando isso acontecer, quem sabe, os nossos jovens
aprenderão a identificar o canto dos pássaros
e ficarão subitamente alegres “ao ouvir na madrugada
passos que se perdem sem memória...”