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Tudo
começou acidentalmente num lugar de Portugal cujo nome
eu nunca ouvira: Vila Nova de Famalicão. Posteriormente
me ensinaram que era a cidade onde vivera Camilo Castelo
Branco, romancista gigante de vida trágica. Menino
ainda, li o seu livro Amor de Perdição, evidentemente
sem nada compreender. Li porque não tinha outra coisa
para fazer e o livro estava lá, na estante do meu pai.
Camilo se apaixonou por uma mulher casada que, por sua
vez se apaixonou por ele, e os dois fugiram para viver
um amor louco e criminoso. Naqueles tempos do século
passado adultério era crime, o marido traído pôs a
polícia ao encalço do sedutor que foi preso e passou
anos na prisão - sem que o seu amor diminuísse.
Imagino que o título do seu livro ‘Amor de Perdição’
tenha sido inspirado por sua própria desgraça. Mas o
marido finalmente morreu e os dois apaixonados viveram o
resto de suas vidas na casa que pertencera ao marido.
Velho, Camilo Castelo Branco ficou cego e foi abandonado
pelos amigos. De tristeza, pôs um fim à sua vida. A
casa é hoje um museu.
Existe ali um Centro de Formação Camilo Castelo
Branco, dirigido pelo professor Ademar Santos. Pois há
alguns anos atrás, por obra de uma brasileira que lá
vive, chegou às mãos do professor Ademar um livrinho
meu, velho e surrado, Estórias de quem gosta de
ensinar. O Ademar sentiu logo que éramos conspiradores
de idéias, passou a caçar o que eu escrevia,
descobrindo-me finalmente nas crônicas que publico aqui
no Correio Popular aos domingos. Passamos a nos
corresponder via e-mail e o Centro de Formação Camilo
Castelo Branco acabou por convidar-me a lá passar uma
semana. E foi o que fiz de 2 a 7 de maio. Eu já havia
estado anteriormente em Portugal como turista, tendo
conhecido monumentos, restaurantes e cidades. Dessa vez
foi diferente. Conheci pessoas. Conversei com elas. Tive
a recepção mais generosa e inteligente de toda a minha
vida. Recepções generosas - isso é fácil: passeios,
jantares, presentes, homenagens. Mas eu insisto no
‘inteligente’. Cada ocasião era uma aprendizagem
que me assombrava. Dentre elas a Escola da Ponte. Pedi
que o Ademar me desse explicações preliminares, antes
da visita. Ele se recusou. Disse-me que explicações
seriam inúteis. Eu teria de ver e experimentar.
A Escola da Ponte é dirigida por José Pacheco, um
educador de voz mansa e poucas palavras. Imaginei que
ele seria meu guia e explicador. Ao invés disso ele
chamou uma aluna de uns 10 anos que passava e disse:
‘Será que tu poderias mostras e explicar a nossa
escola a este visitante?’ Ela acenou que sim com um
sorriso e passou a me guiar. Antes de entrar no lugar
onde as crianças estavam ela parou para me dar a
primeira explicação que tinha por objetivo, imagino,
amenizar a surpresa.
Aqui, quando a gente vai a uma escola, sabe o que vai
encontrar: salas de aulas, em cada sala um professor, o
professor ensinando, explicando a matéria prevista nos
programas oficiais, as crianças aprendendo. A
intervalos regulares soa uma campainha - sabe-se então
que vai haver uma mudança - muda-se de matéria, freqüentemente
muda-se de professor, pois há professores de matemática,
de geografia, de ciências, etc., cada um ensinando a
disciplina de sua especialidade. Já falei sobre isso na
crônica passada: as linhas de montagem.
É preciso imaginar o delicioso ‘portuguesh’ que se
fala em Portugal para sentir a música segura e tranqüila
da fala da menina. ‘Nósh não têmosh, como nas
outrash escolash (daqui para frente escreverei do jeito
normal...) salas de aulas. Não temos classes separadas,
1º ano, 2º ano, 3º ano... Também não temos aulas,
em que um professor ensina a matéria. Aprendemos assim:
formamos pequenos grupos com interesse comum por um
assunto, reunimo-nos com uma professora e ela, conosco,
estabelece um programa de trabalho de 15 dias, dando-nos
orientação sobre o que deveremos pesquisar e os locais
onde pesquisar. Usamos muito os recursos da Internet. Ao
final dos 15 dias nos reunimos de novo e avaliamos o que
aprendemos. Se o que aprendemos foi adequado, aquele
grupo se dissolve, forma-se um outro para estudar outro
assunto.’
Ditas essas palavras ela abriu a porta e, ao entrar, o
que vi me causou espanto. Era uma sala enorme, enorme
mesmo, sem divisões, cheia da mesinhas baixas, próprias
para as crianças. As crianças trabalhavam nos seus
projetos, cada uma de uma forma. Moviam-se algumas pela
sala, na maior ordem, tranquilamente. Ninguém corria.
Ninguém falava em voz alta. Em lugares assim
normalmente se ouve um zumbido, parecido com o zumbido
de abelhas. Nem isso se ouvia. Notei, entre as crianças,
algumas com síndrome de Down que também trabalhavam.
As professoras estavam assentadas com as crianças, em
algumas mesas, e se moviam quando necessário. Nenhum
pedido de silêncio. Nenhum pedido de atenção. Não
era necessário.
À esquerda da porta de entrada havia frases escritas
com letras grandes, afixadas na parede. A menina
explicou: ‘Aprendemos a ler lendo frases inteiras.’
Lembrei-me que foi assim que eu aprendi a ler. Minha
primeira cartilha se chamava O Livro de Lili. Na
primeira página havia o desenho de uma menininha com o
seguinte texto, que nunca esqueci: ‘Olhem para mim./
Eu me chamo Lili./ Eu comi muito doce./ Vocês gostam de
doce?/ Eu gosto tanto de doce!’ Imaginei que a diferença,
talvez, fosse que o texto do Livro de Lili tinha sido
escrito por uma pessoa no seu escritório. E que as
frases que se encontravam escritas na parede da Escola
da Ponte eram frases propostas pelas próprias crianças,
frases que diziam o que elas estavam vivendo. Aprendiam,
assim, que a escrita serve para dizer a vida que cada um
vive. Pensei que é assim que as crianças aprendem a
falar. Elas aprendem palavras inteiras, pois somente
palavras inteiras fazem sentido. Elas não aprendem os
sons para depois juntar os sons em palavras.
‘Mas é importante saber as letras na ordem certa’,
ela continuou, ‘porque é assim que se aprende a ordem
alfabética, necessária para o uso dos dicionários’.
(Ela falava assim mesmo, não é invenção minha...)
Notei, numa mesa ao lado, uma menina que escrevia e
consultava um dicionário. Agachei-me para conversar com
ela. ‘Você está procurando no dicionário uma
palavra que você não sabe?’ - perguntei. ‘Não, eu
sei o sentido da palavra. Mas estou a escrever um texto
para os miúdos e usei uma palavra que, penso, eles não
conhecem. Como eles ainda não sabem a ordem alfabética
e não podem consultar o dicionário, estou a escrever
um pequeno dicionário ao pé da página do meu texto
para que eles o compreendam.’ ‘Estou a escrever um
texto para os miúdos’ - foi o que ela disse. Na
Escola da Ponte é assim. As crianças que sabem ensinam
as crianças que não sabem. Isso não é exceção. É
a rotina do dia-a-dia. A aprendizagem e o ensino são um
empreendimento comunitário, uma expressão de
solidariedade. Mais que aprender saberes, as crianças
estão a aprender valores. A ética perpassa
silenciosamente, sem explicações, as relações
naquela sala imensa.
Na outra parede encontrei dois quadros de avisos. Num
deles estava afixada a frase: ‘Tenho necessidade de
ajuda em...’ E, no outro, a frase: ‘Posso ajudar
em...’ Qualquer criança que esteja tendo dificuldades
em qualquer assunto coloca ali o assunto em que está
tendo dificuldades e o seu nome. Um outro colega, vendo
o pedido, vai ajudá-la. E qualquer criança que se ache
em condições de ajudar em algum assunto, coloca ali o
assunto em que se julga competente e o seu nome. Assim,
vai se formando uma rede de relações de ajuda.
Ando um pouco mais e encontro uma menina com síndrome
de Down trabalhando com outras, numa mesinha. Ela
trabalha de forma concentrada. Seu presença é uma
presença igual à de todas as demais crianças: alguém
que não sabe muitas coisas, que pode aprender muitas
coisas. Acima de tudo ela aprende que ela tem um lugar
importante na vida.
Andando, vi um texto entitulado: ‘Direitos das crianças
quanto à leitura’. O primeiro direito rezava: ‘Toda
criança tem o direito de não ler o livro de que não
gosta.’ ‘Ah!’, pensei, ‘é possível que Jorge
Luís Borges tenha andado por aqui...’ Li depois, o
texto dos ‘Direitos e Deveres’, elaborados pelas próprias
crianças. Dentre todos, o que mais me impressionou foi
o que dizia assim: ‘Temos o direito de ouvir música
na sala de trabalho para pensarmos em silêncio’...
Nesse
momento eu já estava encantado! No próximo domingo eu
conto mais... (Correio Popular, Caderno C, 21/05/2000
– publicada originalmente com o título: A Escola da
Ponte)
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