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Aforismo
que repito sempre: ‘Numa terra de fugitivos aquele que
anda na direção contrária parece estar fugindo.’ O
poeta T. S. Eliot, que o escreveu, pôs o fugitivo no
singular: um ser solitário. E era assim que eu sempre
me sentia, andando sozinho na direção contrária. Mas,
repentinamente, descobri um outro ‘fugitivo’, um
velho de longas barbas e que fumava um charuto
fedorento. Não gosto de cheiro de charutos. Mas gosto
de companhia. Aproximei-me dele e o reconheci. O nome
dele era Karl Marx. Fiquei espantado porque sempre
pensei que ele se encontrava no meio da multidão dos
que andam para a frente, os modernos, economistas,
cientistas - pois foi isso que sempre disseram dele os
que se diziam seus intérpretes. De fato, as roupas que
ele usava eram modernas, feitas de tecido fabricado
naquelas tecelagens (que ele odiava) onde trabalhavam
mulheres e crianças 16 horas por dia, para enriquecer
os donos. Evidentemente faltava-lhe tempo e habilidade
para fazer o que fazia aquele outro retrógrado chamado
Gandhi, que tecia seus próprios tecidos num tear doméstico
que ele afirmava ter poderes terapêuticos e
sapienciais. Percebi que ele era moderno por fora mas o
seu coração era retrógrado; andava para trás. Como o
meu.
Psicanalista, presto atenção nos detalhes, os lapsus,
e foi assim que descobri esse segredo que ninguém mais
sabia: um pequeno texto...Ele dizia nesse texto que o
operário, ao ver o objeto que produzira, tinha de ver o
seu próprio rosto refletido nele. Cada objeto tem de
ser um espelho, tem de ter a cara daquele que o
produziu. Quando o operário vê seu rosto refletido no
objeto que ele produziu ele sorri feliz. O trabalho, com
todo o seu sofrimento, valeu a pena: foi dor de parto.
Agora, meu leitor, lhe peço: ande por sua casa e
examine os objetos modernos que há por lá:
liquidificadores, torradeiras, fogões, computadores.
Olhando para eles, cara de quem você vê? Se, ao invés
de estar comprando um desses objetos numa dessas lojas
que vendem tudo para fazer sua mãe feliz - eles, os
vendedores, acham que sua mãe é muito curta de inteligência
e de sentimentos - você estiver numa exposição de
arte - esculturas do Santos Lopes, esse extraordinário
artista português, por exemplo - e você se apaixonar
por uma delas - você poderá procurar um lugar, na
escultura, onde ele colocou a sua assinatura. Você
compra a escultura, leva-a para sua casa, põe na sala,
e se eu for visitá-lo, ao ver a escultura, direi
imediatamente, antes de examiná-la: ‘Ah! Você tem
uma Santos Lopes!’ Todas as esculturas do Santos Lopes
têm a cara dele (mesmo que ele não as assine; são
inconfundíveis!). Mas o nome de que artesão irei dizer
ao ver seu liquidificador, sua torradeira, seu
computador, sua esferográfica? Esses objetos foram
feitos por pessoas sem nome. Foram produzidos em linhas
de montagem. São todos iguais. Quando ficam velhos são
jogados fora e outros, novos, também produzidos em
linhas de montagem, são comprados. Operários que
trabalham em linhas de montagem não assinam as suas
obras - porque não são deles - e nem vêem o seu rosto
refletido nelas. Foi isso que me fez concluir, a partir
da pequena afirmação de Marx, que ele destruiria as
linhas de montagem, se pudesse, voltando então a um
tempo passado onde cada obra era espelho com assinatura.
Acontece que objetos com o rosto do artesão e
assinatura não chegam para alimentar a economia
capitalista, que tem uma fome insaciável. Marx sonhava
com uma situação que já não mais existia, o atelier
do artesão medieval, cada artista, cada aprendiz,
fazendo uma coisa única, que nunca mais se repetiria:
em cada objeto o rosto do que o produzira, cada objeto
uma experiência de felicidade narcísica. É isso que
combina conosco, seres humanos, únicos, que nunca se
repetem.
Como são produzidos liquidificadores, máquinas de
lavar roupa, computadores, automóveis? São produzidos
numa linha de montagem. De maneira simplificada: uma
esteira que se movimenta. Ao lado dela estão operários.
Cada operário tem uma função específica. O processo
se inicia com uma peça original à qual, à medida que
a esteira corre, os operários vão acrescentando as
partes que irão compor o objeto final. Nenhum operário
faz o objeto, individualmente. Cada operário faz uma única
operação: juntar, soldar, aparafusar, cortar, testar.
O resultado da linha de montagem é a produção rápida
e controlada de objetos iguais. A igualdade dos objetos
finais é a prova da qualidade do processo. O que não
for igual, isso é, que apresentar alguma peculiaridade
que o distinga do objeto ideal, é eliminado. A função
da ‘peça original’, como se vê, é a de ser
simples suporte para as outras peças que lhe vão sendo
acrescentadas. Ao final do processo a ‘peça
original’ praticamente desapareceu. No seu lugar está
o objeto que vale pela sua função dentro do processo
econômico.
Nossas escolas são construídas segundo o modelo das
linhas de montagem. Escolas são fábricas organizadas
para a produção de unidades bio-psicológicas móveis
portadoras de conhecimentos e habilidades. Esses
conhecimentos e habilidades são definidos exteriormente
por agências governamentais a que se conferiu
autoridade para isso. Os modelos estabelecidos por tais
agências são obrigatórios, e têm a força de leis.
Unidades bio-psicológicas móveis que, ao final do
processo, não estejam de acordo com tais modelos são
descartadas. É a sua igualdade que atesta a qualidade
do processo. Não havendo passado no teste de
qualidade-igualdade, elas não recebem os certificados
de excelência ISO-12.000, vulgarmente denominados
diplomas. As unidades bio-psicológicas móveis são
aquilo que vulgarmente recebe o nome de ‘alunos’.
As linhas de montagem denominadas escolas se organizam
segundo coordenadas espaciais e temporais. As
coordenadas espaciais se denominam ‘salas de aula’.
As coordenadas temporais se denominam ‘anos’ ou ‘séries’.
Dentro dessas unidades espaço-tempo os professores
realizam o processo técnico-científico de acrescentar
sobre os alunos os saberes-habilidades que, juntos, irão
compor o objeto final. Depois de passar por esse
processo de acréscimos sucessivos - à semelhança do
que acontece com os objetos originais na linha de
montagem da fábrica - o objeto original que entrou na
linha de montagem chamada escola (naquele momento ele
chamava ‘criança’) perdeu totalmente a visibilidade
e se revela, então, como um simples suporte para os
saberes-habilidades que a ele foram acrescentados
durante o processo. A criança está, finalmente,
formada, isso é, transformada num produto igual a
milhares de outros. ISO-12.000: está formada, isto é,
de acordo com a forma. É mercadoria espiritual que pode
entrar no mercado de trabalho.
Aí o meu companheiro de direção contrária me
perguntou se não seria possível mudar as coisas.
Abandonar a linha de montagem de fábrica como modelo
para a escola e, andando mais para trás, tomar o modelo
medieval da oficina do artesão como modelo para a
escola. O mestre-artesão não determinava como deveria
ser o objeto a ser produzido pelo aprendiz. Os
aprendizes, todos juntos, iam fazendo cada um a sua
coisa. Eles não tinham de reproduzir um objeto ideal
escolhido pelo mestre. O mestre estava a serviço dos
aprendizes e não os aprendizes a serviço dos mestres.
O mestre ficava andando pela oficina, dando uma sugestão
aqui, outra ali, mostrando o que não ficara bem,
mostrando o que fazer para ficar melhor (modelo
maravilhoso de ‘avaliação’). Trabalho duro, fazer
e refazer. Mas os aprendizes trabalham sem que seja
preciso que alguém lhes diga que devem trabalhar.
Trabalham com concentração e alegria, inteligência e
emoção de mãos dadas. Isso sempre acontece quando se
está tentando produzir o próprio rosto (e não o rosto
de um outro). Ao final, terminado o trabalho, o aprendiz
sorri feliz, admirando o objeto produzido.
São extraordinários os esforços que estão sendo
feitos para fazer nossas linhas de montagem chamadas
escolas tão boas quanto as japonesas. Mas o que eu
gostaria mesmo é de acabar com elas. Sonho com uma
escola retrógrada, artesanal...
Impossível? Eu também pensava. Mas fui a Portugal e lá
encontrei a escola com que sempre sonhara: a Escola da
Ponte. Me encantei vendo o rosto e o trabalho dos
alunos: havia disciplina, concentração, alegria e
eficiência.
Domingo
que vem falarei sobre ela. (Correio Popular, Caderno C,
14/05/2000 – publicada originalmente com o título:
Quero uma escola retrógrada.)
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