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nome do filme, acho que era “Queijo Suíço“. O
Gordo e o Magro estavam sem emprego. Precisavam ganhar
dinheiro. Ouviram que a Suíça era um país famoso
pelos seus queijos. Pensaram: “Se na Suíça há
muitos queijos é lógico que lá deverá haver muitos
ratos. Mas ninguém gosta de ratos. E, em especial, os
fabricantes de queijos devem odiar os ratos. Se não
gostam dos ratos é lógico que a Suíça deve ser um
excelente mercado para matadores de ratos.“ Tomaram,
então, uma decisão: “Vamos matar ratos da Suíça“.
Puseram-se, então, a pensar sobre a tecnologia adequada
para matar ratos. Consultaram a bibliografia disponível.
Leram sobre um famoso matador de ratos imortalizado pela
literatura: um flautista! Aconteceu na cidade de Hamelin
que havia sido tomada por milhões de ratos. Eram tantos
que gatos e ratoeiras eram inúteis. Pois o dito
flautista se livrou deles de uma forma insólita: pôs-se
a tocar uma flauta e os ratos, amantes da música, foram
hipnotizados, saíram de seus buracos e puseram-se a
segui-lo por onde ia. Ele, então, simplesmente entrou
no rio que passava pela cidade tocando sua flauta. Os
ratos, esquecidos de que não sabiam nadar, entraram
também no rio, foram levados pela correnteza e
morreram.
Mas o Gordo e o Magro não sabiam tocar flauta. Assim,
deixaram de lado essa tecnologia musical. Pensaram em
usar ratoeiras para matar os ratos. Mas os ratos são
espertos. Logo eles aprendem sobre as ratoeiras e não
mais caem na armadilha mortal. Examinaram, depois, a
possibilidade de usar gatos. Mas os gatos logo se tornam
um problema. Multiplicam-se com rapidez idêntica à dos
ratos e tornam-se uma peste pior que os ratos, tal como
aconteceu no palácio do rei. Além disto, depois de
comer todos os ratos a fome dos gatos não cessa e eles
passam então a devorar pássaros, que todos amam por
sua beleza e canto. Na ausência dos ratos, sabiás,
pintassilgos, canários, rolinhas, pombas e curruiras
passam a ser a comida diária dos gatos.
Descartadas flautas, ratoeiras e gatos, o Gordo e o
Magro pensaram: é tolice tentar acabar com os ratos
depois que eles entram no quarto dos queijos. O certo é
impedir que eles entrem no quarto dos queijos. Mas eles
só entram no quarto dos queijos se houver buracos. Ora,
se os buracos forem tampados eles não poderão entrar.
Não entrando, os queijos não serão comidos. Concluíram,
então, que a eliminação científica dos ratos se
consegue por meio de uma técnica baseada na dialética
entre buracos abertos e buracos tampados.
Munidos dessa nova técnica bateram à porta da primeira
fábrica de queijos e ofereceram seus serviços. O dono
ficou encantado porque havia muitos ratos a comer os
seus queijos. O Gordo e o Magro se puseram a trabalhar.
A primeira coisa que fizeram foi tirar de sua caixa de
ferramentas uma pua grossa com a qual fizeram um buraco
redondo no assoalho do depósito dos queijos. O dono da
fábrica lhes perguntou: “Para que esse buraco?“
Responderam: “Para os ratos passarem!“ A seguir,
tiraram da mesma caixa de ferramentas um tarugo de
madeira com o qual tamparam o buraco que haviam feito.
“Para que esse tarugo de madeira no buraco?“
perguntou de novo o dono da fábrica. E eles
responderam: “Para os ratos não passarem...“
Não me lembro do final do filme. Mas sei que o Gordo e
o Magro estavam certos: para acabar com os ratos é
preciso tampar os buracos por onde entram.
Aí eu me perguntei: “Mas quem é que faz os buracos
pelos quais os ratos entram no quarto dos queijos?“
A resposta é simples: os ratos entram no quarto dos
queijos porque nós, cidadãos, fazemos os buracos. Os
ratos estão lá por culpa nossa. Os buracos através
dos quais os ratos entram são os nossos votos. Os ratos
entram no quarto dos queijos democraticamente...
É fácil fazer um regime com votos e eleições. Votos
e eleições dão a impressão de democracia... Mas não
bastam para impedir a invasão dos ratos. Votos e eleições
são apenas meios - necessários mas não
suficientes - para que a democracia aconteça. A
democracia se assemelha a uma obra de arte. Tome a Pietà,
por exemplo. Ela não é o resultado de cinzéis e
martelos, embora cinzéis e martelos tenham sido usados
por Michelangelo para esculpi-la. Mas, antes que cinzéis
e martelos fossem usados, foi necessário que a idéia
da Pietà tivesse surgido na cabeça de Michelangelo. Os
cinzéis e martelos foram apenas os meios usados
pelo artista para realizar sua idéia. Assim é a
democracia: ela é uma obra de arte coletiva. Começa
com as idéias do povo. Votos e eleições são meios
para que o pensamento do povo se realize.
Aqui se encontra a delicadeza e fragilidade da
democracia: para que ela se realize é preciso que o
povo saiba pensar. Se o povo não souber pensar, votos e
eleições não a produzirão. A presença dos ratos na
vida pública brasileira é evidência de que o nosso
povo não sabe pensar, não sabe identificar os ratos...
Não sabendo identificar os ratos, o próprio povo,
inocentemente, abre os buracos pelos quais eles entrarão.
Mas, o que é que ensina o povo a pensar? É a educação.
O fundamento da democracia é a educação do povo.
Os presença dos ratos na vida política brasileira,
sendo evidência de que o nosso povo não sabe pensar é,
assim, evidência também de que nossas instituições
de educação e ensino não cumpriram a sua missão mais
importante que é a de ensinar o povo a pensar. Ensinar
o povo a pensar: isso não se identifica nem com a
transmissão de conhecimentos e nem com a produção de
pesquisas.
É hora de perguntar: o que há de errado com a educação
no Brasil? Se a educação não cumprir a sua missão o
povo não aprenderá a pensar e estaremos condenados a
conviver permanentemente com os ratos. E, infelizmente,
não é possível chamar o Gordo e o Magro para tapar os
buracos por onde os ratos entram... (Folha de S. Paulo,
Tendências e Debates, 18/06/2001.)
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