O professor
Pardal gostava muito do Huguinho, do Zezinho e do Luizinho,
e queria fazê-los felizes. Inventou, então, brinquedos
que os fariam felizes sempre, brinquedos que davam certo sempre:
uma pipa que voava sempre, um pião que rodava sempre
e um taco de beisebol que acertava sempre na bola. Os três
patinhos ficaram felicíssimos ao receber os presentes
e se puseram logo a brincar com seus brinquedos que funcionavam
sempre. Mas a alegria durou pouco. Veio logo o enfado. Porque
não existe nada mais sem graça que um brinquedo
que dá certo sempre. Brinquedo, prá ser brinquedo,
tem de ser um desafio. Um brinquedo é um objeto que,
olhando para mim, me diz: “Veja se você pode comigo!”
O brinquedo me põe à prova. Testa as minhas
habilidades. Qual é a graça de armar um quebra
cabeças de 24 peças? Pode ser desafio para um
criança de 3 anos, mas não para mim. Já
um quebra-cabeças de 500 peças é um desafio.
Eu quero juntar as suas peças! E, para isso, sou capaz
de gastar meus olhos, meu tempo, minha inteligência,
meu sono..
Qualquer
coisa pode ser um brinquedo. Não é preciso que
seja comprado em lojas Na verdade, muitos dos brinquedos que
se vendem em lojas não são brinquedos precisamente
por não oferecerem desafio algum. Que desafio existe
numa boneca que fala quando se aperta a sua barriga? Que desafio
existe num carrinho que anda ao se apertar um botão?
Como os brinquedos do professor Pardal, eles logo perdem a
graça. Mas um cabo de vassoura vira um brinquedo se
ele faz um desafio: “Vamos, equilibre-me em sua testa!”
Quando eu era menino eu e meus amigos fazíamos competições
para saber quem era capaz de equilibrar um cabo de vassoura
na testa por mais tempo. O mesmo acontece com um corda no
momento em que ela deixa de ser coisa para se amarrar e passa
a ser coisa de se pular. Laranjas podem ser brinquedos? Meu
pai era um mestre em descascar laranjas sem arrebentar a casca
e sem ferir a laranja. Para o meu pai a laranja e o canivete
eram brinquedos. Eu olhava para ele e tinha inveja. Assim,
tratei de aprender. E ainda hoje, quando vou descascar uma
laranja, ela vira brinquedo nas minhas mãos ao me desafiar:
“Vamos ver se você é capaz de tirar a minha
casca sem me ferir e sem deixar que ela arrebente...”
Para
um alpinista o Aconcágua é um brinquedo: é
um desafio a ser vencido. Mas um morrinho baixo não
é brinquedo porque é muito fácil; não
é desafio. Ao escalar o Aconcágua ele está
medindo forças com a montanha ameaçadora! E
pelo desafio dos picos os alpinistas arriscam as suas vidas,
e muitos morrem. Parodiando o Riobaldo: “Brincar é
muito perigoso...”
Há
brinquedos que são desafios ao corpo, à sua
força, habilidade, paciência.. E há brinquedos
que são desafios à inteligência. A inteligência
gosta de brincar. Brincando ela salta e fica mais inteligente
ainda. Brinquedo é tônico para a inteligência.
Mas se ela tem de fazer coisas que não são desafio,
ela fica preguiçosa e emburrecida. Todo conhecimento
científico começa com um desafio: um enigma
a ser decifrado! A natureza desafia: “Veja se você
me decifra!” E aí os olhos e a inteligência
do cientista se põem a trabalhar, para decifrar o enigma.
Assim aconteceu com Kepler cuja inteligência brincava
com o movimento dos planetas.. Assim aconteceu com Galileu
que, ao observar a natureza, tinha a suspeita de que ela falava
uma linguagem que ele não entendia. Pôs-se então
a observar e a pensar ( ciência se faz com essas duas
coisas, olho e cérebro! ) até que decifrar o
enigma: a natureza fala a linguagem da matemática!
E até hoje os cientistas continuam a brincar o mesmo
brinquedo descoberto por Galileu. Aconteceu assim também
com um monge chamado Mendel. No seu mosteiro havia uma horta
onde cresciam ervilhas. Os outros monges, vendo as ervilhas,
pensavam em sopa. Mas Mendel percebeu que elas escondiam um
segredo. E ele tanto fez que acabou por descobrir o seu segredo
que nos revelou o incrível mundo da genética.
E não é esse mesmo jogo que faz a criança
que está começando a aprender a ler? Ela olha
para as palavras – ervilhas – e tenta decifrar
a palavra que elas formam. Tudo é brinquedo!
Congressos
de educação: a gente pensa logo em professores,
psicólogos, “papers” científicos,
filósofos... Estive em um, na Itália, diferente,
onde havia muitas crianças. E havia uma oficina em
que um “mestre” ensinava às crianças
a arte de fazer brinquedos. Um deles era um par de pregos
grandes, tortos, entrelaçados que, se a gente for inteligente,
consegue separar. Gastei uns bons dez minutos lutando com
os pregos, absorvido, inutilmente. De repente me perguntei:
“Por que eu assim gastando o meu tempo com um par de
pregos?” Eu lutava com os pregos pelo desafio. Eu queria
provar que eu podia com eles... Repentinamente percebi que
a primeira terefa do professor é, à semelhança
dos pregos, entortar a sua “disciplina” ( ô,
palavra feia, imprópria para uma escola! ) e para transformá-la
num brinquedo que desafie a inteligência do aluno.Pois
não é isso que são a matemática,
a física, a química, a biologia, a história,
o português? Brinquedos, desafios à inteligência.
Mas, para isso, é claro, é preciso que o professor
saiba brincar e tenha uma cara de criança, ao ensinar.
Porque cara feia não combina com brinquedo...