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Minhas
Netas: Quando vocês estão com dor de cabeça vocês
sabem que aspirina é o remédio. É uma tosse
fraquinha? É só comprar um xarope na farmácia. A
tosse não passa, está com febre? É melhor ir ao médico.
Pode ser pneumonia. O médico examina, escuta os pulmões
com um estetoscópio. Muitas palavras a gente usa sem
saber o que significam. Estetoscópio é uma delas. Quem
batizou esse instrumento, possivelmente o seu inventor,
juntou duas palavras gregas: stethos, que quer
dizer “peito“, e skopein, que quer dizer “ver,
examinar“. Então estetoscópio é um instrumento que
se usa para ouvir o que está dentro do peito. Antes do
estetoscópio o médico usava era mesmo o ouvido. Li, não
sei onde, e nem sei se é verdade, que quem inventou o
estetoscópio era um médico muito tímido que ficava
vermelho de vergonha toda vez que tinha de encostar o
seu ouvido no peito de uma mulher, especialmente se os
seios dela eram grandes e ele tinha de usar suas mãos
para afastá-los. Para se livrar desse embaraço ele
passou a usar um canudo de papelão, e descobriu que
assim se ouvia muito melhor. O resto foram melhorias...
Pois o médico escuta os pulmões, diz que há um ronco
estranho na base do pulmão esquerdo, pede uma
radiografia para confirmar o que o ouvido ouviu.
Radiografia, como vocês sabem, é um tipo especial de
fotografia. O aparelho de Raio-X, que faz a radiografia,
é uma máquina fotográfica que fotografa aquilo que os
olhos não vêem, o que está dentro do corpo, usando
raios que atravessam os músculos. O médico vê a
fotografia dos pulmões, encontra uma mancha no lugar
onde o estetoscópio havia detectado um ronco, e dá o
diagnóstico, isto é, diz a sua conclusão. “É, você
está com pneumonia. Tem de tomar um antibiótico.“ A
pessoa toma o antibiótico e fica boa. Nós procedemos
assim porque confiamos nos remédios e nos médicos.
Confiamos nos remédios porque eles são produzidos com
os resultados da ciência. E confiamos nos médicos
porque os seus saberes são os saberes da ciência. Não
sabemos. Confiamos.
Mas lá na roça não havia remédios para se comprar
porque não havia farmácias e nem médicos que
identificassem a doença e conhecessem o remédio certo.
Na roça a farmácia não era de comprimido, xarope e
injeção. Na roça a farmácia crescia na horta: ervas
medicinais. E cada pessoa tinha de saber transformar a
erva em bebida. O processo era simples: tomavam-se as
folhas e as colocavam em água fervente. Virava chá. Chá
de guaco, chá de camomila, chá de hortelã, chá de
folha de laranja, chá de funcho, chá de boldo, chá de
carqueja, chá de losna... A lista não tem fim. E cada
pessoa tinha de ser o médico: tinha de saber
identificar as doenças: vento virado, espinhela caída,
nó na tripa, estupor, dor de barriga, indigestão,
caganeira, torcicolo, batedeira do coração, congestão,
galo, queimação no estrambo, erisipela, furunco, cabeça
de prego, barriga d’água, derrame, reumatismo, mal
dos sete dias, picadura de cobra, picadura de aranha,
picadura de escorpião, queimadura, espinho, hérnia,
dor de cabeça, sangue pisado, corte, queimadura de
taturana, coceira de urtiga, enjôo de estrambo, crupe,
coqueluche, tétano, morróida, nervosia, perna
quebrada, bicho-de-pé, berne, lumbriga...
Quem faz chás já sabe um pouco de química: sabe que
água fervendo é solvente poderoso que pode extrair das
folhas das plantas os seus líquidos curativos. O que me
intriga é a história de como os homens descobriram as
plantas que curam. Porque plantas, há aos milhares.
Como é que eles ficaram sabendo que essa planta é boa
para isso, aquela outra é boa para aquilo? Conhecimento
não cai do céu. Ele nasce da experiência. Por vezes,
vendo o efeito da planta num animal. Conta a lenda que
foi assim que se descobriu o café: um pastor de cabras,
no oriente, percebeu que suas cabras ficavam mais ativas
e vivas depois que comiam umas frutinhas vermelhas Ele
ficou curioso, começou a experimentar as frutinhas,
teve a idéia de torrar as sementes e moê-las para
misturá-las com água fervente – e foi assim que o
café foi descoberto. Por vezes a experiência era
outra: o animal comia a planta, estrebuchava e morria. A
conclusão era clara: aquela planta era veneno. Quem
bebe veneno morre. Mas podia ser usado em pontas de
flechas. O filósofo Sócrates foi condenado por um
tribunal da cidade de Atenas a morrer, bebendo o suco de
uma planta venenosa chamada cicuta. Peça ao seu
professor ou ao seu pai que lhe conte a história de Sócrates
e lhe explique o que ele ensinava. Os venenos sempre
foram usados com fins políticos, para matar os
inimigos. Prestem atenção quando forem ao restaurante:
quando se serve vinho, o garçom põe o vinho primeiro
no copo daquele que vai pagar a conta, e ele bebe e
aprova. Dizem que é para ver se o vinho está bom. Não
é não. Esse ritual tem suas origens em tempos muito
antigos: o anfitrião (aquele que convidou) bebia do
vinho diante dos convidados como que para lhes dizer:
“Podem beber. Não está envenenado!” Hoje, para
matar os inimigos, os políticos não usam mais bebidas
envenenadas. Eles usam palavras envenenadas... O
interessante é que os venenos, se usados em doses mínimas,
podem ter efeitos curativos.
Eu mesmo experimentei e ainda experimento os poderes dos
chás. Um deles, terrível, se chama losna. É uma
planta que cresce no mato. Eu já era mais crescidinho e
fiz uma maldade. Peguei uma saracura numa arapuca.
Saracura é uma ave do tamanho de um franguinho. Pois eu
matei a saracura e pedi para a cozinheira fazer um
ensopado de saracura. Ela fez. Eu comi. Castigo da
saracura: tive uma dor de estômago terrível. A
cozinheira, apelidada Tofa (seu nome era Astolfina) me
disse: “O remédio é chá de losna”. Ela fez o chá
de losna e eu bebi. Juro: não existe no mundo coisa
mais amarga que losna. Foi o chá de losna cair no meu
estômago e a saracura saiu voando pela minha boca...
Fiquei curado da minha dor.
E os poderes do maracujá? O maracujá é calmante. Há
muitos remédios em nossas farmácias feitos à base de
maracujá. Sobre o maracujá há uma linda lenda. O nome
científico do maracujá é “passiflora“: do Latim
passio, que quer dizer “paixão“ e flora, que quer
dizer “flor“: flor da paixão. Que paixão? A paixão
de Nosso Senhor Jesus Cristo, na cruz. A flor do maracujá
é roxa. A lenda explica por que ela é roxa. Havia até
uma poesia que começava assim:
“Maracujá já foi branco,
Eu posso inté lhe jurá,
Mais branco que o argodão,
Mais branco que o luá...“
O resto, eu esqueci. Mas me lembro da estória. Ao pé
da cruz de Cristo havia um pé de maracujá florido com
suas flores brancas. Mas o sangue de Cristo pingou nas
flores, e elas ficaram roxas. É por isso que se chama
passiflora, flor da paixão. É claro que isso é apenas
uma lenda... bonita... Refresco de maracujá é bom para
quem tem insônia. Um copo de refresco de maracujá
antes de dormir dá sono tranquilo...
Quando eu estava com tosse – a maldita tosse de
cachorro, aquela que raspa na garganta e dói - minha mãe
me dava um chá de canela e punha angu quente no peito.
Angu quente porque não havia bolsa de água quente.
Minha mãe sabia que o calor ajudava a dissolver os
catarros que ficam nos brônquios e nos pulmões. Claro,
não era angu quente, direto no peito. Derramava-se o
angu mole num pano, embrulhava-se o angu no dito pano e
se colocava o calor embrulhado sobre o peito. Era bom. O
calor ajuda a aliviar a dor. Para dor de garganta,
gargarejo de água morna e sal. Ou um pano embebido em
álcool (pinga faz o mesmo efeito) e enrolado no pescoço.
Quando eu era menino e estava na escola não gostava de
estudar história. História amargava feito losna. Eu
tinha de decorar datas, nomes de batalhas, nomes de
homens sem sentido, acontecimentos políticos que não
me interessavam, guerras. Acontecia o que aconteceu com
o ensopado de saracura: eu vomitava, esquecia... Mas eu
teria amado estudar a história dos homens na sua luta
contra a dor, contra a doença e a morte!
No princípio era a dor... Foi a dor que fez os homens
pensar. Pensaram no que fazer para parar de sofrer. A ciência
começa sempre com a dor. E todo o conhecimento científico
que os homens criaram e acumularam através dos milênios
tem um objetivo apenas: fazer com que soframos menos. É
preciso não sofrer para poder ter alegrias. Assim, a ciência,
que tira a dor, está a serviço da arte, que dá
alegria.
(Correio Popular, 23/06/2002)

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