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| Diário de Laura I |
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(extracto do Diário de uma mulher católica a caminho da descrença) Laura Ferreira dos Santos 25 de Junho de 2000 No dia 8 deste mês o Osvaldo perguntou-me se estaria disposta a escrever um texto para o Kiosk sobre o pedido papal de perdão. Coincidência estranha: nesse mesmo dia, era ‘rasteirada’ num concurso da minha universidade e chegava-me de França uma encomenda de livros, entre os quais se encontrava o texto elaborado pela Comissão Teológica Internacional, intitulado em francês Mémoire et réconciliation. L\'Église et les fautes du passé, escrito em vista da celebração do Jubileu do ano 2000. A partir desse dia 8, não podia esquecer a ‘rasteira’ que me tinham feito, mas também não podia viver obcecada por ela — memória e reconciliação, processo sempre em aberto que se revestia (e reveste) agora para mim desta forma bem concreta. No caso da universidade, não era a memória das minhas faltas que me assediava — no máximo, apenas o das minhas ingenuidades. Um outro tipo de memória actuava aqui: a memória da ofensa e da impotência perante ela, a memória desarmada da derrota injusta. Como lutar com armas honestas contra aqueles e aquelas para quem a honestidade não é uma prioridade, ou é o simples resultado de uma equação de interesses, a incentivar ou despromover consoante o que se pretende atingir? A memória e a reconciliação. Com a ofensa. Com a derrota. Memória: o não esquecimento do imprescritível, mas também a sua não recordação permanente ou excessiva. As pessoas histéricas vivem de reminiscências, avisava Freud. Reminiscências negativas, é óbvio. Mas para que possamos viver num certo equilíbrio psíquico, não nos podemos deixar invadir excessivamente pela dor e pela impotência, ou acabamos no suicídio. A memória excessiva não nos deixa respirar, a falta de memória pode conduzir-nos à insanidade da falta de ética. O ano passado li sofregamente na praia, em frente ao mar, O hotel branco, de Donald Michael Thomas. O livro falava-me, com uma mestria toda feita de recuo inteligente e sensível, de duas das minhas paixões: Freud e a perseguição aos judeus na II grande guerra. Ia desfiando as páginas, e a surpresa e o sorriso apoderavam-se de mim: como era possível que Thomas tivesse ‘ligado’ tão bem os diversos capítulos que nos ia oferecendo, aparentemente bem distintos, mas que acabavam por se entrelaçar de um modo tão vincado e de facto surpreendente? Na altura, pensei que se eu pudesse ter aquela forma de recuo inteligente e sensível perante os aspectos negativos da minha vida, seria feliz. E, ingenuamente, era incapaz de imaginar que Thomas não o fosse. O recuo. Talvez outra forma de dizer a reconciliação. 30 de Junho Nos últimos tempos, tem-me apetecido imenso ir a Auschwitz, nem sei bem porquê. Como se, perante um dos nossos monumentos mais conhecidos à pulsão de destruição, eu fosse definitivamente compelida a escolher entre o suicídio e alguma forma de amor à vida. Se eu conseguisse de algum modo ‘perdoar’ Auschwitz, poderia reconciliar-me com a vida e deixá-la correr, mesmo quando nos magoa ao extremo. Reconciliar-me com a vida, mas não ao género de um sim heróico e trágico ao eterno retorno de tudo o que de mal já aconteceu. Aliás, Deleuze já só conseguiu interpretar o eterno retorno nietzscheano como um eterno retorno selectivo. Talvez precisamente porque já escrevia depois de Auschzwitz e não podia suportar a ideia de que a sua racionalidade perversa pudesse voltar. Quem pode?… 5 de Julho Memória e reconciliação fala da necessidade de uma purificação da memória. Mas de quem é esta memória que se invoca? A certa altura, afirma-se no texto: ‘Purificar a memória significa eliminar da consciência pessoal e colectiva todas as formas de ressentimento ou violência que a herança do passado aí tenha deixado, na base de um novo e rigoroso juízo histórico-teológico que funde um consequente e renovado comportamento moral’. Afinal, a Igreja pretende em primeiro lugar purificar a sua memória das faltas que cometeu e continua a cometer, ou purificar a memória dos outros contra os quais agiu mal? Embora o documento insista sobretudo nos males cometidos pelos ‘cristãos’, parece de facto haver também a intenção de purificar a memória dos outros. Mas não seria melhor a Igreja preocupar-se apenas com a sua própria memória?… Já não basta de ingerências na consciência e na memória dos outros? 7 de Julho É difícil ler Memória e reconciliação e não ficar cansada de um discurso quase inteiramente declinado no masculino. Se as minhas contas estão exactas, os termos filho ou filhos — filho ou filhos da Igreja — aparecem nele 41 vezes (a que se pode acrescentar mais umas 4 vezes, nas notas). E a estes filhos humanos pode-se acrescentar o Filho divino, invocado umas 10 vezes, sendo os primeiros filhos, os humanos, ‘filhos no Filho’. Por outro lado, o termo ‘filha’ nunca é utilizado. Quanto à palavra ‘cristãos’, aparece 40 vezes, não havendo qualquer lugar para que a palavra ‘cristã’ possa significar uma mulher ou possa ser uma forma de a qualificar religiosamente. ‘Cristã’ só aparece como um qualificativo da fé, da esperança, da religião, da comunidade, etc. Por sua vez, os termos ‘pais’ ou ‘pai’ aparecem 5 vezes, mais 13 vezes nas notas, enquanto a palavra ‘Pai’ (Deus-Pai) é utilizada 6 vezes. Mãe humana é que não há nenhuma. É certo que o termo é utilizado, mas nunca para se referir a uma mulher. A mãe terrestre de carne e osso é inteiramente substituída pela…Igreja Mãe. Assim, obviamente, a maternidade privilegiada é a da Igreja, citando-se a propósito Paulino de Nola: ‘Como mãe [a Igreja] recebe a semente da Palavra eterna, traz os povos no seio e dá-os à luz.’ Aliás, o termo ‘mulher’ apenas aparece uma única vez, quando se invocam os ‘corajosos homens e mulheres’ que, com risco da sua própria vida, ajudaram os judeus durante a II guerra. Os termos ‘homem’ ou ‘homens’ conhecem melhor sorte: 9 vezes no corpo principal do texto e uma nas notas. Quanto aos termos inclusivos ‘ser humano’ ou ‘seres humanos’, ainda conseguem surgir 4 vezes. De qualquer modo, é altamente sintomático que neste documento não haja qualquer rasto de mães e filhas, surgindo apenas por uma única vez a referência a mulheres. Como não me recordar aqui de uma das versões do mito de Pallas Athena, segundo a qual Athena, já toda armada, foi dada à luz pela cabeça do seu pai Zeus, instância divina que entretanto tinha engolido a deusa Métis, grávida de Athena? Também neste documento da Igreja as filhas e as mães são engolidas, as primeiras pelos irmãos, as segundas pela Mãe Igreja e pelo pai humano e divino. Quanto a filhos, há-os por todo o lado, como se fossem os filhos da horda primitiva. No caso do presumido assassinato primordial imaginado por Freud em Totem e tabu, também não há filhas ou mães — apenas filhos. Talvez que as faltas do passado que a Igreja quer expiar sejam basicamente faltas cometidas de facto pelos seus filhos e não pelas suas filhas. Assim se explicaria a linguagem androcêntrica do texto. Será mesmo assim?… 15 de Julho A 12 de Março deste ano, no primeiro Domingo da Quaresma, o Papa celebrou uma Eucaristia para ‘confissão das culpas e pedido de perdão’. Culpas dos ‘filhos’ da Igreja, é claro, com vista à almejada ‘purificação da memória’. Depois de uma ‘Confissão dos pecados em geral’, há uma tentativa de pormenorização. Temos, assim: . a ‘confissão das culpas no serviço da verdade’; . a ‘confissão dos pecados que comprometeram a unidade do Corpo de Cristo’; . a ‘confissão das culpas no relacionamento com Israel’; . a ‘confissão das culpas cometidas por procedimentos contra o amor, a paz, os direitos dos povos, o respeito pelas culturas e pelas religiões’; . a ‘confissão dos pecados que feriram a dignidade da mulher e a unidade do género humano’; . a ‘confissão dos pecados no âmbito dos direitos fundamentais da pessoa’. Perante este esquema, o que me apetece dizer de imediato é que se ele me fosse mostrado por uma mestranda ou um mestrando com vista à elaboração de uma dissertação, teria de lhe recomendar vivamente que o alterasse, pois há nele elementos que se encontram subsumidos noutros, e não devem aparecer como se tivessem direito a um destaque independente. Por exemplo: as ‘culpas no serviço da verdade’ e as ‘culpas no relacionamento com Israel’ não derivam ‘simplesmente’ de um ‘procedimento contra o amor’ e de ‘pecados no âmbito dos direitos fundamentais da pessoa’? Aliás, na ‘confissão das culpas no serviço da verdade’ assume-se claramente que os métodos de intolerância utilizados fizeram com que os ‘cristãos’ se afastassem ‘do grande mandamento do amor’. Num pedido de perdão a que se dá tanta importância, teria sido portanto agradável verificar um maior cuidado na arrumação e desenvolvimento dos temas. O elogio da pobreza feito por Cristo e pela Igreja-Mãe não tem que ver, que eu saiba, com a falta de qualidade intelectual. Mas não me vou deter aqui. Cada um destes temas ou confissões fora já abordado anteriormente em textos específicos, de Paulo VI ou do próprio João Paulo II, e pelos vistos ninguém se quis dar ao trabalho de fazer a sua articulação. Vou-me deter antes em cada um dos pontos enunciados. Antes disso, porém, penso que será bom fazer uma radiografia ao léxico utilizado, semelhante à que fiz com o documento Memória e reconciliação. Obviamente, há constantes: os termos ‘homem’ e ‘homens’ são utilizados 5 vezes, enquanto os termos ‘mulher’ e ‘mulheres’ nos surgem 3 vezes; o termo ‘filhos’ é utilizado 4 vezes, a que podemos acrescentar as outras 4 vezes em que é utilizado o termo ‘Filho’ para assim designar Cristo; de filhas não há qualquer rasto, assim como de mães, enquanto os pais têm direito a ser invocados por duas vezes, e o Pai a 6; os ‘cristãos’, esses, são mencionados por 9 vezes, ‘inexistindo’ o termo ‘cristã’ ou ‘cristãs’; finalmente, é de referir que os termos ‘ser humano’ ou ‘seres humanos’ são utilizados por duas vezes. Como na análise anterior, a ausência completa de filhas e mães continua a ser significativa, não obstante a ‘dignidade da mulher’. 19 de Julho Vou tentar agora debruçar-me sobre cada uma das confissões mencionadas. Na ‘confissão das culpas no serviço da verdade’, fala-se dos ‘homens de Igreja que às vezes lançaram mão de métodos não evangélicos’ — de ‘intolerância’, diz-se mais adiante — ‘no cumprimento da obrigação de defender a verdade’, pedindo-se misericórdia a Deus para estes ‘filhos pecadores’. Pergunto: quando ouvimos falar destes homens e filhos da Igreja a defender a ‘verdade’ com métodos execráveis, o nosso imaginário também inclui aí mulheres? Quem detinha a ‘autoridade’ na Igreja? Quem era suposto defendê-la a todo o custo? Quem é a cabeça da Igreja? Cristo. E a cabeça da mulher? O homem. Não é isso que se afirma em (ou é atribuído a) S. Paulo? Estes ‘homens’, todos convictos de terem a alta missão de defender a fé e a moral, não eram de facto apenas (ou sobretudo) ‘homens’, ou seja, elementos masculinos da espécie humana? Daí, com certeza, que não se fale de filhas, mas apenas de filhos. Não se deve tratar de discriminação, mas apenas da inescapável realidade nua e crua. Quanto à ‘confissão dos pecados que comprometeram a unidade do Corpo de Cristo’, pergunto: quem andou sobretudo em guerras contra-ecuménicas e numa guerrilha constante de excomunhões? Quem deu o exemplo? As mulheres? Ou os homens de Igreja, no sentido de homens ‘de topo’ da Igreja hierárquica ou das diversas igrejas hierárquicas? E, sinceramente, não sei se, até certo ponto, não se deve dar graças a Deus por os cristãos, melhor, as hierarquias das igrejas cristãs, se terem incompatibilizado tanto. Se, noutros séculos, tivessem estado unidas, o que teria sido da magra liberdade humana então existente? O que não teria feito o Grande Inquisidor de Dostoievski? Para onde fugir? É aliás curioso que a unidade vislumbrada pelas Igrejas seja em primeiro lugar uma unidade doutrinal. A tão almejada unidade entre as pessoas cristãs não deve ser prioritariamente uma unidade provocada pelo amor que entre elas exista, independentemente de terem ou não as mesmas opiniões doutrinais?… Não há aqui uma manifesta inversão de prioridades? Afinal, era a unidade doutrinal que Cristo tão fortemente desejava entre os seus discípulos e as suas discípulas? Uma unidade em torno de dogmas e anátemas?… Não estarão a falar de uma outra pessoa, ou a projectar sobre ela desejos que ela nunca teve?… Quanto às culpas relacionadas com Israel. Não foi a hierarquia da Igreja, os seus homens, que educaram as pessoas cristãs no sentido do anti-semitismo? Não foi necessário que João XXIII, em 1960, suprimisse a expressão ‘judeus pérfidos’ da liturgia da Sexta-feira Santa? E não foi também ele quem retirou da cerimónia do baptismo a expressão ‘abomino a perfídia judaica’ (cf. Actualité des religions, Mars, 2000, 49)? Se as retirou, é porque elas existiam. Desde quando? Há demasiado tempo, com certeza. Como é que sendo-se educado e educada pela Igreja-Mãe e abominando ela os judeus, não se seria educado e educada no sentido do anti-semitismo? Por que milagre?… Curiosamente, não encontro neste ponto qualquer menção dos termos ‘judeu’ ou ‘judeus’ (muito menos ‘judia’ ou ‘judias’, é claro), ao contrário do que acontece em Memória e reconciliação, texto relativamente longo que nem todas as pessoas estarão dispostas a ler, ao contrário desta ‘confissão de culpas e pedido de perdão’. Haverá alguma razão para esta ausência? O povo judeu é aqui designado como ‘povo de Israel’, ‘povo da aliança’ e como a descendência de Abraão. Tudo expressões que facilmente fazem a ponte para o cristianismo, e que nos levam a pôr entre parêntesis o facto de o povo de Israel manter uma religião independente? Que medos ou ódios a ausência de um termo pode implicar? Na enumeração mencionada deparamo-nos em seguida com a ‘confissão das culpas cometidas por procedimentos contra o amor, a paz, os direitos dos povos, o respeito pelas culturas e pelas religiões’. Mas quem declarava as cruzadas? Quem erguia as fogueiras inquisitorais? E se muitas vezes a Igreja hierárquica não o fazia directamente, não era o seu braço tentacular que incentivava ou promovia muitas decisões e acções maléficas contra o amor? E quantas mulheres não foram torturadas e queimadas pelos homens da Inquisição, filhos da Igreja-Mãe? 20 de Julho A secção que trata da ‘confissão dos pecados que feriram a dignidade da mulher e a unidade do género humano’ é muito interessante. Em primeiro lugar, porque se desenrola de um modo diferente das secções anteriores. Enquanto as outras começavam sempre pela enunciação da culpa, seguindo-se o pedido de perdão, aqui começa-se por orar pelas vítimas: ‘Oremos por todos aqueles que foram ofendidos na sua dignidade humana e cujos direitos foram vilipendiados; oremos pelas mulheres, com muita frequência humilhadas e marginalizadas, e reconheçamos as formas de aquiescência de que se tornaram culpados também os cristãos’. Anteriormente, que eu me tenha apercebido, nem sequer se rezava pelas vítimas. Agora, a atitude paternalista surge com mais força? O objectivo prioritário desta cerimónia não é a confissão das culpas e o pedido de perdão? Nesse caso, por que não se começa pela assunção da culpa, reconhecendo o valor do interdito que impede humilhar e marginalizar outros seres humanos, mesmo que se trate ‘apenas’ de mulheres? Começar pelo reconhecimento do interdito faria das mulheres seres de direitos. Começar por rezar por elas torna-as em primeiro lugar vítimas e leva-as a olharem-se a si próprias de acordo com esse espelho. Já se imaginou a revolta de ‘Israel’ se a secção que lhes diz respeito começasse por orar por judeus e judias?…Mas o que já não se consegue imaginar para Israel, continua a imaginar-se para as mulheres, numa secção dedicada à salvaguarda da sua ‘dignidade’. Em segundo lugar, que é isso de o título genérico desta secção pôr em destaque pecados que terão ferido a ‘dignidade’ da mulher e começar-se a oração no masculino, rezando por ‘todos aqueles que foram ofendidos na sua dignidade’ (itálico meu), aparecendo as mulheres em segundo lugar, quando já pensávamos que se tinham afinal esquecido delas? É só um problema de tradução portuguesa? Em terceiro lugar, não posso deixar de me surpreender com o verbo utilizado para falar da culpa dos ‘cristãos’, o verbo ‘aquiescer’. No meu humilde dicionário de serviço, como sinónimos deste verbo aparecem os seguintes: consentir, anuir e transigir. Mas anuir em relação a alguma coisa não é simplesmente dar o apoio a algo que já me precede? Neste caso concreto, quer isto dizer que os ‘cristãos’ se limitaram a ‘aquiescer’ em relação às situações de humilhação e marginalização em que já encontravam as mulheres, mas não desencadearam ou provocaram essas mesmas situações? Alguém acredita nisso? Não é verdade que, nos primeiros séculos, por exemplo, as correntes religiosas divergentes do cristianismo ‘ortodoxo’ eram mais passíveis de serem declaradas heréticas quanto mais valor davam às mulheres? Quantas passagens da Bíblia humilhantes para com as mulheres não continuam a ser lidas nas missas de todos os dias? Etc, etc. Dizer simplesmente ‘aquiescer’, não é faltar à verdade? Em quarto lugar, repare-se na oposição que se estabelece entre as mulheres e os ‘cristãos’. Por um lado há as mulheres, por outro os ‘cristãos’. Subentende-se que estes ‘cristãos’ são todos homens, não? Mas haverá também mulheres cristãs, ou só mulheres? Lembro-me de um exemplo dado por Rita Gross a propósito da linguagem androcêntrica. Pense-se na frase: ‘Os egípcios permitem (ou não permitem) que as mulheres façam isto e aquilo’. Neste caso, devemos admitir que as mulheres são ou não egípcias? Não é verdade que, nesta forma de escrever, os homens parecem ser os verdadeiros habitantes do Egipto, e as mulheres um povo àparte? Não é mais verdadeiro dizer-se: ‘No Egipto’ (ou ‘Na sociedade egípcia’), ‘os homens permitem (ou não permitem) que as mulheres…’? Em quinto lugar, penso no carácter atabalhoado do discurso que se segue nesta secção, começando-se por dizer que Deus criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança, avançando-se imediatamente a seguir para a diversidade dos povos como desejo de Deus e para a necessidade de reconhecer a igualdade dos seus filhos, não devendo haver ‘discriminações por motivo de raça e etnia diversa’ (algo que já estava na secção anterior), terminando-se uma secção cujo título genérico destacava a dignidade da mulher com um apelo a que todos se possam sentir ‘filhos’ de Deus. Todas as mulheres são homens e todas as filhas são filhos, não é verdade? Dura de inteligência, reconheço que tenho uma grande dificuldade em assimilar este tipo de ensinamentos. Por acaso farão parte do dito ‘depósito’ da fé?… A falta de qualidade do discurso — em que a referência às mulheres parece ser sobretudo uma mera condescendência em relação à agenda política contemporânea —, manifesta-se também no facto de se dizer, como é costume, que Deus criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança. No entanto, se formos consultar Génesis, 1, 26-27, o que constatamos é que Elohim projecta criar o ser humano à sua imagem e semelhança, mas que de facto o cria apenas à sua imagem, para se utilizar os termos habituais, deixando cair a semelhança. Disto mesmo já Orígenes ou Basílio de Cesareia se tinham dado conta, interrogando-se precisamente sobre o seu significado. Finalmente, pergunto-me pelo conteúdo da expressão ‘dignidade da mulher’, dignidade esta que foi (e é) ferida por frequentes pecados. Pergunto-me: quem escreveu o texto teria igualmente falado dos pecados que feriram a ‘dignidade’ do judeu ou do alemão?… Existe uma tal ‘essência’ dos povos? E é a igreja católica que se permite defini-la paternalisticamente sub specie aeternitatis, assim como o faz com ‘a’ mulher? Essa atitude, em relação aos judeus, não seria vista mais uma vez como uma manifestação de superioridade e mesmo um insulto?… 22 de Julho A Igreja gosta muito de falar ‘da mulher’, no singular, não das mulheres. ‘A mulher’ tem uma ‘essência’ diferente do homem e presente em todas as mulheres. Elas podem ser aparentemente bastante diferentes, mas possuem sempre essa essência que as irmana e distingue dos homens. Obviamente, apetece dizer! Se os padres estão impedidos de viver com uma mulher, como é que todas as mulheres não lhes haviam de parecer idênticas? Qualquer que ela seja, negra, branca ou às riscas, representa sempre o mesmo fruto proibido e, por outro lado, o mesmo ‘enigma’, a alimentar a ideia dos ‘segredos’ da ‘alma feminina’. Por outro lado, atribuir-lhe uma essência é delimitar-lhe um território de que não deverá atrever-se a sair. Para a Igreja, ser mulher é acima de tudo ser virgem ou mãe, se possível, virgem e mãe como Maria. E dar à luz filhos que venham a ser padres. Ainda há pouco (ainda agora?…), o funeral de uma mãe de padre tinha direito a cerimónias especiais, ao contrário do funeral do pai. Como não ver que, deste modo, se está a incentivar a ideia de que o pai tem um papel menor na geração e educação das suas filhos e filhos, passando-se toda a responsabilidade para as mães? Já ouvi mulheres agora de idade dizerem que, aquando das suas gravidezes, tentavam ocultar o mais possível o crescimento da barriga, pois, como boas católicas, sentiam-se envergonhadas pelo facto de se ver nitidamente no seu corpo que tinham andado em actividades sexuais com o marido. Ter actividade sexual era algo requerido pelo casamento para se poder engendrar crianças, mas sentia-se que era pouco ‘digno’ de uma mulher. Portanto, se me falam da ‘dignidade da mulher’, não sei bem ao certo o que têm em mente, melhor, suspeito fortemente de que esse seja um modo de a colar a uma essência sufocante. Pessoalmente, prefiro que a Igreja me fale dos meus direitos como pessoa ou como sujeito do que me fale da minha ‘dignidade de mulher’. Se me falam da minha dignidade de mulher, não posso evitar sentir-me um bichinho de estimação cuja espécie se pretende evitar que se extinga rapidamente, mas não propriamente para lhe dar uma vida facilitada. Pelo contrário, este bichinho de estimação deve estar ao serviço da família (sobretudo dos seus elementos masculinos) e da Igreja, não deve ter prazer no sexo porque isso a equipara a uma mulher de ‘má vida’, deve corar quando fala em público porque a sua melhor qualidade é a do silêncio, deve sacrificar-se constantemente pelos outros, etc, etc. É esta a diferença em relação aos homens que deve ser preservada. Dar-lhe ‘dignidade’ para a seguir lhe retirar direitos: não posso deixar de pensar que esta é a estratégia que, consciente ou inconscientemente, move a Igreja em relação às mulheres, melhor, à mulher. Um dia um padre perguntou-me, irritado, porque é que eu achava que a Igreja dava pouca importância às mulheres, se essa mesma Igreja celebrava tanto Maria e a punha logo a seguir a Deus. Para não entrar em conflito, disse apenas timidamente que Maria aparecia muito diferente das outras mulheres e superior a elas, insinuando que por esse lado não se ia muito longe. Hoje, penso que a minha resposta seria mais directa, do género: ‘Pois por isso mesmo! Melhor, pelo facto de a Igreja estar sempre a celebrar Maria do pior modo possível, projectando sobre ela o fantasma de mulher perfeita que habita a mente dos clérigos: mulher sem actividade sexual, com peitos que servem apenas para amamentar, dizendo sempre sim ao que é suposto Deus pedir ou a Igreja pede de facto, sacrificando-se por todos, com um marido que serve apenas para a proteger mas não é um verdadeiro companheiro, etc, etc’. Claro que, nesse caso, o conflito estalaria. Mas como posso evitá-lo? Ocultando o que verdadeiramente penso? 29 de Julho Hoje fui à missa. Já há muito tempo que não ia. Não sei se o meu agnosticismo ou ateísmo dos últimos tempos não tem sido senão a única atitude possível de uma pessoa que não quer ver a sua dignidade ofendida, mas tão-pouco a de Deus. Por um lado, de facto, está em causa a minha dignidade como mulher, embora entendida de um modo diferente do da Igreja: já não aguento os discursos que se fazem apenas em termos masculinos, querendo com eles englobar também as mulheres. Se oiço dizer que ‘o homem é um ser moral’, penso automaticamente que as mulheres estão excluídas dessa moralidade. Se oiço um discurso em que apenas se fala de homens, penso de facto que só eles são as pessoas abrangidas. Portanto, não pude senão afastar-me de uma instituição como a Igreja Católica em Portugal, que constantemente me fala no masculino. Mas, para além disto, há também a recusa de aceitar que Deus seja reduzido ao masculino, quando se tem a consciência de que não pode senão estar para além de qualquer sexo, a recusa de vê-lo assim empequenecido e transformado em ídolo. Pois que é um Deus masculino senão um ídolo? Não há ‘proporção de semelhança’ entre Deus e as criaturas, escreve S. João da Cruz na Subida do Monte Carmelo. Já se esqueceram disso?… A onda de masculinismo que, desde há muito, perpassa a Igreja católica e os seus rituais impede-me de ir para Deus. Não posso adorar a masculinidade! Não posso ser cúmplice de palavras, actos e omissões que acabam por afirmar que a mulher é inferior ao homem. Por causa das mulheres, mas também por causa de Deus. Não posso ser cúmplice de um acto de idolatria, de um rebaixamento de Deus à categoria de macho. Haja respeito! Esta linguagem que nos diz existir apenas um sexo válido ou valioso, contribuindo para o apagamento ou invisibilidade das mulheres, não pode senão ser encarado como um pecado, e dos grandes, pois recusa dizer a igualdade querida por Deus ao ter feito o homem e a mulher à sua imagem. Pecado de ramificações imensas, contribuindo para destruir o bom relacionamento que deveria existir entre homens e mulheres, repercutindo-se na educação das crianças e, portanto, sobre toda a humanidade. Linguagem que não reconhece o outro na sua diferença igualitária, mas que fala apenas autocraticamente de um dos sexos. É pecado. Deveria ser imediatamente eliminada, como todos os atentados aos direitos humanos. É preciso acrescentar mais alguma coisa?… 30 de Julho Podemos pensar que Deus é homem e branco mas, obviamente, Deus não pode ser homem e branco, senão não seria Deus. Mas, então, como continuar a suportar todo o discurso que assim no-lo apresenta? Como ir para Deus no meio de toda esta linguagem e iconografia que o lança para o masculino e que, por isso mesmo, acaba por legitimar a existência de sete sacramentos para os homens, mas apenas de seis para as mulheres? Como aceitar que se fale num Deus-Pai, se esta expressão reforçou, e reforça ainda, o poder dos homens sobre as mulheres? Como adorar este Deus que contribui para o meu próprio rebaixamento como mulher? 2 de Agosto Ah, Deus! Se tu existisses de outro modo!… Deus encapsulado, preso num colete de forças humano que o torna tão impossível. Quero ver para além deste encapsulamento, para além das metáforas e símbolos mortos a que o reduziram. Deus deve existir, mas está todo obscurecido pelos discursos humanos. Tento vê-lo, mas é difícil. E a expressão ‘Deus-Pai’ é para mim um obstáculo tão grande à crença que não sei como ultrapassá-lo. Ainda por cima, o Pai, no cristianismo, está metido em todo o lado: no Credo, no Pai-Nosso, no modo como as pessoas cristãs se benzem, em toda a liturgia. Não consigo acreditar em Deus porque me dizem que é pai? Creio que a minha reacção seria a mesma se insistissem em dizer que é mãe. É um super-pai, uma super-mãe? Mas o que é que isso significa? E como insistir em dizer que Deus é um super-pai sem automaticamente diminuir as mulheres e enaltecer o estatuto dos homens? Deus é Pai, a Igreja católica só é composta de homens, e até se diz que, por trás do altar, na altura da consagração, tem de estar um homem para que a semelhança com Cristo exista. Mais uma vez, penso que insistir na masculinidade de Cristo, e não na sua humanidade, é um pecado, pelas repercussões que daí derivam, enaltecendo-se mais uma vez os homens em detrimento das mulheres. Mary Daly tem razão: se Deus é masculino, então o masculino é Deus. E já repararam que uma pessoa espanhola, francesa ou inglesa tem de tratar o nosso ‘padre’ por ‘pai’ (‘padre’, ‘père’, ‘father’)? Ao menos em português a palavra ‘padre’ ainda consegue disfarçar o étimo!… 4 de Agosto Talvez alguém avente a ideia de que, por uma questão de justiça, poderíamos começar a tratar Deus por ‘Pai/Mãe’ ou ‘Mãe/Pai. Sempre é melhor que tratá-lo só por Pai. Mas a quem insistir no brilhantismo da ideia, leia por favor O jejum e a festa, de Anita Desai. Nas páginas iniciais do livro, escreve-se, a propósito da família indiana em torno da qual está construído o romance: ‘MãeePai. MãePai. PaiMãe. Era difícil acreditar que alguma vez tivessem tido existências separadas, que alguma vez tivessem sido seres individuais, e não MãePai, dito de um fôlego’. Junção interessante? Veja-se depois, no desenrolar do livro, como esta mãe estava completamente ao serviço do pai, e como os dois, PaiMãe, destruíam as suas filhas e o seu filho, sempre com a melhor das intenções. Portanto, continua a ser muito importante termos presente o que S. João da Cruz nos diz: não há ‘proporção de semelhança’ entre Deus e as criaturas. Aliás, vejam-se as repercussões da eventual nova simbologia: mais uma vez, os grandes modelos para a mulher continuariam a ser a virgindade ‘consagrada’ e a maternidade, mas uma maternidade agora reforçada pela própria imagem de Deus/Mãe. E as mulheres não virgens que não fossem mães? Para a Igreja católica, as mulheres são sobretudo úteros que engravidam. O que é que ela tem contra nós, que vontade de vingança é a sua para nos tratar assim? Os homens têm uma capacidade biológica de serem pais muito superior à que as mulheres possuem de serem mães, mas nunca são reduzidos ao seu sémen procriador. Porque havíamos nós de ser reduzidas ao útero, determinadas e definidas a partir daí?… 5 de Agosto No passado Sábado fui à missa. E até voltei no dia seguinte. Mas é ‘dose’ que não devo repetir tão cedo. Todo o discurso do padre me fez lembrar o de uma família em que as mulheres já tivessem morrido há muito sem deixar saudades e só houvesse homens (ou ‘jomens’) de quem falar. E, claro está, Cristo é o ‘jomem’ ideal e perfeito, ao serviço do Pai. E não pensem que se escutarem uma homilia do Pe. António Vaz Pinto escutarão algo de muito diferente. A dicção é que será perfeita. 9 de Agosto Já me ia esquecendo de comentar o último ponto do pedido de perdão, dizendo respeito aos ‘direitos fundamentais da pessoa’. Também aqui, como no caso das mulheres, se começa por rezar pelas vítimas, todos seres ‘pequeninos’: os ‘menores vítimas de abusos’, os pobres, os indefesos, etc. Já pouco me apetece dizer. Afinal, todas as faltas enunciadas na cerimónia, não são ofensas cometidas em relação a estes direitos fundamentais da pessoa?… Quanto à questão do aborto — nesta secção são também invocados os ‘não-nascidos que foram suprimidos no seio materno’ —, fica para outra altura. 10 de Agosto Terá sido mau o Papa ter feito este pedido de perdão? A Igreja admite finalmente que errou. Mas já toda a gente o sabia, não? A própria Igreja, ainda não reparara nisso?… Assumiu-o, é verdade. Há quem faça o mal e nunca o assuma. É pior. Mas assumiu-o de que modo? Sobretudo, como uma Igreja composta de homens e filhos que muitas vezes procederam mal. São os pecados dos filhos da horda primitiva? De qualquer modo, convém esclarecer que, para mim, nem as mulheres são santas por natureza, nem os homens pecadores por excelência. Mas atendendo ao modo diferenciado como foram educados e como tiveram acesso ao poder, mulheres e homens tenderam a praticar pecados distintos. Mais uma vez, quase sempre que os padres se referem a pecados, fazem-no do ponto de vista masculino, pois durante séculos, o poder, a autoridade e o dinheiro, talvez as maiores fontes de pecado, encontravam-se do lado dos homens. Nestas circunstâncias, falar sobretudo destes pecados é incluir as mulheres nos homens e acabar por falar pouco dos pecados que elas próprias praticariam. Mas veja-se a dificuldade de falar dos pecados por elas praticados quando a situação em que viviam, dominadas pelos homens, era ela mesma uma situação de pecado. Que lhes aconteceria se reivindicassem ser tratadas como verdadeiros sujeitos ou pessoas e pusessem em causa a situação de injustiça em que eram obrigadas a viver, de não reconhecimento da igualdade dos sexos? Todos as acusariam de pecado, a começar pela própria Igreja. E estariam assim com certeza muito próximas do caminho que as conduziria à fogueira ou à excomunhão. Para ser mais clara: penso que as mulheres podem ser tão cruéis e pérfidas quanto os homens, embora a história não lhes tenha dado a possibilidade de exercer uma crueldade tão visível quanto a dos homens. Aliás, atendendo a essa situação histórica, os homens acabaram por ser os assassinos por excelência, em guerras ou outras disputas. Mas numa situação desequilibrada, todos acabam por ficar desequilibrados. Por isso, se ao longo dos séculos se viveu uma situação injusta de dominação masculina, não se pode pretender que essa injustiça não desequilibrou os homens e as mulheres, embora de formas distintas. Estará a Igreja disposta a estudar este e outros assuntos, dizendo ou não respeito às mulheres? É que não basta bater com a mão no peito se depois se continua a ter atitudes de ofensa em relação às pessoas em concreto. Sei de mulheres agora de idade avançada que se afastaram com mágoa da Igreja quando tinham os seus trinta anos porque o padre passou a não lhes dar a absolvição por andarem a usar a pílula. Nem o facto de terem já várias crianças lhes serviu de atenuante. Quando é que estas mulheres vão ouvir um pedido de perdão muito concreto, se as directivas da Igreja até não mudaram, mas mudou apenas o modo como os padres vão lidando com o assunto? E não é ofensa grave à ‘dignidade da mulher’ dizer-se que não pode representar Cristo na Eucaristia? Sinceramente, pode ser caso de mera história pessoal, mas nunca consegui identificar um padre com Cristo na altura da consagração. Aliás, nunca me pusera o problema, até o Vaticano, a propósito da não ordenação de mulheres, dizer que, não sendo um homem a celebrar, não se dava conta de que essa pessoa actuava em vez de Cristo. Tinha de haver semelhança natural. Logo, tinha de ser um homem a celebrar. Esqueceram-se de assinalar a idade. A meu ver, que seja homem, mas só entre os 28 e os 35, limites largos entre os quais poderá ter decorrido a vida pública de Cristo. Depois, onde está a semelhança com ele, se é suposto ter morrido pelos 33 anos?… E, é claro, para maior semelhança, conviria também ter outros elementos : altura, peso, cor da pele, cabelo e olhos, outros sinais característicos, etc. Poder-se-ia até contemplar a necessidade de que o seu ‘representante’ falasse aramaico, não?… Semelhança ‘natural’, a quanto obrigas! 15 de Agosto Lembro-me da primeira vez que, há vários anos atrás, li um livro da Elisabeth Schüssler Fiorenza. À medida que ia lendo os diversos artigos que integravam Discipleship of Equals, ia registando a data em que tinham sido escritos, e constatava com surpresa que muitos deles remontavam aos inícios dos anos setenta. E se a surpresa era o sentimento que me acompanhava nessa leitura, era porque, passados tantos anos, a Igreja hierárquica ainda não parecia ter-se dado conta de como era urgentíssimo ir ao encontro das questões que Fiorenza levantava. Quando se colocam questões interessantes e urgentes, a atitude da Igreja parece ser a de acusar, voltar as costas ou excomungar. Foi o que se viu com Bernard Häring, Hans Küng, Gaillot, Drewermann, etc, etc. Apetece então dizer a propósito da Igreja o que Deleuze e Guattari disseram a propósito da psicanálise mais estreita, atribuindo-lhe a missão de ‘fazer calar as pessoas, impedi-las de falar, e sobretudo, quando falam, fazer como se não tivessem dito nada’. Exagero?… Deus permitisse que o fosse, pois, nesse caso, a purificação da memória estaria facilitada!… Um pedido de perdão no masculino feito a um Deus masculino (extracto do Diário de uma mulher católica a caminho da descrença)
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