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| DENTADURAS & CIA |
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Uma brincadeira divertida é deixar-se levar pela associação de idéias. Associação de idéias é assim: a gente está no devaneio, flutuando, sem querer ir a lugar algum, aí aparece uma idéia, essa idéia chama outra, essa outra chama uma outra e logo elas estão dançando, sem que a gente tente por ordem na bagunça. Quando os pensamentos estão livres eles dançam. Quando têm uma obrigação a cumprir eles marchem em ordem unida, um atrás do outro. Estávamos nós assentados à mesa de um restaurante, um pequeno grupo. Havíamos saído de um sarau de poesias escritas e recitadas por crianças e adolescentes. É delicioso ver crianças e adolescente brincando com as poesias. Pois conversa vai, conversa vem, uma amiga se lembrou, por associação de idéias, de um incidente ao mesmo tempo trágico e hilariante relacionado com a arte de recitar. Nesses saraus, o normal é que só crianças e adolescentes participem. Aconteceu, entretanto, num ano anterior, que um respeitável você se ofereceu para recitar o poema Yuca Pirama, poema longo que exige memória muito boa. Não puderam dizer não. Aí, iniciado o poema, os ouvintes atentos, o declamador concentrado, algo não previsto aconteceu: a dentadura do declamador estava frouxa, escorregava da gengiva, ameaçava sair pela boca. O declamador, sem poder interromper o recitativo, lutava com a dentadura fazendo uso dos artifícios possíveis para mantê-la encaixada nas gengivas. O público em suspense não conseguia ouvir o poema porque a luta que se desenvolvia entre recitador e dentadura era muita mais eletrizante. Aguardava-se o final trágico, como se fosse final de opera. Era uma situação hilariante mas ninguém ria tal era o suspense. A dentadura venceu. O recitador jogou a toalha e abandonou a tablado sem terminar o poema. Aí, por associação de idéias, meu pensamento começou a dançar sobre dentaduras. Contei o acontecido ao meu dentista que me contou algo parecido. Um seu cliente estava de amores novos e iria levar sua amada num cruzeiro marítimo. Ah! Um navio, longe de tudo, tão bom para o amor! O navio partiria de Santos e iria parando por portos turísticos para o norte. Para que tudo acontecesse bem ele achou prudente fazer uma dentadura nova, que não fosse frouxa. Dentaduras frouxas são um perigo quando se beija porque podem ser sugadas pelo amor da parceira ou do parceiro. Já imaginaram a cena? Dá-se um beijo apaixonado e descobre-se com uma dentadura estranha dentro da boca? De dentadura nova, os dois abraçadinhos na amurada do navio, eis que um repentino golpe de vento frio faz o apaixonado espirrar. Sem tempo para valer-se do lenço a dentadura não suportou a pressão do espirro e foi projetada sobre o mar, irremediavelmente, encontrando-se submersa no mesmo local até o dia de hoje. Em desespero e falando aos sopros, devido à falta da dentadura, o apaixonado pediu socorro ao seu dentista que lhe sugeriu um procedimento emergencial rápido: que viesse para Campinas imediatamente. Que a bem amada prosseguisse viagem para o Rio, como programado, sozinha. Em Campinas se faria uma dentadura nova, em regime de urgência urgentíssima. De dentadura nova na boca ele tomaria o avião e se juntaria ao seu amor no porto do Rio de Janeiro. Assim foi e foram felizes para sempre. Daria um belo conto... Minhas idéias dançando me fizeram pensar que a pessoa que inventou as dentaduras foi uma benfeitora da humanidade. Houve, não sei se anda há, culturas que condenavam à morte os velhos que não tivessem dentes. Se houvesse dentaduras esse costume cruel teria sido abolido. Na realidade não houve um inventor da dentadura. Foram muitos inventores porque as dentaduras, tais como as conhecemos hoje, se fizeram através de séculos de experimentos e sofrimento. Há monumentos ao soldado desconhecido. Sugiro que se erijam monumentos aos inventores desconhecidos. Um monumento ao inventor da dentadura, sobre quem ninguém pensa! Injustiça! Ingratidão! Fico a pensar: por que é que as dentaduras são objetos cômicos? As pessoas que as usam têm vergonha, não querem que os outros saibam... Isso não acontece com os óculos que são as dentaduras dos olhos. Ninguém se ri deles. São charmosos. Sexy. Sedutores. Exibidos. Os especialistas em marketing bem que podiam desenvolver uma estratégia para dar charme às dentaduras, para que as pessoas tenham orgulho em mostrá-las. Conheci um você, ilustre cientista, que não se envergonhava da sua dentadura. Com toda a tranqüilidade, para que todos vissem, ele a retirava da boca e a colocava no bolso, em caso de incômodo. Está certo. Pois não é isso que fazemos com os óculos? Tiramos os óculos e ainda limpamos, elegantemente, com um paninho! Dentaduras de vários estilos, de várias cores, imitando os atores de TV... E assim como há óticas, lojas onde se vendem óculos, deveria também haver as “dênticas”, lojas onde se vendem dentaduras. As vitrines cheias de dentaduras! As pessoas, exibindo as receitas dos seus dentistas, do jeito mesmo como procedem as pessoas nas óticas, examinariam as dentaduras e comprariam a dentadura que mais lhes agradasse. Entravam de boca murcha, soprando, e sairiam de boca cheia, sorrindo. “Transforme suas gengivas em sorriso”! Que grande frase publicitária! Vocês não sabem, mas houve – e pode ser que ainda haja – lojas onde se vendem dentaduras. Eu as vi na rua Barão de S. Felix, Rio de Janeiro, perto da Central do Brasil, rua com cheiro de peixe frito. As vitrines estavam lá, cheias de dentaduras. Os fregueses viam, entravam, experimentavam, compravam. Ignoro as origens daquelas dentaduras. Um protético as fazia especialmente para aquelas lojas? Ou teriam origens mais humildes como, por exemplo, doações de parentes de mortos? Muitos costumes românticos tiveram suas origens em situações não tão românticas. É o caso, por exemplo, de se chamar maio de o “mês das noivas”. Nome tão lindo teve origem no costume antiqüíssimo de se tomarem os banhos anuais no mês de maio, ido o inverno, início do calor. Isso, na Europa. Como se sabe os europeus estão economizando água faz muitos séculos. Sendo maio o mês do banho anual é claro que deveria ser também o mês das noivas. É preciso casar cheirosa. Caso semelhante tem a ver com o minueto. Nos filmes em que aparecem os bailes nas cortes, os nobres de peruca e as lindas damas com leque na mão dançavam o minueto, todos sorrindo sorrisos maravilhosos. A verdade, entretanto, era outra: sem escovas de dentes, sem fio dental, sem pasta de dentes, os dentes eram podres e o mau hálito era insuportável. É esse fato nada romântico que explica o minueto, dança gentil em que os dançarinos jamais chegavam próximos um do outro. O homem de braço esticado segurava a mãozinha da mulher com a ponta dos dedos. Tudo para evitar a proximidade dos rostos porque, entre os dois, estava o mau hálito. Essa é, também, a origem do costume delicado de as damas esconderem timidamente a metade inferior do rosto com um leque – gesto tão faceiro! Que nada! Era para guardar o nariz da dama do mau hálito do cavalheiro e para guardar o nariz do cavalheiro do mau hálito da dama... O minueto, assim, deve suas origens aos dentes mal tratados, ao mau hálito e a inexistência de dentaduras... Com o advento do fio dental, da pasta de dentes, das escovas de dentes e dos banhos regulares e não só no mês das noivas, criaram-se as condições histórico-sociais para o aparecimento das danças que permitissem o agarradinho... Publicado no Correio Popular 06/02/2005
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