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Seria
uma indelicadeza de minha parte não responder a uma
pessoa que a mim dirigiu a sua palavra. Assim, obrigado
pela cortesia, me proponho a comentar o artigo Deixe a
cozinheira cantar, do professor de direito Aderbal da
Cunha Bergo. Esse artigo me deu grande alegria
intelectual, pelas idéias que me fez pensar, seja do
ponto de vista filosófico, seja do ponto de vista
psicanalítico. O Deixem a cozinheira cantar poderia ser
o início de uma fascinante série de diálogos, à
semelhança do Simpósio, de Platão, em que trocaríamos
idéias sobre conceitos como ‘justiça’, ‘lei’,
‘legalidade’, o que poderia contribuir para que as
nossas idéias ficassem cartesianamente e
psicanaliticamente mais claras e distintas. Mas,
infelizmente, tempus fugit, e no propósito de me
dedicar a contar para as minhas netas estórias da minha
infância, tenho de andar rápido e ser sucinto. Assim,
deixando de lado o que para mim é acidental, no
referido artigo, permito-me fazer duas observações
sobre aquilo que, para mim, é o essencial.
1. É comum, na retórica, especialmente quando movida
por intenções polêmicas, que se faça uso de um
deslize lógico, às vezes por ignorância, às vezes
intencionalmente. Imaginem que eu tenha dito: ‘Alguns
cachorros são ferozes.’ Aí alguém diz: ‘O Rubem
Alves diz que os cachorros são ferozes.’ Conclusão:
Rubem Alves não gosta de cachorros. Gosto sim. Gosto
dos Dobberman, os mais obedientes que já tive. Dos
Weimaraner, dos Sheep dog, dos Cocker, dos Perdigueiro.
O erro lógico – sofisma – está em dar uma amplidão
universal a uma afirmação particular. O fato de eu
declarar que ‘alguns’ cachorros são ferozes não
permite a conclusão de que afirmo que ‘todos’ os
cachorros são ferozes. Mas foi precisamente esse erro lógico
de que se valeu o articulista argumentando contra mim.
Disse ele, como comentário ao que eu disse: ‘Melhor
que atacar os advogados é ouvi-los.’ O que está implícito:
Rubem Alves atacou os advogados. Os advogados? Quais? A
palavra ‘os’, nesta afirmação, tem o sentido de
‘todos’. Rubem Alves atacou todos os advogados. Mas
onde é que ataquei os advogados, como classe, como
totalidade? Em lugar algum. Mas a declaração do doutor
Bergo implica que foi isso que eu fiz. Uma pessoa que não
tenha lido o meu artigo chegará à conclusão de que o
Rubem Alves ataca os advogados. Acho a advocacia uma
linda profissão. Já pensei em ser advogado, por duas
razões: pelo meu amor à justiça e pelo meu prazer em
pensar logicamente. A história está cheia de exemplos
de advogados maravilhosos, inclusive Abraham Lincoln. E
tenho uma enorme quantidade de advogados amigos com quem
converso e a quem ouço. O que eu disse, no meu artigo,
é que a declaração do adesivo ‘Sem advogado não se
faz justiça’ é falsa. E é mesmo. ‘Sem advogado não
se faz justiça’ é uma declaração universal que não
é sustentada pelas evidências. Freqüentemente é a própria
vida, sem o auxílio de ninguém, que faz justiça. Há
uma cantina em Poços de Caldas que se anuncia: ‘Comer
bem, só na cantina do João’. Isso não é verdade.
É uma mentira contada com propósitos de atrair
clientes. Há muitos outros lugares em Poços de Caldas
onde se come bem. Pois o tal adesivo ‘Sem advogado não
se faz justiça’ é uma versão arrevesada do anúncio
da cantina: ‘Justiça, só chamando um advogado...’
Fiz uma sugestão alternativa, que julgo verdadeira:
‘O advogado, querendo, pode ajudar a fazer justiça.’
O doutor Bergo, por basear seu argumento em descrições
formais dos advogados, tais como são definidos
idealmente nos tratados de direito, ignora que essa
entidade ‘sem a qual não se faz justiça’ não é
uma entidade real. É uma ficção filosófica. E não
se ofenda com isso. A matemática se faz toda com ficções.
Um triângulo retângulo perfeito só existe em definições.
Os triângulos retângulos reais são todos
‘desvios’ do ideal. Os homens de carne e osso não são
iguais às definições ideais que deles fazem o
pensamento. Os médicos: são eles ‘iguais’ aos
ideais contidos no juramento que fazem na sua formatura?
Por acusar um, ou dois, ou dez médicos de incompetentes
e mercenários, significa isso que estou ‘falando mal
dos médicos’? De forma alguma. Há uma quantidade
enorme de médicos que respeito, procuro, ouço e obedeço.
O mesmo vale para os professores, os sacerdotes e
pastores, os policiais, os psicanalistas... Nenhum
profissional é, por necessidade lógica, igual ao ideal
perfeito da profissão. Essa identidade entre o advogado
ideal, que luta pela justiça, e o advogado real, não
se dá automaticamente. Ela não é intrínseca à condição
de advogado. Ela pode acontecer? Pode. Mas, para que
isso se dê, é preciso um ato de vontade do advogado:
é preciso que ele ‘queira’ lutar pela justiça.
Estou dizendo, assim, que a beleza e a nobreza da
profissão do advogado pertence à esfera da ética. Ela
não pertence ao campo das definições formais e filosóficas,
como sugere o doutor Bergo. O advogado, antes de ser um
ser técnico, é um ser ético. Foi por isso que sugeri
que o adesivo ‘Sem advogado não se faz justiça’, a
meu ver falso e enganoso, fosse substituído pelo
adesivo ‘O advogado, querendo, pode ajudar a fazer
justiça.’ Faço, então, uma outra sugestão: um
adesivo que diga: ‘Sou advogado. Desejo lutar pela
justiça.’ Isso seria bonito e inspirador!
2. A outra questão que considero essencial se encontra
num curtíssimo parágrafo em que o doutor Bergo
descreve os mecanismos dos julgamentos. Diz ele, como
conclusão: ‘E, no final, quando tudo estiver
decidido, se terá feito justiça, ainda que uma das
partes sinta-se injustiçada.’ Concordo em que, ao
final, a decisão terá sido ‘legal’. Como tal, ela
obriga a parte condenada a cumprir a pena ou a pagar a
indenização. Jamais descumprirei o determinado pelo
juiz. Sua sentença é legal, obrigatória. Mas eu não
identifico ‘justiça’ com ‘legalidade’. Por isso
sugeri que o nome Palácio da Justiça fosse substituído
por Palácio da Legalidade. O doutor Bergo, entretanto,
partindo de sua definição filosófica e formal do
processo legal, é de opinião que a ‘legalidade’ é
idêntica à ‘justiça’: ‘E, no final, quando tudo
estiver decidido, se terá feito justiça...’ Confesso
não conhecer nenhuma outra pessoa que sustente tal
opinião. A história está cheia de exemplos de
julgamentos cujas sentenças, sendo legais, em nada
infringindo os dispositivos formais e substantivos do
processo, foram patentemente injustas. Os Negros
norte-americanos sabiam que, num tribunal de brancos
racistas, era praticamente impossível que a sentença
fosse justa. E isso porque os argumentos e decisões,
longe de serem processos puramente lógicos e
substantivos, são determinados pelos preconceitos e
fantasias de seres humanos reais, não ideais. Essa é a
grande lição da psicanálise e da sociologia do
conhecimento, disciplinas que poderiam, com proveito,
ser incluídas nos currículos das Faculdades de
Direito. Negros, nos Estados Unidos, foram julgados e
legalmente condenados, morrendo legalmente na cadeira elétrica.
O fato de que o processo foi legal de forma alguma vai
retirar do meu sentimento ético a convicção de que a
legalidade foi injusta. A história está tão cheia de
casos semelhantes que nem julgo necessário argumentar.
Mas não quero me furtar a um último exemplo. Na história,
um dos mais célebres julgamentos foi o de Sócrates. Sócrates,
como se sabe, foi um filósofo pacífico cuja vocação
era fazer as pessoas pensar. Pois a elite ateniense
resolveu livrar-se dele, legalmente. Uma pessoa que faz
os cidadãos pensar é, na melhor das hipóteses, um
tropeço para o interesse dos poderosos. Pois bem: Sócrates
foi julgado e legalmente condenado à morte. A pena que
lhe foi imposta pelo magistrado foi: Sócrates deveria
matar-se, bebendo cicuta, um veneno. E foi o que
aconteceu. Os últimos momentos de Sócrates, a cena do
filósofo tranqüilo bebendo cicuta, em obediência à
lei, recusando a possibilidade de fugir, é comovente.
Suas últimas palavras têm um tom quase cômico. Disse
a um dos seus discípulos: ‘Devemos um galo a Esculápio..’
- referência a um ato sacrificial que deveria ser
feito, em homenagem ao deus médico. Sócrates morreu.
Morreu legalmente. Morte, resultado de um julgamento e
de uma sentença. Foi justa a morte de Sócrates? Não
conheço nenhuma pessoa que tenha dito que a morte de Sócrates
foi justa, muito embora todos reconheçam que foi legal.
Sócrates não se suicidou. Ele foi obrigado a se matar.
E o fez obedecendo à pena da lei. Assim, para mim, é
um equívoco dizer que, ao final do processo, quando a
sentença é dada e cumprida, ‘se terá feito justiça’,
como afirma o doutor Bergo. Partindo do seu próprio
raciocínio eu concluo que, diante de Sócrates morto,
ele teria dito: ‘A justiça foi feita...’ Essa
conclusão é logicamente necessária, a partir das
premissas que governam o pensamento do ilustre professor
de direito.
É
minha esperança que eu não seja forçado a voltar ao
assunto. Isso não me dá prazer. Quero, mesmo, é
voltar a contar, para as minhas netas, como era o meu
mundo, quando eu era criança... (Correio Popular,
caderno C, 04/03/2001)

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