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| Daiane dos Santos |
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“Moça
com brinco de pérolas” é um filme que está passando
no cine Jaraguá. É sobre uma tela do pintor holandês
Vermeer, do século XVII. Não tem mistério, mortes,
suspense, ação rápida. Tudo é devagar. A vida é
devagar. Depressa, só a morte. É uma aprendizagem de
ver. Trata-se de uma estória provocada pela visão
dessa tela singela, o rosto de uma jovem com um brinco
de pérolas. Como disse Bachelard “o que se vê não
pode se comparar ao que se imagina.” Vale, numa tela,
a imaginação que ela provoca. Por isso muitas pessoas
de vista perfeita nunca viram realmente um quadro,
embora o tenham visto. Falta-lhes imaginação.O autor
da estória viu a tela “Moça com brinco de pérolas”
e sua imaginação voou. Se me der na telha vou publicar
de novo a estória que inventei ao meditar sobre uma
outra tela de Vermeer. “Mulher lendo uma carta”. As
telas de Vermeer põem paz ma minha alma. Elas me
reconduzem a um mundo de intimidade tranqüila, de
sombra e luz, de cores quentes, que não existe mais. É
nesse mundo que mora a minha alma. Acostumados à ação
rápida é altamente provável que os jovens não
consigam ficar até o fim. Eles vivem num mundo que não
é o meu. Não são culpados. Fico triste por não poder
compartilhar com eles o mundo da minha alma. Sugestão:
Vá a uma livraria boa e compre um livro com telas de
Vermeer da coleção “Taschen”. É barato. Quem sabe
seu filho ou filha vai se encantar... |
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As
Olimpíadas são um evento assombroso. Começa com
aquela festa linda, comovente, festa de fraternidade e
paz. Norte americanos e iraquianos desfilaram no mesmo
desfile sem que o Bush tentasse matar os atletas do
Iraque, como terroristas disfarçados. Ele estava
jogando golfe. O grande símbolo: uma oliveira cheia de
folhas! Dizem os poemas sagrados que a pomba que Noé
soltou ao final do dilúvio voltou com um ramo de
oliveira no bico. Que bom seria se aquela oliveira
anunciasse o fim do dilúvio de loucuras bélicas que
está destruindo o mundo! Algumas dessas festas ficam
inesquecíveis. Lembro-me do ursinho que marcou as olimpíadas
de Moscou. No encerramento o ursinho chorou: lágrimas
escorriam pelo seu rosto. Sei muito bem que urso não
tem rosto, urso tem é focinho, mas seria feio dizer
“lágrimas escorriam pelo seu focinho”. Do jeito
como as coisas vão, em breve se dirá que os bichos têm
rosto e os homens têm focinho. Aí
chega o primeiro dia. Vai-se a fraternidade. Agora é
briga. Briga pelo pódio. O pódio é motivo de briga.
Todo pódio é motivo de briga. Nas Olimpíadas não há
lugar para fraternidade porque fraternidade significa
todo mundo junto brincando de roda e nas Olimpíadas não
há cantigas de roda. No pódio só cabem três. Cada
atleta quer mesmo é que o outro se dane. Ah! A suprema
felicidade do velocista dos 100 metros quando sabe que o
recordista baixou hospital acometido de uma súbita cólica
renal, na véspera das finais. E as ginastas rezam,
enquanto as adversárias executam os seus números:
“Tomara que ela escorregue...” Havia
na UNICAMP um professor visitante na Faculdade de Educação
Física, Manoel Sérgio, que era muito contra ao
atletismo. Ele perguntava: “Você conhece algum atleta
longevo?” E concluia: “Quem vive muito são essas
velhinhas que se encontram ao fim da tarde para tomar chá
com bolo...” Já viu cavalo treinando os 1.500 metros?
Só quando dominados por homens. As Olimpíadas não são
uma manifestação de saúde. São uma exaltação do
desejo de ser o maior. Prova disso são os doppings. Os
atletas sabem que a coisa faz mal à saúde. Pode matar.
Mas uma morte prematura bem vale um lugar no pódio!
Aquela máquina de correr, uma negra norte-americana, me
esqueci de nome dela, só músculos, morreu subitamente
de um ataque cardíaco.
Assim não pensem que os atletas têm boa saúde,
que praticam hábitos saudáveis de vida. Lembram-se da
corredora suíça, ao final da maratona? Era a imagem de
um corpo torturado pela dor. Penso nas nadadoras. Elas
me assustam. Não se parecem mulheres. Aqueles ombros
enormes! Acho que meus braços não conseguiriam abraçar
uma delas. E nem eu quereria. E acho que nem ela
quereria. Abraço é perda de tempo. É preciso
aproveitar o tempo lutando contra a água. Inimigas da
água. Isso mesmo. Porque uma pessoa que passa dez anos
de sua vida treinando seis horas por dia não por prazer
mas para sair da piscina um centésimo de segundo na
frente da marca olímpica
só pode ter ódio da água. A água é o inimigo a ser
vencido. Compare com as crianças. Elas amam a água.
Elas não querem sair da água. A água é sua
companheira de brincadeiras. As nadadoras, ao contrário,
não brincam com a água. Lutam contra ela. Tocada a
borda da piscina, para onde olham as nadadoras? Elas
olham para o placar onde aparece o tempo. É isso. É o
tempo que elas amam. Quanto mais depressa melhor! O
perigoso é que elas apliquem essa doideira em outras
coisas da vida onde o que vale é “quanto mais devagar
melhor”. Estou
velho. Sofro do mal dos velhos: repito coisas que já
disse. Por vezes repito por esquecimento. Outras vezes
porque quero repetir. Contador de piada repete piada
sabendo que já a contou dezenas de vezes. No grupo de
poesia que se reúne comigo às 3as. feiras repetimos
poemas porque eles são belos. Nas festas de aniversário
repetimos o chatíssimo “parabéns prá você” e
estupidamente sopramos as velinhas, símbolos da morte.
Pois vela que se apaga não é símbolo da morte? E aí
me vieram alguns badulaques à cabeça. Suspeitei que já
os tivesse mostrado. Conferi. De fato, eu já os
mostrei. Mas vou mostrar de novo porque eles se aplicam
bem ao momento olímpico que estamos vivendo. Há
um famosíssimo, badaladíssimo conferencista que
anuncia suas conferências com a afirmação: “Seu
lugar é o pódio”. Esse é o sonho de todo atleta que
vai para as Olimpíadas. Mas logo ele descobre que a
verdade não é aquela anunciada pelo conferencista mas
uma outra, muito mais sóbria, enunciada por Jesus:
“Muitos são os chamados mas poucos os escolhidos.”
No pódio só há lugar para três. Os outros atletas não
aparecem. Na vida também é assim. Se o lugar de todo
mundo fosse o pódio, se todos seguissem os conselhos do
dito conferencista, todos ganhariam a medalha de ouro. Já
pensaram nisso? Todos com medalhas de ouro no peito?
Tantos pódios quantos são os atletas? Que coisa
maravilhosa nas Olimpíadas! Que coisa maravilhosa na
vida! Todos os problemas do país estariam resolvidos.
Os pobres andariam de BMW e os famintos comeriam camarão
na moranga. Governo burro esse que temos! Por que não
nomeia o dito conferencista como Ministro da Educação
para que todos subam no pódio? E não é só ele que
anuncia o evangelho do pódio. Tem uma seita, entre as
milhares que prometem milagres que diz: “Você está
destinado ao sucesso”. Com Jesus o primeiro lugar nas
Olimpíadas está garantido! E na vida! Teologia
maravilhosa essa: Jesus Cristo morreu na cruz para que nós
tivéssemos sucesso! Para que ganhássemos a medalha de
ouro! Corolário: se você não está no pódio, se você
não tem sucesso é porque você está longe de Deus.
Pecador miserável! Arrepende-te dos teus pecados,
entrega o teu coração a Jesus, não para ir para os céus,
mas para ir para o pódio... Mas
há um jeito de todo mundo ter medalha e já o escrevi
aqui. A idéia foi de Lewis Carroll, autor de Alice no
País das Maravilhas, que todo mundo leu e não prestou
atenção. Porque o verdadeiro ato da leitura não está
na leitura mas na ruminação. É preciso ler
bovinamente, ruminantemente. Tratava-se de uma corrida.
Alice queria saber as regras. O Pássaro Dodo explicou:
“Primeiro marca-se o caminho da corrida, num tipo de círculo,
( a forma exata não tem importância), e então os
participantes são todos colocados em lugares
diferentes, ao longo do caminho, aqui e ali. Não tem
nada de “um, dois, três, já”. Eles começam a
correr quando lhes apetece, ou abandonam quando querem,
o que torna difícil dizer quando a corrida termina.”
Assim a corrida começou. Depois que
haviam corrido por mais ou menos meia hora o Pássaro Dodo gritou: “A corrida terminou!” Todos se
reuniram ao redor de Dodo e perguntaram: “Quem
ganhou?” “Todos ganharam”, disse Dodo. E todos
devem ganhar prêmios.”
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