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| Carta a um amigo |
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Meu
querido amigo: Havia tantos anos que não nos víamos!
E, de repente, num estacionamento, os nossos caminhos se
cruzaram. Dizem que isso se chama “coincidência”
– quando encontros acontecem acidentalmente, sem ter
sido preparados. De fato, foi um acidente. Não havíamos
marcado hora, não havíamos marcado lugar. E, na
infinita possibilidade de lugares, na infinita
possibilidade de tempos, nossos tempos e nossos lugares
coincidiram. E deu-se o encontro. Dizem
alguns, entre eles Jung, se não me engano, que
“coincidências” não existem. Coincidências, eles
dizem, só são coincidências quando vistas na face
direita do tapete. Mas, se pudéssemos olhar o avesso,
encontraríamos os fios do destino que fizeram aquele
encontro inevitável. Os homens vêem o direito; os
deuses tecem o avesso. À
coincidência segue-se sempre a surpresa: não estávamos
esperando! E foi assim mesmo. Tive uma surpresa alegre
ao vê-lo. Muito embora, nessa idade, os reencontros
repentinos, depois de muitos anos, causem um pouquinho
de susto. Quando, depois de vários anos, encontramos
“aquilo” que conhecêramos como uma menina, a reação
automatica é dizer: “Mas como você cresceu! Você
está uma moça!” Na “nossa” idade o impulso é
dizer: “Mas como você..............!” Deixei o espaço
em branco de propósito, para que você o completasse.
Sim, eu e você envelhecemos. Mas
o que me comoveu e convenceu de que aquela coincidência
fora planejada pelos deuses foi a sua primeira frase:
“Rubão, estou apavorado. A hora está chegando!”
Sem explicações. Eram desnecessárias. Você sabia que
eu sabia o que você estava dizendo. A morte está próxima.
Chegará um dia em que teremos de nos despedir desse
mundo. Isso é verdade para todos. Nunca se sabe em que
esquina a morte nos aguarda. Mas, quando jovens,
espantamos o pavor dizendo que ainda vai demorar muito.
Na velhice esse consolo já não é possível. ( Ah!
Pobres dos saberes acadêmicos que eu e você aprendemos
e ensinamos! Como eles nos deixam desamparados diante do
Grande Mistério!) Tive
uma grande vontade de abraçá-lo, mas fiquei com
vergonha. Senti “compaixão”. “Compaixão” quer
dizer “sentir com”. Eu senti o que você sentia. Já
estive no seu lugar. Desde a minha infância fui
aterrorizado pela morte. Tinha medo de dormir, pois
temia que ela, valendo-se da minha distração, me
ferisse. Mas durante o dia, em meio aos brinquedos, com
meus amigos, eu me esquecia dela. Mas ela voltava com o
crepúsculo. Também aos domingos, quando eu ia à
igreja e lá o pastor
ensinava que aqueles que não estão bem com Deus
( o Deus dele, é claro...), seriam mandados para o
inferno, por toda a eternidade. Pelo medo os clérigos
católicos e protestantes conseguiam a submissão dos
fracos. Depois,
por razões que desconheço, o meu terror pela morte
desapareceu. O “lado de lá” já não me assusta.
Pois só há duas possibilidades. Primeira: o “lado de
lá” não existe. Se não existe, serei devolvido ao
lugar onde estive desde o big-bang, treze bilhões de
anos atrás. E não tenho a menor memória ruim desses
treze bilhões de anos. Pode até ser que as mãos dos
deuses que tecem o avesso me façam nascer de novo. Se
isso acontecer será ótimo porque gosto muito de viver.
Segunda: o “lado de lá” existe. Se existe, estou
tranqüilo. Como entendem os poetas, Deus é amor, e
sendo amor não posso imaginar que nada de mau esteja à
minha espera. Muito
do terror da morte resulta das coisas que nos ensinaram
nas igrejas, coisas que nossas mães nos ensinaram. São
sempre elas, as mães, as portadoras da religiosidade, não
sei bem porque. Talvez porque, tendo Deus ao seu lado,
elas consigam que seus filhos as obedeçam. Como se
sabe, Deus castiga as crianças que desobedecem as suas
mães. Por
amor às nossas mães, continuamos a acreditar... Mas
as coisas que as religiões ensinam são invenções dos
homens. Um Deus de amor iria estragar o seu universo com
uma câmara de tortura chamada inferno? Pelo que sei
Deus é jardineiro e se ocupa com a beleza. Como disse
Bachelard, os tipos que inventaram o inferno tinham
muitas vinganças a realizar. Mas o amor não se vinga.
Pelo menos foi isso que aprendi de Jesus. E
o fato é que ninguém acredita. Se as pessoas
religiosas acreditassem que o céu é tão bom assim
elas não iriam tanto ao médico e não se esforçariam
tanto para continuar vivendo. Tratariam era de morrer
logo para apressar sua viagem para a colônia de férias
permanente. O que elas desejam, mesmo, é continuar
nesse mundo tão bonito, tão bom. O
que tenho não é medo. É uma tristeza. É-me insuportável
a idéia de ser expulso de campo... Assim,
não tenho palavras de consolo. “Com que tristeza
avisto o horizonte aproximado e sem recurso. Que pena a
vida ser só isto!” Era o sentimento da Cecília
Meireles. Os poetas dizem a verdade. E por falar em
poetas, leia o poema do Alberto Caeiro que começa
assim: “Num meio dia de fim de primavera...” É
lindo. Trás paz à minha alma. Trará paz à sua também.
E gosto de rezar essa linda oração. E nem é preciso
acreditar em Deus. Basta se alimentar das palavras. Como
diz o evangelho, “a palavra é Deus”. PELOS
QUE VÃO MORRER “Ó
Tu, Senhor da Eternidade, nós que estamos condenados a
morrer elevamos nossas almas a Ti à procura de forças,
porque a Morte passou por nós na multidão dos homens e
nos tocou, e sabemos que em alguma curva do nosso
caminho ela estará nos esperando para nos pegar pela mão
e nos levar... não sabemos para onde. Nós
te louvamos porque, para nós, ela não é mais uma
inimiga, e sim um grande anjo teu, nosso amigo, o único
a poder abrir, para alguns de nós, a prisão da dor e
do sofrimento e nos levar para os espaços imensos de
uma vida nova. Mas
nós somos como crianças, com medo do escuro e do
desconhecido, e tememos deixar esta vida que é tão
boa, e os nossos amados, que nos são tão queridos. Dá-nos
a graça de ter um coração valente para que possamos
caminhar por esta estrada com a cabeça levantada e com
um sorriso no rosto. Que possamos trabalhar alegremente
até o fim, e amar os nossos queridos com ternura ainda
maior, porque os dias do amor são curtos. Sobre ti lançamos
a carga mais pesada que paralisa nossa alma: o medo que
temos de deixar aqueles que amamos, os quais teremos de
deixar desabrigados num mundo egoísta. Nós confiamos
em ti porque durante toda a nossa vida foste o nosso
apoio. Ó
tu, pai dos órfãos, protege os nossos pequeninos. E,
antes de partirmos, pedimos-te que chegue logo o dia no
qual os que estão morrendo morrerão sem medo, porque
os fracos já não mais serão as vítimas dos fortes, e
a grande família que é a nação a todo abraçará com
sua força e o seu cuidado. Nós
te agradecemos porque experimentamos o gosto bom da
vida. Somos-te gratos por cada hora de nossas vidas, por
tudo o que nos coube das alegrias e lutas dos nossos irmãos,
pela sabedoria que ganhamos e será sempre nossa.
Se
tivermos de partir logo, sabemos que inda assim foi
através de ti que vivemos e a nossa vida continuará a
fluir através da raça humana. Pela tua graça nós
também ajudamos a moldar o futuro e a trazer dias
melhores. Se
nos sentirmos abatidos com a solidão, sustenta-nos com
a tua companhia. Quando todas as vozes do amor ficarem
distantes e se forem, teus braços eternos ainda estarão
conosco. Tu és o pai do nosso espírito. De ti viemos e
para ti iremos. Regosijamo-nos porque, nas horas das
nossas visões mais puras, quando o pulsar da eternidade
é sentido forte dentro de nós, sabemos que nenhuma
agonia da mortalidade poderá atingir a nossa alma
inconquistável e, para aqueles que em ti habitam, a
morte é apenas a passagem para a vida eterna. Nas tuas
mãos entregamos o nosso espírito.” (
Walter Rauschenbusch, Orações por um mundo melhor,
PAULUS )
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