Faz
algum tempo eu lhe escrevi. O senhor não respondeu.
Eu compreendo o seu silêncio. Bachelard declara que,
se desejamos convencer, é necessário reabrir
as avenidas dos sonhos. Tentei fazê-lo sonhar com uma
imagem que mora nos meus sonhos: a dos ipês que, pensando
que a morte está próxima, desandam a florescer
para assim ejacular suas sementes pelos campos. Ipês:
metáforas para aqueles que já não são
jovens: eu e o senhor. Queria que o senhor se sonhasse como
ipê florido ejaculando sementes por esse Brasil afora.
O seu silêncio diz que o senhor não gostou da
imagem. Ninguém gosta de ser lembrado de que a hora
crepuscular já chegou.
Mas
eu não desisto. Volto ao assunto - só que, agora,
ao invés de usar uma imagem crepuscular, usarei uma
metáfora de meio-dia.
O
senhor é um homem que ama a beleza. Acho que foi para
isso que o senhor criou a fundação que leva
o seu nome: para restaurar, preservar e celebrar a beleza.
A
beleza é uma experiência intrigante: ela vem
sempre misturada com uma pitada de tristeza. Vinícius
de Moraes se referia à sua “vontade de chorar
diante da beleza”. E a Adélia Prado mostrou que
“ o que é bonito enche os olhos de lágrimas.”
Sinto essa mistura de alegria e tristeza quando ouço
Bach e Beethoven, quando vejo van Gogh e Salvador Dali.
Foi
o filósofo Ernst Bloch quem me deu a explicação
mais satisfatória para esse fato. Ele disse que as
obras de arte “são uma estrela que antecipa e
um canto de alento sobre o caminho que conduz o homem através
das trevas.” Nelas mora o “princípio da
esperança”. Elas contém uma “antecipação
da morada final do homem, a pátria tanto do humanismo
acabado quanto do naturalismo acabado.” As artes, assim,
contém um elemento de visão utópica.
A beleza anuncia uma possibilidade de felicidade que se abre
diante dos homens. Referindo-se à “Bíblia
de Chagall” Bachelard comenta: “ O universo -
os desenhos de Chagall o provam - têm, para além
de todas as misérias, um destino de felicidade. O homem
deve reencontrar o Paraiso.” A arte está cheia
de alegria. Mas, ao assim lançar a sua luz alegre sobre
o mundo, a arte torna visíveis todos os seus sofrimentos.
A arte está cheia de tristeza.
Se
a arte é, nas palavras de Bloch, “ uma antecipação
da morada final do homem” - o Paraiso - conclui-se que
a intenção da beleza é a transformação
do mundo. Cada obra de arte é um oração
pela volta do Paraiso. Beethoven teria alegremente trocado
a beleza da Nona Sinfonia pela beleza de um universo embriagado
pela alegria.
Faz
uns dias vi, na televisão, um anúncio que já
vira muitas vezes. Campos verdes se perdendo no horizonte,
riachos de água cristalina, bosques, cavalos selvagens
livres, em galope. A imagem era cheia de beleza. Utópica.
Impossível não desejar estar lá. Era
o anúncio de Marlboro. Logo depois, por alguns segundos
na tela, a advertência: “ O Ministério
da Saude adverte: fumo pode causar cancer”. Dos dois,
qual é o verdadeiro? É a advertência do
Ministério da Saude. Trata-se de uma verdade comprovada
cientificamente. Já o anúncio seduz pela beleza
mas mente ao sugerir que o cigarro é o caminho para
a beleza desejada. Mas eu não conheço nenhuma
pessoa que tenha sido convencida pela verdade da ciência.Conheço
muitas, entretanto, que foram mortalmente seduzidas pela beleza
da imagem. A verdade fica guardada na cabeça. Mas a
beleza faz amor com o corpo. O senhor - a televisão
- sabe disto: que as pessoas não são movidas
pela verdade; elas são movidas pela beleza.
Imagino
que o senhor alegremente trocaria toda a arte e toda a beleza
que a Fundação Roberto Marinho tem restaurado,
preservado e celebrado, pela pela alegria de uma beleza encarnada
num povo e num país. Toda a beleza do mundo anuncia
o Paraiso. Conclui-se que o Paraiso é bem superior
a toda a beleza da arte - porque o Paraiso é a arte
tornada vida - ou, como Hegel diria. “a objetivação
do espírito”.
A
tarefa de tornar belo um povo e um país, assim, é
superior à tarefa ( maravilhosa!) de restauração,
preservação e celebração da beleza!
E é esse o desafio que lhe lanço: o de ser mais
que um simples mecenas, protetor das artes: o senhor pode
ser um artista que arranca da pedra bruta um povo e um pais!
Dirijo-me
ao senhor porque o senhor é, no Brasil, a pessoa que
tem mais poder para fazer isso: o senhor é a pessoa
que domina imagem e que sabe usar da sua magia. O anúncio
do Marlboro me contou.
A
ciência, coitadinha, tão certinha, tão
cheia de pesquisas e de verdades, sabe como levar o homem
à lua, mas não sabe como fazer o homem amar.
A advertência do Ministério da Saúde,
pelo que sei, até hoje não levou ninguém
a amar a própria vida. Não há verdade
científica que faça o homem sonhar com o Paraiso.
Mas
senhor é um bruxo: o senhor sabe como fazer os homens
sonhar. O senhor é dono de uma fantástica máquina
de fazer sonhar. O senhor tem mais poder para mexer com as
pessoas que tudo o que, no Brasil, se faz sob o nome de “escola”.
O senhor não se assusta com esse poder que lhe foi
dado? “ A quem muito se lhe deu muito se lhe pedirá”
diz o evangelho. Se o senhor quisesse o senhor poderia fazer
com que milhares sonhassem com o Paraiso. Se o senhor quisesse
o senhor poderia fazer com que milhares se pusessem a trabalhar
para a construção do Paraiso. O senhor tem,
nas suas mãos, o poder para plantar as sementes de
um novo pais. O senhor sabe: a receita está no anúncio
do Marlboro. A beleza pode seduzir o povo a amar a natureza,
a preservar a saúde, a se alegrar com as artes, a cuidar
das crianças, a viver de forma civilizada, a respeitar
a vida...
Se
o senhor fizer isso quem sabe, num futuro possível,
alguém venha a dizer daquilo que o senhor fez o mesmo
que Bachelard disse da obra de Chagall: “ o universo
tem um destino de felicidade. O homem deve reencontrar o Paraiso.”