Caro Senhor Roberto Marinho

 

Faz algum tempo eu lhe escrevi. O senhor não respondeu. Eu compreendo o seu silêncio. Bachelard declara que, se desejamos convencer, é necessário reabrir as avenidas dos sonhos. Tentei fazê-lo sonhar com uma imagem que mora nos meus sonhos: a dos ipês que, pensando que a morte está próxima, desandam a florescer para assim ejacular suas sementes pelos campos. Ipês: metáforas para aqueles que já não são jovens: eu e o senhor. Queria que o senhor se sonhasse como ipê florido ejaculando sementes por esse Brasil afora. O seu silêncio diz que o senhor não gostou da imagem. Ninguém gosta de ser lembrado de que a hora crepuscular já chegou.

Mas eu não desisto. Volto ao assunto - só que, agora, ao invés de usar uma imagem crepuscular, usarei uma metáfora de meio-dia.

O senhor é um homem que ama a beleza. Acho que foi para isso que o senhor criou a fundação que leva o seu nome: para restaurar, preservar e celebrar a beleza.

A beleza é uma experiência intrigante: ela vem sempre misturada com uma pitada de tristeza. Vinícius de Moraes se referia à sua “vontade de chorar diante da beleza”. E a Adélia Prado mostrou que “ o que é bonito enche os olhos de lágrimas.” Sinto essa mistura de alegria e tristeza quando ouço Bach e Beethoven, quando vejo van Gogh e Salvador Dali.

Foi o filósofo Ernst Bloch quem me deu a explicação mais satisfatória para esse fato. Ele disse que as obras de arte “são uma estrela que antecipa e um canto de alento sobre o caminho que conduz o homem através das trevas.” Nelas mora o “princípio da esperança”. Elas contém uma “antecipação da morada final do homem, a pátria tanto do humanismo acabado quanto do naturalismo acabado.” As artes, assim, contém um elemento de visão utópica. A beleza anuncia uma possibilidade de felicidade que se abre diante dos homens. Referindo-se à “Bíblia de Chagall” Bachelard comenta: “ O universo - os desenhos de Chagall o provam - têm, para além de todas as misérias, um destino de felicidade. O homem deve reencontrar o Paraiso.” A arte está cheia de alegria. Mas, ao assim lançar a sua luz alegre sobre o mundo, a arte torna visíveis todos os seus sofrimentos. A arte está cheia de tristeza.

Se a arte é, nas palavras de Bloch, “ uma antecipação da morada final do homem” - o Paraiso - conclui-se que a intenção da beleza é a transformação do mundo. Cada obra de arte é um oração pela volta do Paraiso. Beethoven teria alegremente trocado a beleza da Nona Sinfonia pela beleza de um universo embriagado pela alegria.

Faz uns dias vi, na televisão, um anúncio que já vira muitas vezes. Campos verdes se perdendo no horizonte, riachos de água cristalina, bosques, cavalos selvagens livres, em galope. A imagem era cheia de beleza. Utópica. Impossível não desejar estar lá. Era o anúncio de Marlboro. Logo depois, por alguns segundos na tela, a advertência: “ O Ministério da Saude adverte: fumo pode causar cancer”. Dos dois, qual é o verdadeiro? É a advertência do Ministério da Saude. Trata-se de uma verdade comprovada cientificamente. Já o anúncio seduz pela beleza mas mente ao sugerir que o cigarro é o caminho para a beleza desejada. Mas eu não conheço nenhuma pessoa que tenha sido convencida pela verdade da ciência.Conheço muitas, entretanto, que foram mortalmente seduzidas pela beleza da imagem. A verdade fica guardada na cabeça. Mas a beleza faz amor com o corpo. O senhor - a televisão - sabe disto: que as pessoas não são movidas pela verdade; elas são movidas pela beleza.

Imagino que o senhor alegremente trocaria toda a arte e toda a beleza que a Fundação Roberto Marinho tem restaurado, preservado e celebrado, pela pela alegria de uma beleza encarnada num povo e num país. Toda a beleza do mundo anuncia o Paraiso. Conclui-se que o Paraiso é bem superior a toda a beleza da arte - porque o Paraiso é a arte tornada vida - ou, como Hegel diria. “a objetivação do espírito”.

A tarefa de tornar belo um povo e um país, assim, é superior à tarefa ( maravilhosa!) de restauração, preservação e celebração da beleza! E é esse o desafio que lhe lanço: o de ser mais que um simples mecenas, protetor das artes: o senhor pode ser um artista que arranca da pedra bruta um povo e um pais!

Dirijo-me ao senhor porque o senhor é, no Brasil, a pessoa que tem mais poder para fazer isso: o senhor é a pessoa que domina imagem e que sabe usar da sua magia. O anúncio do Marlboro me contou.

A ciência, coitadinha, tão certinha, tão cheia de pesquisas e de verdades, sabe como levar o homem à lua, mas não sabe como fazer o homem amar. A advertência do Ministério da Saúde, pelo que sei, até hoje não levou ninguém a amar a própria vida. Não há verdade científica que faça o homem sonhar com o Paraiso.

Mas senhor é um bruxo: o senhor sabe como fazer os homens sonhar. O senhor é dono de uma fantástica máquina de fazer sonhar. O senhor tem mais poder para mexer com as pessoas que tudo o que, no Brasil, se faz sob o nome de “escola”. O senhor não se assusta com esse poder que lhe foi dado? “ A quem muito se lhe deu muito se lhe pedirá” diz o evangelho. Se o senhor quisesse o senhor poderia fazer com que milhares sonhassem com o Paraiso. Se o senhor quisesse o senhor poderia fazer com que milhares se pusessem a trabalhar para a construção do Paraiso. O senhor tem, nas suas mãos, o poder para plantar as sementes de um novo pais. O senhor sabe: a receita está no anúncio do Marlboro. A beleza pode seduzir o povo a amar a natureza, a preservar a saúde, a se alegrar com as artes, a cuidar das crianças, a viver de forma civilizada, a respeitar a vida...

Se o senhor fizer isso quem sabe, num futuro possível, alguém venha a dizer daquilo que o senhor fez o mesmo que Bachelard disse da obra de Chagall: “ o universo tem um destino de felicidade. O homem deve reencontrar o Paraiso.”