Acho,
Paulo Renato, que você ocupa a posição
política mais importante do Brasil. Mais importante
que a da presidência. Sobre o presidente paira uma maldição
terrível, descrita por Maquiavel no seu livro O Príncipe:
a maldição do poder. O poder é um demônio
que não dá descanso, não havendo exorcismo
que o resolva. Demônio totalitário, ele se apossa
do corpo e da alma, exige lealdade total e não deixa
sobrar tempo para mais nada. Tal qual São Jorge, o
presidente passa os dias e as noites lutando com um dragão
que ressuscita a cada manhã, não lhe sobrando
tempo para se dedicar às coisas que são essenciais.
O essencial,
na vida de um país, é a educação.
Se não me falha a memória você estudou
em colégio de padres, ouviu a leitura dos textos sagrados,
e vai entender o que digo. No evangelho de João está
escrito que “no princípio era o Verbo”.
“Princípio”, no grego, é palavra
filosófica, que significa não apenas “princípio”
no sentido de começo no tempo, mas fundamento, aquilo
que é a base do que existe. Acho que o autor sagrado
não ficaria bravo comigo se eu fizesse uma tradução
livre do seu texto para os tempos modernos: “No princípio
é a educação.” Pois a educação,
na sua essência, é precisamente isso: o exercício
do Verbo.
Pensa-se,
comumente, que a tarefa de um político é administrar
o país: por a casa em ordem, construir coisas novas,
consertar coisas velhas, cuidar das finanças, da saúde,
da segurança, da justiça, dos meios de comunicação,
incluido, inclusive, a administração dos meios
de escolarização existentes, coisa sob a responsabilidade
do ministério da educação.
Discordo.Existe
uma diferença qualitativa entre aquilo que fazem os
ministérios administrativos e aquilo que o ministério
da educação deve fazer. A diferença entre
eles é simples. Os ministérios administrativos
cuidam do “hardware” do país. Eles lidam
com a “musculatura” nacional. O ministério
da educação tem ao seu cuidado o “software”
do país. Ele cuida da “inteligência”
nacional. O seu objetivo é fazer o povo pensar. Porque
um país - ao contrário do que me ensinaram na
escola - não se faz com as coisas físicas que
se encontram no seu território, mas com os pensamentos
do seu povo.
Explico:
o que é que se encontra no início? O jardim
ou o jardineiro? É o jardineiro. Havendo um jardineiro
mais cedo ou mais tarde um jardim aparecerá. Mas havendo
um jardim sem jardineiro, mais cedo ou mais tarde ele desaparecerá.
O que é um jardineiro? Uma pessoa cujo pensamento está
cheio de jardins. O que faz um jardim são os pensamentos
do jardineiro. O que faz um povo são os pensamentos
daqueles que o compõem.
Os grandes
políticos não foram administradores de coisas.
Foram criadores de povos. E o que é um povo? Santo
Agostinho, quinze séculos atrás, disse que um
povo é “um conjunto de seres racionais unidos
por um mesmo objeto de amor”. Ou seja, pessoas que partilham
de um mesmo sonho. Emile Durkheim percebeu igual, e disse
que os povos “não são feitos meramente
da massa de indivíduos que os compõem, dos territórios
que ocupam, das coisas que usam, dos movimentos que executam.
Eles são feitos, sobretudo, com as idéias que
os indivíduos têm de si mesmos.” E foi
precisamente isso que o Chico disse na “Banda”.
Cada um estava concentrado no seu sonhinho, a namorada, o
faroleiro, o homem rico, a moça feia, o homem velho...
Cada um na sua, não havia povo, tal como nós
do Brasil, país que não tem povo porque não
há sonhos belos a serem sonhados. Mas aí passou
uma banda, e o que ela tocava era tão bonito que os
sonhos de cada um logo ficaram pequenos e foram esquecidos.
Esquecidos os sonhinhos individuais, formou-se a procissão
dos que seguiam o sonhão que a Banda tocava. Um povo
nasceu. A “Banda” contém uma teoria política
sobre o nascimento de um povo.
Faz uns
meses publiquei nessa coluna um carta inútil ao senhor
Roberto Marinho. Usei de uma metáfora: o anúncio
do Marlboro, que aparece na televisão. É lindo,
com seus riachos cristalinos, raios de sol filtrados através
da neblina que enche os bosques de pinheiros, os cavalos selvagens.
Eu, que não fumo, vendo o comercial, fico encantado.
A beleza seduz, me faz sonhar. Quero estar lá. Terminado
o curto feitiço, aparece uma advertência do ministério
da saúde: “ Fumo produz câncer”.
É conhecimento científico. Frase verdadeira.
E morta. Não conheço ninguém que tenha
deixado de fumar por causa das verdades que o conhecimento
científico enuncia. Conheço muitas que vieram
a fumar por causa da sedução da beleza.
Nossas
escolas têm se dedicado a ensinar o conhecimento científico
e todos os esforços têm sido feitos para que
isso aconteça de forma competente. Isso é muito
bom. A ciência é um meio indispensável
para que os sonhos sejam realizados. Sem a ciência não
se pode nem plantar e nem cuidar do jardim.
Mas há
algo que a ciência não pode fazer. Ela não
é capaz de fazer os homens desejar plantar jardins.
Ela não tem o poder para fazer sonhar. Não tem,
portanto, o poder para criar um povo. Porque o desejo não
é engravidado pela verdade. A verdade não tem
o poder de gerar sonhos. É a beleza que engravida o
desejo. São os sonhos de beleza que têm o poder
de transformar indivíduos isolados num povo.
As escolas
se dedicam a ensinar os saberes científicos, visto
que sua ideologia científica lhes proibe lidar com
os sonhos, coisa romântica! Assombra-me a incapacidade
das escolas para criar sonhos! Enquanto isso os meios de comunicação,
principalmente a televisão, que conhecem melhor os
caminhos dos seres humanos, vão seduzindo as pessoas
com seus sonhos pequenos, frequentemente grotescos. Assombra-me
a capacidade dos meios de comunicação para criar
sonhos! Mas de sonhos pequenos e grotescos só pode
surgir um povo de idéias pequenas e grotescas.
Se o ministério
da educação for apenas um gerenciador dos meios
escolares será difícil ter esperança.
Pensei, então, que o ministério da educação
talvez tivesse poder e imaginação para integrar
os meios de comunicação num projeto nacional
de educação: semear os sonhos de beleza que
se encontram no nascedouro de um povo. Assim ele estaria realizando
a sua vocação política de criar um povo.
É por isso, Paulo Renato, que considero a sua posição
de ministro da educação a mais importante na
vida política do Brasil. Da educação
pode nascer um povo!