|
Minhas
netas: Quando eu era menino eu brincava muito. Brincar
é a coisa mais gostosa. Algumas pessoas grandes têm
vergonha de brincar; acham que brincar é coisa de criança.
O resultado é que elas ficam sérias, preocupadas,
ranzinzas, amargas, implicantes, chatas, impacientes.
Perdem a capacidade de rir e ninguém gosta da sua
companhia. Quem brinca não fica velho. Pode ficar velho
por fora, como eu. Mas por dentro continua criança,
como eu...
Naquele tempo o jeito de as meninas e os meninos
brincarem era muito diferente do jeito de hoje. Hoje,
falou brincar, falou comprar brinquedo. E os brinquedos
se encontram nas lojas e custam dinheiro. Mas lá na roça
onde eu morava não havia nem lojas. E mesmo que
houvesse, eu era um menino pobre. Não tinha dinheiro
para comprar brinquedos.
Eu brincava. Brincava sem comprar brinquedos. Não
precisava. Eu fazia meus brinquedos. Na verdade, fazer
os brinquedos era a parte mais divertida do brincar.
Já lhes contei sobre o carrinho de lata de sardinha que
tenho guardado entre os meus brinquedos. Quando o vi,
lembrei-me de mim mesmo, fazendo os meus brinquedos. O
menino que fez aquele carrinho era um menino pobre. E eu
o vejo trabalhando para fazer o brinquedo que ele não
podia comprar. E imagino o orgulho que ele sentiu quando
o carrinho ficou pronto. “Fui eu que fiz!“ Um amigo
meu, o Vidal, me deu um caminhão que ele mesmo fez,
como presente de Natal. É um caminhão tanque. O tanque
é feito com uma lata de óleo deitada. A cabine, com
janelas e espelhos retrovisores, é feita com uma lata
de azeite. As antenas e o cano de escapamento são
feitos com pedaços de antenas velhas que ele encontrou
em lojas onde se consertam rádios. E as rodas, ele as
fez cortando, com um serrote, fatias de um cabo de
enxada, iguais às fatias que se cortam de um salame.
Para se fazer um brinquedo é preciso usar a imaginação.
A imaginação é um poder mágico que existe na nossa
cabeça. Magia é transformar uma coisa em outra pelo
poder do pensamento. A bruxa fala: “Sapo“ e o lindo
príncipe vira sapo... O menino que fez o carrinho com a
lata de sardinha teve de usar a sua imaginação mágica
também. Ele olhou para a lata de sardinha abandonada e
disse: “Carrinho“. E foi esse carrinho que ele viu
com o pensamento que fez com que ele trabalhasse para
fazer o carrinho.
A imaginação gosta de brincar. A brincadeira de que
ela mais gosta é o faz-de-contas. É brincando de
faz-de-contas que ela constrói brinquedos. Faz de
contas que uma lata de sardinha é um carrinho. Faz de
contas que o cachorrinho de pelúcia é um cachorrinho
de verdade. Faz de contas que o travesseiro macio é uma
pessoa de quem a gente gosta muito. Faz de contas que
esses bolinhos de barro são brigadeiros. Faz de contas
que a minha mão com o dedo esticado é um revolver. Faz
de contas que o cabo de vassoura é um cavalinho que se
chama Valente. Faz de contas que esse pedaço de bambu
é uma espada...
A Raquel, minha filha, tinha 4 anos. Eu a levei ao
cinema para ver o ET. O cinema é também uma
brincadeira de faz-de-contas. Enquanto a gente está lá
a gente vive, ri e chora “como se“ tudo fosse
verdade. Prestem atenção nisso: essa é uma das coisas
mais extraordinárias dos seres humanos: temos a
capacidade de viver e sentir coisas que não existem,
coisas que são produto da imaginação, como se elas
fossem reais. Quem não chorou vendo o filme O Rei Leão?
Quem não ficou com raiva da Madrasta e da Drizela? Quem
não torceu pelos cãezinhos dálmatas? Pois a Raquel
saiu do cinema e chorou, chorou, chorou... Não houve o
que a consolasse. Depois do jantar eu resolvi consolá-la.
Para consolá-la eu precisava entrar no jogo de
faz-de-contas. Aí eu lhe disse: “Vamos lá fora ver
se achamos a estrelinha que é a casa do ET!“ Ela se
levantou, animada. Mas aí, decepção. O tempo tinha
mudado. O céu estava coberto de nuvens. Não havia
estrelinhas para serem vistas. Pensei rápido. Uma mudança
de tática era necessária. “Olha lá, Raquel, atrás
da palmeira! O ET está lá“. Ela não sorriu, como eu
esperava. Não entrou na minha brincadeira. “O ET não
existe, papai.“, ela respondeu séria. Então eu
disse: “Ah! É? Se não existe, porque é que você
estava chorando?“ Ela me respondeu: “Por isso mesmo,
porque ele não existe...“ Que coisa mais misteriosa,
mais bonita: que nós sejamos capazes de ter alegrias e
tristezas por causa de coisas que não existem.
As crianças são as que melhor sabem brincar o jogo do
faz-de-contas com a imaginação. Os grandes vão
perdendo progressivamente essa capacidade. Acho que é
por efeito de uma doença que, creio eu, eles pegam na
escola. As escolas e os seus programas não sabem o que
fazer com a imaginação, porque não há formas de
fazer testes de múltipla escolha. Imagine uma prova com
esta questão: “Marque a alternativa certa:
( ) Um cavalo verde;
( ) Um cavalo com chifre no nariz;
( ) Um cavalo com asas;
( ) Um cavalo com tronco de homem;
( ) Um cavalo falante.
Parece absurdo. Mas todos esses cavalos são personagens
da literatura. Pergunte ao seu pai; ele tem obrigação
de saber. À medida que as pessoas vão crescendo elas vão
perdendo a capacidade de imaginar. Os adultos acham que
quem imagina é meio doido. Uma vez vi um filme com os
quadros pintados por um homem que alguém (deve ter sido
um parente dele) mandou trancar num hospital de loucos.
Eram quadros absolutamente fantásticos. Enquanto o
filme mostrava os quadros a voz de uma psicanalista
invisível ia interpretando as telas para mostrar a
doideira do artista. E a maior prova da sua doidice foi
um quadro que ele pintou de uma árvore no alto de uma
montanha com um barco flutuando no céu. A tal voz não
sabia que arte é uma brincadeira de faz-de-contas, onde
tudo é possível. O pintor Chagal pintou uma noiva
camponesa voando, e Dalí fez um retrato dele mesmo que
parece uma panqueca mole mantida em pé por uma série
de bengalas parecidas com ganchos de estilingue. Se é
que vocês não sabem, todas as coisas que os artistas
fazem são brinquedos. Na escola e na ciência as
pessoas aprendem a olhar para a coisa e ver a coisa. Mas
as crianças e os seus amigos artistas olham para as
coisas e vêem outras. E é assim que surgem as obras de
arte e os brinquedos, que são a mesma coisa.
Mas a imaginação sozinha não faz arte. Quem faz a
obra de arte é o artista. Para isso ele tem de saber
usar as ferramentas apropriadas: martelo, cinzel,
pincel, tinta... Eu, para fazer os meus brinquedos, tive
de aprender a usar ferramentas. Aprendi a usar o
canivete, a afiar o canivete, a usar o martelo (é uma
delícia pregar um prego numa tábua mole, sem
entortar...), o serrote, o alicate, as agulhas, os
barbantes, a régua, as cordas, o fogo. O fogo tinha múltiplos
usos. Um arame em brasa serve para furar um bambu. E o
fogo era indispensável também para fazer ferver a
mistura de água e polvilho com que se fazia grude,
necessário para colar o papel de seda dos papagaios. Me
cortei muitas vezes, martelei o dedo, me feri com o
serrote e a agulha, me queimei. Mas não há jeito de
aprender a usar as ferramentas sem se machucar. E
aprendi a cuidar dos meus ferimentos, sem precisar
chorar.
Fazer um brinquedo é um trabalho que se faz com prazer,
sem precisar que alguém mande. Tudo que se faz com
prazer é brinquedo. Ninguém tem preguiça de trabalhar
fazendo um brinquedo. Quando a gente está com preguiça
de trabalhar (ou de estudar) é porque aquilo que se está
fazendo não é brinquedo, é trabalho forçado. Não é
coisa que dê prazer.
(Correio Popular, 10/03/2002)

|