|
Minhas
netas: Eu gosto de ler as revistinhas do Pato Donald.
Pois o professor Pardal, aquele inventor maluco, teve
uma idéia genial. Imaginou que seria legal se ele
inventasse, para o Huguinho, o Zezinho e o Luizinho,
brinquedos que lhes dessem alegria sempre. Pois há
brinquedos que não dão alegria: pipa em dia sem vento,
não voa e fica no chão; pião que não gira quando se
puxa a cordinha e vai rolando pelo chão; taco de
beisebol quando erra a bola e o menino fica com cara de
bobo. Quando essas coisas acontecem os brinquedos não dão
alegria; dão tristeza. “Pois eu vou inventar
brinquedos que dêem alegria sempre“, disse o
professor Pardal. “Uma pipa que voe sempre, um pião
que gire sempre e um taco que acerte a bola sempre!“
Dito e feito! O professor Pardal entrou no seu laboratório,
pensou, trabalhou e inventou os três brinquedos que,
segundo ele imaginava, dariam alegria sempre. De fato,
os três patinhos ficaram felicíssimos quando receberam
os brinquedos mágicos. Mas a alegria durou pouco.
Porque não existe nada mais chato do que um brinquedo
que acerta sempre. Brincar só é divertido quando
existe a possibilidade de não dar certo. Brinquedo
divertido exige luta, esforço: lutar com o vento, lutar
com o pião, lutar com o taco, para ver quem pode
mais...
Em algumas roças (vocês se lembram que eu morava na roça...)
se fazia um jogo muito concorrido por ser muito engraçado:
num cercadinho cujo chão era lama pura, bem mole,
colocavam um porquinho bem redondo, não sem antes
besuntá-lo com graxa. Ele ficava liso, escorregadio e
quase impossível de segurar. A seguir, colocavam lá
dentro três meninos que queriam pegar o porquinho: quem
o agarrasse ficava com ele. Acontece que o porquinho não
era bobo e não queria ser pego. Corria, fugia, e os
meninos atrás... Bastava que um menino o agarrasse para
que o porquinho escorregasse e o menino caísse de cara
na lama! Todo mundo morria de rir, inclusive os meninos.
Agora imaginem que, se ao invés de um porquinho, fosse
uma tartaruga... Qual seria a graça? Nenhuma. Pegar uma
tartaruga é coisa muito fácil. Pegar uma tartaruga não
é desafio. Todo brinquedo tem de oferecer um desafio.
“Desafio“ é isso: uma coisa que a gente quer fazer
mas é difícil fazer. Num brinquedo a gente está
sempre “medindo forças“ com alguma coisa: com a água
(nadar é brincar com a água), com uma árvore (subir
na árvore é brincar com a árvore), com uma pessoa (o
“pique“: quem corre mais rápido), com uma adivinhação
(todo problema é um enigma a ser decifrado)...
Alpinista não acha graça subir em morro baixo: o que
ele quer é escalar montanha alta, muito alta, que
poucos conseguem escalar. Como, por exemplo, os picos
Aconcágua e Everest. Essas montanhas são tão difíceis
que muitas pessoas já morreram na escalada. E, no
entanto, outros alpinistas continuam a tentar a
escalada. Por quê? Nada os obriga a isso! Porque as
montanhas os desafiam. Olhando para um pico os
alpinistas sentem que ele está lhes dizendo: “Estou
aqui. Será que vocês podem comigo?“ Um quebra-cabeças
de 16 peças: que graça tem? É só olhar para saber
onde as peças se encaixam. Mas um quebra-cabeças de
500 ou mesmo 1.000 peças: isso sim é um desafio.
Aquele monte de peças em cima da mesa está nos
dizendo: “Veja se você é capaz de nos ajuntar de
forma que todas fiquemos encaixadas umas nas outras e
desse encaixe apareça uma quadro...“
Minha mãe gostava de me ensinar brinquedos. Um dos
primeiros brinquedos que ela me ensinou, lembro-me muito
bem: eu deveria ter 4 ou 5 anos. Ela estava me dando
banho, na banheira. Aí ela me disse: “Veja“. A
seguir ensaboou bem as mãos, fechou a mão direita,
abriu um pouco os dedos, de modo que ficasse um
buraquinho entre o mata-piolho e o fura-bolo, e começou
a soprar suavemente. Do outro lado do buraco uma bolha
de sabão começou a tomar forma e foi crescendo,
crescendo até que estourou! Fiquei encantado! Quis
aprender. A gente sempre tem vontade de aprender quando
fica encantado. Levou tempo mas aprendi. Aí, dominada a
técnica, os desafios aumentaram: fazer bolhas cada vez
maiores. E, por fim, com um gesto rápido, libertar a
bolha da minha mão para que ela flutuasse sozinha. Mais
tarde aprendi a produzir bolhas de forma mais técnica:
colocava um pedacinho de sabão dentro de uma canequinha
com água quente, esperava que o sabão derretesse,
enfiava um canudinho cortado de um mamoeiro dentro da água,
e soprava: e era aquela felicidade, vendo as bolhas que
saíam e flutuavam. Uma bolha é um vazio que uma película
de sabão prendeu e arredondou...
Outro brinquedo de criança pequena é assobiar. Que
inveja dos meninos maiores! E eu soprava que soprava,
mas só saía o barulho do vento. Até que um dia,
assobiei. Aí passei a assobiar o tempo todo e fui me
aperfeiçoando. Até que ficou fácil. Assobiar deixou
de ser um desafio. Mas um outro desafio surgiu: aquele
assobio forte que se produzia pondo dois dedos na boca,
debaixo da língua. Tentei muitas vezes e não aprendi.
Ainda hoje eu tenho inveja...
Como a gente era pobre e não tinha dinheiro para
comprar brinquedos, a gente fazia os brinquedos. Minha mãe
me ensinou a fazer chapéus de Napoleão com jornais, a
recortar benequinhas, todas de mãos dadas, a fazer
corrupios com botões e linha, a fazer barquinhos de
papel, que eu colocava na enxurrada... Hans Christian
Andersen, um contador de estórias dinamarquês, contou
a estória de um soldadinho de chumbo de uma perna só,
apaixonado pela bailarina da caixinha de música, que
navegou num barquinho de papel nas águas da chuva que
corriam pela sarjeta, até naufragar num bueiro, que o
levou ao rio, onde foi engolido por um peixe...
Para fazer brinquedos a gente tinha de desenvolver duas
habilidades. A primeira era um jeito especial de olhar
para as coisas. Tendo, na cabeça, o brinquedo que se
queria, a gente começava a olhar para os objetos à
nossa volta, procurando aqueles que poderiam ser usados
para fazê-lo. Tudo podia se transformar em brinquedo:
pedaços de madeira, carretéis de linha, pedaços de
barbante, vidros vazios (são excelentes assobios), lâmpadas
velhas (podem ser transformadas em lentes), chaves, botões,
câmaras de ar de bicicletas, pneus, caixas de fósforo
vazias (com elas se fazem matracas), bambus (eles têm
1001 utilidades), latas de massa de tomate (com elas se
fazem telefones), rolhas, folhas de coqueiro, retalhos,
sementes, batatas (com 4 palitos espetados se
transformam em bois...), sabugos de milho, caixas de
sapato... Bolas se faziam com meias velhas. Bonecas, a
tia Anastácia fez a Emília com retalhos velhos, agulha
e linha. E o Visconde de Sabugosa, com um sabugo de
milho. Os grãos de milho serviram de botões na sua
casaca feita com as palhas do milho. Distraído, um
frango se aproximou e comeu um dos seus botões... Hoje
se compram pipas prontas nas lojas. Não tem graça. Eu
fazia minhas pipas. Era preciso produzir as varetas,
cortando-as de pedaços de bambu e alisando-as com uma
faca até ficarem bem iguais e bem lisas, para que a
pipa não ficasse desequilibrada. E, para colar o papel,
eu fazia grude, dissolvendo polvinho em água e pondo no
fogão de lenha para ferver, mexendo sem parar para não
empelotar.
Mas, de todos os brinquedos, aqueles de que eu mais
gostava eram os balanços. O primeiro desafio era fazer
o balanço: conseguir a corda, descobrir um galho
horizontal de mangueira, subir lá em cima, amarrar as
cordas, fazer o assento. Depois de feito, balançar,
cada vez mais alto, sem que ninguém empurrasse, até
encostar a ponta do pé na folha do galho que me
desafiava...
A Camila é minha neta, aquela que está trocando
dentes. Foi aniversário dela no dia 5. Fez 8 anos. A
Camila é uma menina muito alegre, cheia de vida. Tão
cheia de vida que, por vezes, dá canseira segui-la...
Que bom que você é minha neta, Camila!
(Correio Popular, 07/04/2002)

|