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1.
Minhas idéias estão em cacos. Minha cabeça é uma
sala de projeção de slides. Imagens aparecem e
desaparecem sem parar e sem ordem aparente.
2. A patética figura de Bush, diante da televisão:
olhinhos de coelho assustado, sem saber o que dizer. Líder
da nação mais poderosa e arrogante do mundo. Mas ele
ignora o mundo. Teve um sonho fantástico: transformar
os Estados Unidos numa bolha auto-suficiente e fechada,
protegida por uma couraça que nenhum míssil poderia
penetrar. Acho que ele se inspirou nos guerreiros
medievais, que se protegiam com armaduras de ferro.
Imaginou-se como o líder que seria lembrado como aquele
que havia transformado seu país num guerreiro invulnerável,
protegido por um escudo imperfurável: um outro “Super
Herói“. Aí, de repente, apareceu-me uma imagem cômica:
dois guerreiros medievais em luta, medonhos em suas
armaduras, espadas batendo contra o ferro. É então que
um deles pisa num formigueiro de formigas lava-pés...
Você já pisou num formigueiro de formigas lava-pés? O
nome está dizendo: elas lavam o pé. É só tocar o
formigueiro que elas saem, minúsculas, rapidíssimas,
centenas, milhares, sobem pelos pés, pelas pernas,
entram no sapato, nas meias, no meio dos dedos, e vão
picando por onde vão. E a gente arranca sapato, meias,
e se põe a esfregar e estapear pés e pernas, para se
livrar delas... Imagino o que teria acontecido com
aquele guerreiro, protegido por uma armadura que nenhuma
espada podia perfurar, quando atacado pelas formigas
lava-pés... Deve ter sido um balé hilariante. Mesmo as
armaduras mais perfeitas têm frestas. Era isso que Bush
ignorava. Não sei se ficou sabendo. O golpe foi o mais
espetacular. Foi planejado para ser espetacular. Aqueles
que o prepararam queriam que o mundo visse a dança do
guerreiro impenetrável. Nada mais espetacular, sem dúvida.
Mas não o mais terrível. O mais terrível não será
espetacular. Será silencioso. Não dará transmissão
por televisão. Homens e mulheres, discretamente, sem
alarde, carregando em seus bolsos tubos de ensaio cheios
de bactérias letais. Fácil abri-los num metrô, numa
igreja, num supermercado, num teatro. Ninguém percebe.
Mas a morte está solta. Disso tiramos duas simples lições.
Primeira: Não é possível ter segurança no mundo em
que vivemos. Todas as armaduras têm frestas. Segunda:
Ou aprendemos a viver como seres racionais ou nossa
civilização estará condenada.
3. Mitos são profecias – representações poéticas
do destino humano. A Torre de Babel – símbolo da mais
arrogante pretensão dos homens: queriam ser iguais a
Deus, queriam ter poder absoluto. Pensavam que o poder,
forte, lhes garantiria o viver, fraco. Mas quando o
“amor ao poder“ se torna o motivo dominante das ações
humanas, a linguagem entra em colapso: os homens perdem
a capacidade de se entender: a confusão das línguas. O
dinheiro é o símbolo supremo do amor ao poder. Nele
estão as sementes da autodestruição. No dia 11 de
setembro de 2001 o mito se transformou em história: a
destruição das Torres...
4. Imagens das minhas experiências com a guerra. 1942.
Naquele tempo já existia a tal de globalização: nada,
em nosso mundo, é isolado: a guerra acontecia na
Europa; o açúcar acabou na cidadezinha onde eu morava,
no sul de Minas. O jeito foi comprar os estoques de
balas que se vendiam nas vendas, guardadas em vidrões
de boca larga. A gente fervia as balas na água de fazer
café. Depois acabaram as balas. O jeito era apelar para
a sacarina. Horrível. Amarga. Café sem açúcar. O açúcar
era bem raro, que só se comprava no mercado negro. Meu
pai, viajante, conseguiu comprar meio quilo de açúcar.
Eu me lembro: nos reunimos na cozinha e o meu pai
colocou sobre a mesa o embrulhinho que ele foi
solenemente abrindo, até que o pó branco apareceu.
Morava em nossa cidadezinha uma velhinha maravilhosa,
fofa, macia, branca de pó de arroz, que muito amávamos:
Lilisa. Meu pai se lembrou dela. E num gesto supremo de
amor, separou com uma faca metade do açúcar,
embrulhou-o para presente, e fomos todos, em procissão,
até a casa da Lilisa, conduzindo em andor o corpo de
Cristo! Depois acabou a gasolina. Meu pai tinha um
carro. Parado, havia o perigo de que os pneus se
estragassem. Providenciou quatro suportes de madeira e
sobre eles colocou o carro inútil. Inventaram então o
gasogênio: fornalhas cilíndricas que se colocavam na
traseira do carro, para a queima de carvão. Dessa
queima saía um gás, acho que metano, que era usado
como combustível. Menino, não me interessei pelos
detalhes tecnológicos do gasogênio porque meu pai não
tinha um. Mas os carros parados não alteraram em nada a
nossa vida. Os principais meios de transporte de que as
pessoas se valiam continuavam funcionando, posto que não
dependiam de gasolina: as pernas, os cavalos, as carroças,
os carros de boi, as charretes e o trem de ferro.
5. Globalização. Globo. Tudo está ligado numa
estrutura única. Globalização: todas as partes do
nosso mundo estão inter-ligadas. O dinheiro faz as ligações.
Dinheiro é poder. O poder não entende a linguagem do
amor. Daí a “confusão das línguas“. Essa é uma
das lições mais preciosas de Marx: o capitalismo não
conhece os “valores de uso“ – ligados à vida; só
conhece os “valores de troca“, ligados ao dinheiro.
6. Globalização: bolhas de sabão são globos. Nas
estruturas globais basta que se rompa um único elo da
estrutura para que o todo se desmorone. Globalização
significa: vivemos numa bolha de sabão: estrutura
maravilhosa que se rompe se o vento soprar mais forte.
Vivemos na estúpida ilusão da solidez do mundo em que
vivemos. Como viviam aqueles que, diariamente,
trabalhavam nas Torres.
7. Já imaginaram o que vai acontecer se, por acaso,
faltar combustível? Faltou, quando eu era menino. Não
fez muita diferença. Mas, e se faltar agora? Todos os
meios de transporte paralisados. Os carros parados nas
garagens – como o Plymouth de mau pai, em 1942... As
geladeiras se esvaziando. Será inútil ir à pé aos
supermercados para comprar o que nos falta. Também os
seus estoques estarão vazios: os caminhões estão
parados. A imaginação fértil pode mesmo imaginar o início
de necessidades antropofágicas...
8. Quem vai sobreviver? Os índios, remando suas canoas,
pescando nos rios, caçando nas florestas... Os pobres
nordestinos com seus jegues, sobrevivendo como sempre
sobreviveram... Os pequenos agricultores, em lugares
distantes, com suas hortas, galinhas e porcos...
9. Os dinossauros desapareceram. As lagartixas
sobreviveram. Como disse um economista indiano: “It
is sure that the fittest will survive. But there is no
indication that the fattest are the fittest...“ (É
certo que os mais aptos sobreviverão. Mas não há
nenhuma indicação de que os mais gordos sejam os mais
aptos ).
10. Rollo May sugeriu um epitáfio a ser colocado no túmulo
dessa espécie em perigo de extinção chamada “Homo
Sapiens“: “Como o dinossauro ele tinha poder sem
capacidade de mudança, força, sem capacidade de
aprender.“
11. Psicologia: pus-me na posição do piloto, seu avião
apontado na direção da Torre. Imaginei o que teria
sentido. Medo? De forma alguma. Certamente havia um
sorriso nos seus lábios. Ele devia estar possuído por
uma alegria imensa, inebriado pelo seu deus: a Morte. O
desejo de vingança é um dos desejos mais profundos e
mortíferos da alma humana.
12. Sansão, como é sabido, foi um herói bíblico, de
força descomunal. Seduzido por Dalila, filistéia
linda, ele lhe revela o segredo de sua força: os
cabelos. E ela, valendo-se do seu sono, os corta. Fraco,
é preso pelos seus inimigos que lhe furam os olhos. O
que se segue é a transcrição de um texto bíblico.
Sansão estava cego mas seus cabelos haviam crescido. É
então levado pelos seus inimigos para uma grande
celebração de triunfo, num templo. “E Sansão clamou
por Deus e disse: Dá-me forças para me vingar dos
Filisteus... E Sansão se colocou entre as duas colunas
sobre as quais a estrutura do templo se apoiava, a mão
direita contra uma, a mão esquerda contra a outra – e
sobre elas colocou toda a sua força. E o templo ruiu
sobre os líderes e sobre o povo. E assim, aqueles que
ele matou com sua morte foram mais numerosos que todos
os que havia morto com a sua vida...“ (Livro de Juizes
17: 28-30). É possível que a lenda do piloto esteja
sendo contada ao lado da lenda de Sansão...
13. Os terroristas não se chamam terroristas. Somos nós
que lhes damos esse nome. Eles se acreditam instrumentos
de Deus para o estabelecimento da verdade. Não são
suicidas. São mártires que se sacrificam para que a
verdade triunfe. Aquelas Torres eram templos do Demônio.
Haverá coisa mais importante no mundo que derrotar o
Demônio? Contra ele todos os métodos são legítimos.
Que são umas poucas vidas quando o destino do universo
está em jogo? Não era assim que pensava a Igreja
quando acendia fogueiras para queimar os hereges em praça
pública, em espetáculos oferecidos para prazer e
edificação espiritual das pessoas mais delicadas e
religiosas?
14. Osama Bin Laden: seu rosto não se parece com o
rosto de um santo? O perigo não vem dos que se
silenciam sobre Deus. O perigo vem daqueles que estão
convencidos de serem instrumentos para a realização da
vontade de Deus.
15. Todo cadáver é semente. Todo túmulo é canteiro.
“E o cadáver que você plantou no seu jardim o ano
passado? Já começou a brotar?“ (T. S. Eliot)
16. “E talvez chegará o grande dia em que um povo,
notável por guerras e vitórias e pelo mais alto
desenvolvimento de uma ordem e inteligência militares,
e acostumado a fazer os mais altos sacrifícios por
essas coisas, exclamará livremente: ‘Nós quebramos a
espada!‘ – e com isso destruirá suas organizações
militares até seus mais profundos fundamentos.
Tornar-se desarmado quando se foi o mais bem armado, a
partir de um sentimento – esse é o meio para a paz
real, que deve descansar sobre a paz de espírito. (...)
Antes perecer que odiar e temer, e duplamente ‘antes
perecer que fazer-se odiado e temido‘ – essa deveria
se tornar, algum dia, a máxima suprema para cada
povo.“ (Nietzsche)
17. “Somente onde há túmulos há também ressurreições“
(Nietzsche). É preciso que a catástrofe seja um túmulo
de onde uma vida nova surge.
18. A natureza ignora a loucura dos homens: os ipês
amarelos continuam a florescer. “Ah! Como os mais
simples dos homens são doentes e confusos e estúpidos
ao pé da clara simplicidade e saúde em existir das árvores
e das plantas!“ (Alberto Caeiro)
(Correio Popular, Caderno C, 16/09/2001.)

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