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Não
ligo para aquilo que os meus inimigos pensam de mim. O
que eles pensam nada revela a meu respeito - mas diz
muito sobre as condições do seu trato digestivo.
Nietzsche dizia que havia pessoas que não gostavam dele
porque suas palavras eram fogo para suas bocas. Mas as
palavras, como as pimentas, podem ser fogo na boca e
fogo em outro lugar. Quem diz que não gosta de pimenta,
fico logo suspeitando que sofra de hemorróidas. Assim,
não ligo se alguém pensar mal de mim.
Mas se os meus amigos pensarem mal de mim - isso sim vai
me causar sofrimento. Se pensam mal de mim sendo meus
amigos, isso quer dizer que existe uma pitada de verdade
nos seus pensamentos. Os pensamentos dos amigos são
espelhos. Aí vou ficar com vergonha, e vou começar a
fugir da presença deles.
Deus é feito a gente. Não sofre nem um pouco com
aquilo que o Diabo e sua gangue pensam dele. Mas o caso
é diferente quando o que está em jogo são calúnias e
vilezas que dele pensam - quem diria? - justamente
aqueles que se dizem seus amigos. Acho mesmo que este é
o sentido da doutrina da Igreja, que afirma que o Filho
de Deus continua a ser crucificado todos os dias -
tantas vezes quantas missas forem celebradas. Sempre me
perguntei se esses sacrifícios não teriam fim. Só
tardiamente compreendi que N.S. Jesus Cristo não para
de ser crucificado porque os que se dizem seus filhos,
amigos, adoradores, devotos, etc., não param de
espalhar aos quatro ventos mentiras horríveis sobre o
seu caráter e os seus sentimentos. Abertamente eles não
têm coragem de dizer. Abertamente é só piedade e
temor. Falam “graças a Deus“, “se Deus quiser“,
“louvado seja Deus“, fazem sinal da cruz, vão às
igrejas, acendem velas, lêem a Bíblia. Mas
secretamente, à boca miúda, sem palavras, espalham que
Deus é um anormal, sádico, corrupto que se vende por
pouca coisa. E isso é a pior cruz para ser sofrida: os
maus pensamentos dos amigos. Se eu tivesse amigos assim,
trataria de me mudar para bem longe deles.
Se você não está entendendo o que estou dizendo,
trato de explicar.
Quando a gente dá uma coisa a gente está dizendo o que
pensa do outro que recebe o presente. Dou água para a
planta porque sei que planta gosta d\'água. Dou um osso
para um cachorro porque sei que cachorro gosta de osso.
Dou alpiste para um passarinho porque sei que passarinho
gosta de alpiste.
Isso vale também para os presentes que damos às
pessoas. Eu estava com um casal amigo fazendo compras
numa loja de presentes. Muitas eram as opções. Entre
elas uns aventais lindos, coloridos, finos. Era ver e
sentir-se tentado a dar um de presente para a mulher.
Minha amiga, esposa do meu amigo, me segredou baixinho:
“Se ele (o marido) me der um avental de presente, eu
me divorcio...“ Claro! O presente estaria dizendo:
“Querida, como você fica bonita na cozinha!“ Mas
ela não queria ser definida como cozinheira. O presente
diz o que a gente pensa que o outro é.
Um CD de música clássica diz que o outro, tal como ele
existe na minha cabeça, é um apreciador de música
erudita. Se o CD for de sax-jazz já a imagem do outro
será diferente, mais sensual. Um livro de poesia dirá
ao outro que ele (ou ela) é uma pessoa sensível e
amante do silêncio. Panelas, ferramentas, brinquedos,
echarpes, cuecas de seda, sutiãs de rendinha, um livro
de arte erótica, uma garrafa de vinho, Bíblias e terços,
caixas de bombons: cada um desses presentes diz ao outro
o que penso dele.
Deus também merece presentes. Deus também quer ficar
feliz. As pessoas que dizem gostar dele tratam de
dar-lhe presentes (como os Magos) - os melhores, os que
lhe darão maior prazer. Presentes para fazer Deus
sorrir de felicidade, presentes para fazer Deus voltar a
ser criança! O presente que dou deve ser a realização
do desejo do outro. E quais são os desejos de Deus - a
se acreditar nos presentes que lhe são oferecidos?
Antigamente os mais devotos, para fazer Deus ter prazer,
se autoflagelavam com chicotes e coisas pontudas. Quando
eu era menino vi mulheres carregando pesadas pedras nas
cabeças, como presente a Deus. Hoje estas coisas
viraram presentes brega. Deus melhorou, e só aceita
cascas de feridas mais delicadas. Na casa de presentes a
Deus se encontram, por exemplo, as seguintes opções:
subir, de joelhos, o caminho até a igreja do Pe. Cícero;
subir, de joelhos, a escadaria da Igreja da Penha;
arrastar uma cruz, a pé, por cinqüenta quilômetros;
ficar sem comer por três dias; abster-se de beber
cerveja por todo um mês; não tomar Coca cola por nove
meses; não transar ou não se masturbar até que a graça
seja concedida.
O que dizem tais presentes sobre o caráter de Deus?
Dizem que ele não é Deus, é um ser monstruoso, sádico,
que fica feliz quando nós sofremos; corrupto, concede
graças a troco de dor. Se eu fosse Deus trataria de me
mudar para bem longe, um outro universo onde só
houvesse plantas e animais. Plantas e animais entendem
mais de Deus do que nós. Portanto, com um pedido de
perdão por tanta ofensa, sugiro que na passagem do ano
façamos promessas bonitas a Deus, promessas que digam
que o achamos normal e bonito como nós. Ele não é sádico.
Não tem orgasmos quando nós sofremos. Ele sofre quando
sofremos e dá risadas quando damos risadas. Assim, se
oferecermos presentes de felicidade ele ficará feliz e
voltará. Como exemplo aqui vão algumas das promessas
que farei.
Vou andar diariamente, sem obrigação de fazer exercício,
por algum bosque ou jardim desse universo maravilhoso,
por puro prazer. Vou comprar uma cachorrinha
cocker-spaniel.
Vou gastar tempo observando o vôo dos pássaros, a
forma das nuvens, a folhagem das árvores. Vou ver de
novo O Poeta e o Carteiro. Vou fugir do agito, do ruído,
da confusão. Vou cultivar a solidão e o silêncio: um
espaço sagrado. Vou fazer um jardim Zen, com água e
sinos que o vento toca. Vou ouvir muita música, canto
gregoriano, Bach, Beethoven, Mahler, César Franck. Vou
ler o Fernando Pessoa inteiro. Vou aprender a cozinhar.
Vou receber os amigos. Vou beber cerveja, vinho, Jack
Daniels. Vou brincar, com coisas e com pessoas.
Que Deus me ajude. E que ele se alegre com minhas
promessas.
(Transparências da eternidade, Verus, 2002)

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