Vou contar
para vocês uma estória que me contaram. Não
importa se verdadeira ou imaginada. Tolstoi disse e Guimarães
Rosa confirmou: “Se descreves o mundo tal qual é,
não haverá em tuas palavras senão muitas
mentiras e nenhuma verdade.” Por vezes, para se ver
a verdade é preciso sair do mundo da realidade e entrar
no mundo da fantasia...
Um grupo
de psicólogos se dispôs a fazer uma experiência
sobre a inteligência dos macacos. Colocaram cinco macacos
dentro de uma jaula. No meio da jaula, uma mesa. Acima da
mesa, pendendo do teto, um cacho de bananas. Os macacos viram
as bananas. Os macacos gostam de bananas. Pensaram que seria
bom comer as bananas. Viram a mesa. Concluiram, com sua inteligência
instrumental, que subindo na mesa alcançariam as bananas.
Viram, desejaram, pensaram e partiram para a ação.
Um dos macacos subiu na mesa para apanhar uma banana. Mas
os psicólogos estavam preparados para tal eventualidade:
com uma mangueira deram um banho de água fria nos macacos.
Foi um susto. O macaco que estava sobre a mesa, ensopado,
desistiu provisoriamente do seu projeto de comer bananas.
Que lamentável incidente! Passados alguns minutos,
secos os macacos, olharam de novo para as bananas com desejo.
Outro macaco resolver subir na mesa para comer as bananas.
Mas o mesmo banho de água fria se repetiu. Depois da
mesma coisa se repetir por quatro vezes os macacos, inteligentes,
concluiram que havia uma relação causal entre
subir na mesa para apanhar bananas e o banho de água
fria. E como o medo da água fria era maior que o desejo
de comer bananas, resolveram que nenhum deles tentaria de
novo comer bananas, sob pena de uma surra. Assim foi. Quando
um macaco delinquente resolvia fazer a coisa proibida, antes
do banho de água fira os outros lhe aplicavam a surra
merecida.
Aí
os psicólogos retiraram da jaula um macaco e colocaram
no seu lugar um outro macaco, fresquinho, que nada sabia dos
banhos de água fria e dos acordos havidos para se evitar
o banho. Ele se comportou como qualquer macaco. Foi subir
na mesa para comer as bananas. Mas antes que o fizesse os
outros quatro lhe aplicaram a surra de direito. Ele nada entendeu.
Pensou, talvez, que se tratasse de uma cerimônia de
iniciação. Passada a dor da surra, voltou a
querer comer a banana e se encaminhou para a mesa. Nova surra.
Depois da quarta surra ela concluiu e aprendeu: “Nessa
jaula macaco quem sobre na mesa apanha.” E, sendo minoria,
ele não tinha condições de se rebelar.
Adotou então a sabedoria cristalizada pelos políticos
humanos que diz “se você não pode derrotá-los,
junte-se a eles.”
Os psicólogos
retiraram então um outro macaco e colocaram outro fresquinho
no seu lugar. Aconteceu a mesma coisa. Os três macacos
originais mais o último macaco, que nada sabia da origem
e função da surra, se juntaram e lhe aplicaram
a sova de praxe. Esse último macaco também aprendeu
que naquela jaula que subia na mesa apanhava.
E assim
continuaram os psicólogos a substituir os macacos originais
por macacos novos, até que na jaula só ficaram
macacos que nada sabiam sobre o banho de água fria.
Mas, a despeito disso, o ritual da surra continuou. Se se
perguntássemos a esses macacos sobre a razão
porque eles surravam os macacos que tentavam subir na mesa
para apanhar banana, eles haveriam de responder, se pudessem:
“ É assim porque é assim. Nessa jaula
macaco que sobe na mesa para comer banana apanha”...
De há
muito os psicólogos descobriram que há continuidades
entre o comportamento dos animais e o comportamento dos seres
humanos. E eu acho que nós, eu inclusive, freqüentemente
nos comportamos como os macacos. Aquilo que todos fazem ou,
mais terrível ainda, aquilo que todos pensam, nós
tendemos a aceitar e incorporar como se fosse a realidade
e a verdade. O repetição cria ontologia: “É
porque é”, “assim são as coisas...”
Eu acho
que em relação às escolas nós
nos parecemos muito com os macacos. Vamos brincar de “fazer
de contas”. As escolas são as jaulas e nós
estamos dentro delas... Por favor, não se ofenda, é
só “faz de contas”, fantasia, para ajudar
o pensamento. A razão por que estamos dentro das jaulas
são as bananas. Mas não comemos as bananas.
Até nos esquecemos de que elas existem. Há uma
infinidade de coisas que nos ocupam e nós as aceitamos
assumindo que “é assim que são as escolas”.
Mas, como os macacos, não fazemos perguntas sobre o
sentido daquilo para a educação das crianças
e nem se é possível ser de outra forma. Vou
da alguns exemplos.
Primeiro,
a arquitetura das escolas. Todas as escola têm corredores
e salas de aula. As salas de aula servem para separar as crianças
em grupos segregando-as umas das outras. Por que é
assim? Tem de ser assim? Não existirá uma outra
forma de organizar o espaço que permita a interação
e cooperação entre crianças de idades
diferentes, tal como acontece na vida? A escola não
deveria imitar a vida? Programas. Um programa é uma
organização de saberes numa determinada sequência.
Quem determinou que esses são os saberes a serem aprendidos
pelas crianças? Por que? Que uso fazem as crianças
desses saberes na sua vida de cada dia? Os adultos consultam
as crianças no preparo dos programas? As crianças
escolheriam esses saberes? Por que esses e não outros?
Os programas servem igualmente para crianças que vivem
nas praias de Alagoas, nas favelas das cidades, nas montanhas
de Minas, nas florestas da Amazônia, nas cidadezinhas
do interior? Os programas são dados em unidades de
tempo chamados “aulas”. As aulas têm horas
definidas. Ao final toca-se uma campainha. A criança
tem de parar de pensar o que estava pensando e passar a pensar
os saberes da aula seguinte. Mas o pensamento obedece as ordens
das campainhas? Por que é necessário que todas
as crianças pensem as mesmas coisas, na mesma hora,
no mesmo ritmo, seguindo o professor? As crianças serão,
por acaso, todas iguais? O objetivo da escola é fazer
com que as crianças sejam todas iguais?