Fernando
Pessoa – quem diria? – foi ideólogo da
Coca-Cola... Quem me revelou isso foi o professor Ademar Ferreira
dos Santos , educador português, da Escola da Ponte,
em Portugal.. Pois ele me contou que nos idos dos anos 20
Fernando Pessoa, precisando ganhar dinheiro para sobreviver
passou a trabalhar para um empresa de propaganda. Coca-Cola
estava chegando, desconhecida, de gosto estranho, precisava
de uma cunha poética que lhe abrisse o caminho. Foi
então que Fernando Pessoa produziu esse curtíssimo
slogan: “ A princípio estranha-se. Depois, entranha-se
”. Absolutamente genial! Aconteceu comigo. Caipira de
Minas mudado para o Rio, acostumado a tomar refresco de pitanga,
achei a Coca-Cola uma coisa horrivel, com gosto de verniz
misturado com sabão. Aí, aos poucos, na roda
dos colegas cariocas que tomavam Coca-Cola com prazer, a metamorfose
foi acontecendo. O estranhamento se transformou em entranhamento.
E continua, a despeito da minha resistência ideológica.
Como disse Barthes, “ meu corpo não tem as mesmas
idéias que eu.” Disse tudo isso porque sei que
vocês irão estranhar a idéia que vou apresentar.
Quando eu a digo pela primeira vez a reação
imediata dos meus ouvintes é susto, seguido por riso...
“Não é possível que o Rubem esteja
falando sério. Essa é mais uma de suas brincadeiras...”
Não, não é brincadeira. Estou falando
sério e peço que vocês, meus leitores,
se ponham a repetir: “ A princípio estranha-se.
Depois entranha-se...” Peço que vocês tenham
para com minha idéia estranha a mesma atitude que tiveram
diante da estranha Coca-Cola.
Tudo começou
há muitos anos, na UNICAMP, quando um grupo de amigos
se reuniu para estudar a possibilidade de um vestibular inteligente.
Porque esse que existe não é inteligente. Pelo
contrário. Minha amiga Vilma Cloris de Carvalho, educadora
extraordinária, professora de neuro-anatomia, me revelou
que seus piores alunos eram aqueles que tinham obtido as notas
mais altas no vestibular. “Eu explico a complexidade
do funcionamento do aparelho nervoso, mostro-lhes o caráter
provisório das hipóteses de que dispomos, falo
sobre uma, falo sobre outra... E aí há sempre
um desses gênios que tiraram as notas mais altas que
se sai com a pergunta: ‘Mas professora, qual é
a resposta certa?...Ah! Essa simples pergunta contém
um mundo de desensinos... Nós queríamos um vestibular
que fizesse bem à inteligência, que testasse
a capacidade dos alunos de pensar diante de situações
novas, em oposição àquele que privilegiava
a memória mecânica e as respostas certas. Um
dia, num intervalo entre as discussões, o meu amigo
professor Yaro Burian Jr., engenheiro do ITA, me disse com
um sorriso: “ A melhor solução é
o sorteio...” Estranhei. Refuguei. O Yaro devia estar
me gozando. Sorteio, coisa injusta. Vai privilegiar os incompetentes.
Ri. Aí ele não explicou nada e só me
disse: “Pense...” Pus-me a pensar e não
parei até hoje. Ao estranhamento seguiu-se o entranhamento.
Hoje eu repito: “ O sorteio é a solução
mais inteligente e mais educativa”. Agora eu preciso
explicar o caminho do meu pensamento.
“Funções
manifestas” e “funções latentes”
são conceitos criados pelo sociólogo Robert
K. Merton. Esses conceitos são ferramentas de pensamento
que sempre me ajudam a pensar. Vou explicar o seu sentido
( que é o mesmo que dizer “ vou explicar o seu
uso”. O sentido de uma idéia é o uso que
fazemos dela. ) .Pergunta: “Qual é a função
a exigência de que, para ser aprovado, o aluno tenha
de ter frequentado 75% das aulas?” Resposta da função
manifesta: “A frequência a 75% das aulas é
condição para se manter a qualidade do ensino”.
Resposta da função latente: “A frequência
a 75% das aulas é condição para que os
professores medíocres e incompetentes tenham sempre
alunos em suas aulas que doutra forma estariam vazias, livrando-os
assim da vergonha...” Funções latentes
correspondem aos “efeitos colaterais” das bulas
dos remédios: função manifesta, curar;
função latente, pode matar...
Qual é
a função manifesta dos exames vestibulares?
O nome está dizendo: vestíbulo. Vestíbulo
é lugar de entrada. Exames vestibulares: exames para
se conseguir entrar no lugar desejado. Mas a minha atenção
não se interessa por essa função manifesta.
Interessam-me suas funções latentes, seus efeitos
colaterais de que poucos se dão conta. Assim, ao falar
de exames vestibulares eu não olha para frente, para
a universidade. Olho para trás e contemplo o que a
sua sombra enorme cobrindo todos os processos escolares que
os antecedem. Observo a progressiva instalação
dos processos de tortura a que crianças e adolescentes
têm de se submeter, tirando toda a alegria da experiência
de aprender. Meu espaço acabou. Mas fica esse “dever
de casa”: identificar a presença e o poder da
“sombra enorme”... ( continua )
Uma anedota
se faz assim: constroi-se uma trama de expectativas que levam
o ouvinte a esperar um certo final mas, de repente, numa rasteira
rápida, a narrativa termina com um final totalmente
inesperado... mas lógico. Tem de ser lógico.
Se não for lógico não tem graça.
E tem de ser inesperado. Se não for inesperado também
não tem graça. Quer destruir o riso? Comece
a piada contando o fim... É nesse final inesperado
que o riso explode, quando a realidade, por meio de um salto,
subverte a expectativa. Por que rimos com o final da anedota?
Talvez porque a anedota nos revele algo sobre a própria
estrutura da realidade. Rimos por sentir que a realidade é
mais rica e divertida que nossas projeções científicas
a seu respeito. Aconteceu na minha vida. Se minhas projeções
para a minha vida tivessem se cumprido eu seria hoje, talvez,
um engenheiro ou um médico. Sou o que sou porque tudo
o que planejei deu errado. Jamais passou pelos meus planos
que um dia eu seria um escritor.
A vida
me ensinou que a realidade é como uma piada e que não
existe nada mais inútil que nossas projeções
futurológicas: o final é sempre inesperado...
Daí a tolice das profecias.
Assim,
sinto-me andando em areia movediça ao tentar imaginar
como será a escola e a educação daqui
a 25 anos. Mas a pergunta me foi feita e eu tenho de imaginar
um final... sem graça... Vou, assim, simplesmente indicar
algumas das tendências que percebo no presente e imaginar
qual poderia ser o seu desenvolvimento no futuro.
Em primeiro
lugar há as instituições de ensino que
se enquadrariam no modelo a que poderíamos dar o nome
de “escola tradicional”. As “escolas tradicionais”
têm sido, por séculos, o modelo dominante de
escola no mundo ocidental. Eu freqüentei uma “escola
tradicional” porque na minha infância e juventude
não havia outras, embora não seja certo dizer
que foi numa “escola tradicional” que estudei.
Eu estudei muito por minha conta perseguindo meus próprios
interesses. A “escola tradicional” se caracteriza
por ser baseada em “programas” em que os saberes,
organizados numa determinada ordem, são estabelecidos
por autoridades burocráticas superiores. Os professores
são aqueles que sabem o programa e o ensinam. Os alunos
são aqueles que não sabem e aprendem. Os professores
são ativos, os alunos são passivos. A grande
preocupação burocrática e funcional dos
professores é “dar o programa”. Os alunos
são agrupados em turmas independentes que não
se comunicam umas com as outras, e a atividade de pensar é
fragmentada em unidades de tempo chamadas aulas, que também
não se relacionam umas com as outras. Para que as atividades
de aprendizagem se dêem de maneira uniforme e possam
ser mais facilmente avaliadas empregam-se “livros textos”.
A aprendizagem é avaliada numericamente por meio de
testes e provas nas quais os professores fazem as perguntas
e os alunos dão as respostas. Todas as instituições
são resistentes às mudanças. As “escolas
tradicionais”, instituições, são
extremamente resistentes mudanças, superando mesmo
a instituição do casamento. Vale para elas a
parábola dos macacos que contei em um dos meus artigos
anteriores. Muitas das “escolas tradicionais”
são estatais As instituições estatais,
por garantir um emprego vitalício, retiram do trabalho
os desafios que as impulsionariam na direção
de mudanças e favorece o imobilismo. “É
a necessidade que faz o sapo pular”. A segurança
põe a inteligência a dormir. Por força
da lei elas detém o monopólio do poder de “certificar”
o conhecimento. Conhecimento real sem o devido “certificado”
da “escola tradicional” é como se não
existisse. O que obriga os pretendentes ao trabalho a se submeter
às suas regras posto que, numa enorme variedade de
situações, o que se exige não é
conhecimento real mas o “certificado” oficial
de conhecimento. Prevejo que daqui a 25 anos essas escolas
estarão do mesmo jeito, talvez pintadas com cores mais
alegres.
Mas, de
repente, os saberes começaram a pulular fora dos limites
oficiais do saber definidos pela “escola tradicional”.
Circulam livres no ar, sem depender de turmas, salas, aulas,
programas, professores, livros-texto, dotados do poder divino
de onipresença: o “aprendiz” aperta um
botão e viaja instantaneamente pelo espaço.
O “aprendiz” se descobre diante de um mundo imenso
onde não há caminhos pré-determinados
por autoridades exteriores. É o seu desejo que dá
as ordens. Viaja ao sabor da sua curiosidade, quer explorar,
experimenta a surpresa, o inesperado, a possibilidade de comunicação
com outros aprendizes companheiros de viagem. Mas o fato é
que ele se encontra diante de uma tela de computador. O que
ali aparece não é a realidade onde a vida acontece.
É um mundo virtual, de símbolos. Trata-se apenas
de um “meio”. E é somente isso, essa alienação
da realidade vital que torna possível a sua imensidão
potencialmente infinita. Mas, como disse McLuhan, “
o meio” – fascinante! – “é
a mensagem”. E a “massagem”...Há
o perigo de que os “fins”, a vida, seja trocada
pelo fascínio dos meios – mais seguros e mais
extensos. Não se pode comparar a imensidão que
assim se abrem, via Internet, com a experiência pequena
e localizada onde a vida acontece. Fascinante essa nova escola,
não é preciso ser profeta para prever que ela
irá se expandir além daquilo que podemos imaginar.
Mas é preciso perguntar: Qual o sentido desses meios
para os milhões de pobres que não têm
o que comer? Serão deixados à margem da educação?
E a possibilidade de se trocar o “real” pelo “virtual”?
Meio ambiente é coisa real, não virtual.
Há,
finalmente, um extraordinário florescimento de experimentos
educacionais alternativos centralizados no aluno e no mundo
real em que ele vive. Por oposição ao conhecimento
virtual, essas experiências de aprendizagem se constroem
a partir dos problemas vitais com que os alunos se defrontam
no seu cotidiano, no seu lugar. Não há programas
universais definidos por uma burocracia ausente porque a vida
não é programável. E não existe
a possibilidade de alienação porque os desafios
partem da vida, em toda a sua diversidade e imprevisibilidade.
Os problemas das crianças nas praias de Alagoas, nas
favelas do Rio, nas matas da Amazônia, nas montanhas
de Minas não são os mesmos. O que esses experimentos
educacionais buscam, além dos saberes que porventura
venham a ser aprendidos, é o desenvolvimento da capacidade
de ver, de maravilhar diante do mundo, de fazer perguntas
e de pensar – sem medo de errar... Tenho a esperança
de que esses experimentos continuem a pipocar, porque é
nelos que o meu coração se sente mais feliz
e esperançoso.