As lições dos moluscos

 

Os moluscos ( do Latim “molluscus”, mole ) são animais de corpo mole, dentre os quais estão o caramujo e as ostras. Seus corpos macios são presas fáceis e apetitosas para os predadores gulosos. Na medida do que sabemos os moluscos não têm capacidade para pensar. O que não significa que não sejam inteligentes. Acontece que a inteligência dos moluscos não se encontra na cabeça; ela se encontra no seu corpo. Parafraseando Pascal: “O corpo tem razões que a própria razão desconhece”, com o que Freud concordaria. Os moluscos são inteligentes sem precisar pensar. E foi assim que eles, movidos pela necessidade de sobrevivência, para se proteger dos predadores, construiram carapaças protetoras que os protegessem: as conchas.

Confesso que fico assombrando contemplando a concha espiral de um simples caramujo de jardim. Essa experiência de espanto perante um objeto, os Gregos diziam que é dela que surge o pensamento. Os caramujos me espantam. Espantado, penso: Como é que essa gelatina estúpida é capaz de construir esse objeto assombroso, a sua concha espiral de perfeição matemática? Dentro do corpo de cada molusco mora um matemático invisível. Jogando o “jogo do bocó”, que aprendi no Livro sobre Nada, do poeta matogrossense Manoel de Barros, eu digo: “Os caramujos me metafisicam...” Eles me fazem pensar sobre o mistério do universo. Uma das tarefas mais alegres de um educador é provocar, nos seus alunos, a experiêcia do espanto. Um aluno espantado é um aluno pensante...

Pois parece que Piaget sofreu de espantos parecidos com os meus diante dos moluscos. Tanto assim que nos anos de sua juventude se dedicou a pesquisá-los nos lagos da Suiça. Mas, de repente, ele deu um salto dos moluscos para a psicologia da aprendizagem entre os humanos. Os desavisados concluem: Piaget mudou de espanto. Não. Ele não mudou de espanto. Apenas mudou de molusco. Pois nós, seres humanos, somos semelhantes aos moluscos. Aquilo que os moluscos fazem é uma metáfora daquilo que nós fazemos. Observando os moluscos ele compreendeu melhor os seres humanos. Porque os nossos corpos também são moles. Compare o seu corpo com o corpo de um tatu, um rato, um coelho, um gambá, um beija-flor. Eles sobrevivem usando apenas como ferramenta o corpo que receberam por nascimento. Mas nós – ai de nós! Que seria de nós se só contássemos com os nossos corpos para sobreviver? Morreríamos. Se nós sobrevivemos foi porque fizemos o que os moluscos fizeram: construímos conchas.

Mas há uma diferença. Os moluscos já nascem sabendo. Não precisam aprender. Seus corpos já nascem com um “chip” com todas as informações necessárias para a construção das conchas. O programa está pronto. Nós, ao contrário, não nascemos sabendo. Nossos corpos, por nascimento, nada sabem... É essa é a razão por que temos de aprender: E esse é o sentido da educação: educação é o processo pelo qual as gerações mais velhas ajudam as gerações mais novas a aprender a arte de construir conchas. Que são nossas conchas? Nossas conchas são formadas com aquilo que inventamos e construimos para sobreviver.. Parte da educação, assim, é o aprendizado das técnicas e artes necessárias à produção dos objetos que vão “completar” o nosso corpo mole, dando-lhe maior eficácia. Uma faca é uma melhoria dos dentes e das unhas. Uma escada é uma melhoria das pernas. Óculos são melhorias dos olhos. Um computador é uma melhoria do cérebro. Foi a nossa fraqueza, o nosso corpo mole, que nos obrigou a pensar. Nossa inteligência é filha da nossa fraqueza. .

Há, em Juiz de Fora, um velho professor que viveu espantado pelos moluscos: ( Izabela: por favor coloque aqui o nome todo do professor Amaury e a referência do número de Sinapse em que ele apareceu ). Seu espanto foi tão grande que dedicou sua vida a colecionar conchas de moluscos. São milhares de conchas, dos tipos mais variados, vindas de todas as partes do mundo, uma delas pesando 120 quilos. Fiquei encantado com a sua beleza e a perfeição matemática. Pensei que a vida não se contenta em produzir objetos úteis. Uma concha é, de fato, um objeto útil para o molusco que mora nela. É uma casa. Mas não é simplesmente uma casa. É uma casa espantosamente bela...

Talvez, contemplando os estúpidos moluscos, poderemos aprender algo sobre a educação. Primeiro, que é necessário aprender as utilidades e as competências. Aprender ferramentas úteis. Sem elas não se sobrevive. Segundo, que é necessário aprender as desutilidades, as coisas que, sem servir para nada, nos dão alegria e razões para viver. Ler o Manoel de Barros, fazer o “jogo do bocó”, aprender a adivinhar as nuvens, Mário Quintana diria “ olhar uma paineira florida”, ver figuras, ouvir Bach e Villa-Lobos, armar quebra-cabeças, ouvir a viola de dez cordas do Ivan Vilela... A ordem do poder e a ordem do amor. Sem o amor o poder é estúpido. Sem o poder o amor é fraco. Mas quando os dois se encontram vem a alegria. E, como disse Oswald de Andrade, “ a alegria é a prova dos nove...” Esse é o resumo da educação.