As dores...



Menino na roça, eu estava acostumado com as dorzinhas; dorzinhas fazem parte da vida. Solto, pés descalços, correndo sem prestar atenção por onde ia, o pé dava topadas em pedras – por vezes ao ponto de arrancar a unha do dedão – pisava em espinhos, levava tombos. Me queimei muitas vezes, brincando com fogo. E brincando, martelando o dedo, me cortando com faca. Havia também as picadas de abelhas e marimbondos e as queimaduras de taturanas, que eram brasa pura. Minha mãe foi picada por um escorpião. Eu pensei que ela fosse morrer...

Havia também as dores, maldades dos adultos: beliscões, palmadas, coques... Coque é assim: você fecha a mão e bate com a articulação pontuda e dura do pai-de-todos na cabeça da criança. Cora Coralina foi uma mulher que viveu em Goiás. Ela viveu a vida inteira vida comum de mulher, fazendo o que faziam as mulheres do interior naqueles tempos quando não havia nem televisão e nem eletrodomésticos, máquinas que, segundo Mário Quintana, foram criadas por causa da preguiça... Quem tem a máquina não precisa fazer... Pois assim viveu Cora Coralina, sem tempo para a preguiça, cuidando da casa, varrendo, cozinhando, costurando, pregando botões, fazendo pães, roscas e doces, cerzindo meias... Cerzindo meias! Ah! Você não sabe o que é isso! As meias, com o uso, ficavam esburacadas. Hoje meia esburacada é jogada fora. Nem mendigo aceita... Naqueles tempos não se jogava nada fora. O dinheiro era pouco. À noite, sem rádio ou televisão, as famílias se reuniam na sala para contar casos. As mães, então, pegavam suas cestinhas de cerzir meias onde havia meias furadas, agulhas, linhas de várias cores e um ovo de madeira! Para que o ovo de madeira? Enfiava-se o ovo de madeira dentro da meia até o lugar do furo, a meia ficava esticada, e a mãe então tecia sobre o buraco, para que a meia continuasse a ser usada... Isso, até as 9 horas, quando todo mundo ia para a cama... Pois quando a Cora Coralina ficou velha aconteceu com ela o que acontece com a pipoca. Pipoca é milho duro, muito duro, não dá para mastigar. Mas, de repente, na gordura fervente, ele dá um estouro e vira uma coisa completamente diferente, branca, macia, delícia de ser comida com sal. Pois a Cora Coralina, depois de velha, de repente, deu um estouro e a mulher comum virou poeta. Escreveu poemas lindos, falando como era a vida. E ela conta que, naqueles tempos, os grandes se valiam do seu tamanho e da sua idade para maltratar as crianças, com a desculpa de que era necessário para dar-lhes boas maneiras. Tive sorte. Meu pai e minha mãe – seus bisavós – nunca me bateram. Mas havia pais e mães cujo prazer era fazer os filhos sofrer: davam-lhes surras com chinelos, cintas de couro e varas. Ainda hoje há muitos que fazem coisas assim com os seus filhos. São pessoas doentes que nunca deveriam ter tido filhos. E as escolas! Eu me lembro de uma professora que dava reguadas na cabeça das crianças. Em tempos mais antigos que os meus a educação se fazia com palmatórias. Palmatórias eram peças de madeira, parecidas com colheres de pau. Meu tio Agenor relatava que, na sua escola, após o professor haver tomado as lições dos alunos, ele cheirava rapé – fumo ralado preto que, ao entrar no nariz, faz espirrar - para, a seguir, chamar aqueles que não haviam decorado a lição para então aplicar-lhes a correção dolorosa de bolos de palmatória, denominados de complementos educacionais. Eles achavam que a dor é um estímulo à aprendizagem. Os tempos mudaram, felizmente. As palmatórias também mudaram...

Dessas dores eu me lembro pouco. A primeira dor de que me lembro mesmo foi a dor de dentes. Doía, doía, doía. Eu chorava. Disse para o meu pai que felizes eram as galinhas, por não terem dentes. O remédio era bochechar com chá de malva quente...

Vocês se lembram que nossa viagem pelo passado se iniciou quando entramos na minha “máquina de tempo“. Viajando na máquina de tempo saímos do presente e entramos no passado. Vocês se lembram também que, à medida em que entrávamos no passado, as coisas que existem agora iam desaparecendo: desapareceram os shoppings, os cinemas, os supermercados, a coca-cola, os tênis... É claro. No passado eles não existiam. Mas eu me esqueci de dizer que desapareceram também as farmácias, os hospitais, os dentistas e os médicos. Aí vocês me perguntam: Mas então, no seu tempo, não havia médicos, dentistas, farmácias e hospitais? Havia sim. Nas cidades. Mas não no lugar onde eu morava, a roça. E é assim que ainda hoje vivem milhões de brasileiros, perdidos em lugares muito distantes. Lá, não adianta gritar... A roça é o lugar onde se sofre muito. Quando as dores são pequenas, a gente agüenta. Com o tempo elas passam. Mas, e quando as dores são grandes e não passam?

Eu já experimentei dois tipos de dores grandes. Primeiro, cálculo renal. Sobre essa palavra “cálculo“ eu quero contar para vocês uma coisa divertida. Ela vem do Latim. Vocês devem saber que nossa língua é filha do Latim, língua que os conquistadores romanos, que dominaram o mundo, espalharam por onde iam. O Latim foi a primeira língua da globalização. Razão por que, no passado, na Igreja Católica só se falava Latim. Hoje a língua da globalização é outra, chamada dólar... Pois em Latim “cálculo“ quer dizer “pedrinha“. Mas a palavra cálculo significa também “fazer contas“, como em matemática. Há, nas universidades, um curso de cálculo, horror dos estudantes, que é o que mais reprova e faz sofrer. É que, a princípio, antes das calculadoras e dos computadores, as contas eram feitas com auxílio de pedrinhas... Eu sofri a dor do cálculo renal, uma pedrinha muito pequena que o organismo produz e se intromete na canalização por onde passa a urina. Dói muito, dói muito. Normalmente a dor passa com uma injeção chamada Buscopan. No meu terceiro cálculo renal eu tomei uma Buscopan. Não passou. Tomei outra. Não passou. Fui para o hospital. Tomei mais três. Não passou. Nesse momento eu já estava esverdeado e comecei a vomitar de tanta dor. Aí o médico disse para a enfermeira: “Aplique uma Dolantina“. Ela aplicou. Cinco minutos depois eu estava no céu. Nenhuma dor. Percebi, então, a coisa absolutamente maravilhosa que é simplesmente não sentir dor. Curioso: milhões de pessoas, nesse momento, não estão sentindo dor e não se apercebem da felicidade que é, simplesmente, não sentir dor. Mas, e se eu estivesse vivendo na roça? O que acontece com as pessoas que, vivendo na roça, têm um cálculo renal?

A outra dor grande que tive foi de hérnia de disco. O que é hérnia de disco? A coluna vertebral, como o nome está dizendo, é uma coluna de vértebras encaixadas umas nas outras. Entre elas existe um espaço, para que o corpo possa se movimentar e tenha flexibilidade. Pela coluna passa um feixe de nervos – semelhante a um feixe de fios elétricos - que se espalham pelas várias partes do corpo para lhes dar movimento e sensibilidade. Pois pode acontecer que um desses nervos venha a ser comprimido. Vem então a dor, uma dor insuportável, tão terrível ou mais terrível que a dor de cálculo renal. No passado, antes dos recursos médicos que há agora, era uma dor sem esperança. Um amigo meu, médico, disse-me que num livro francês do século XIX está escrito que a única forma de acabar com a dor de hérnia de disco é a morte. A cirurgia me livrou da hérnia de disco. Eu fico a me perguntar sobre o que aconteceu com as milhares de pessoas que tiveram a dor de hérnia de disco, na roça... Sim, qual terá sido o fim da sua dor?

Pensando sobre as grandes invenções da ciência, eu acho que a mais maravilhosa de todas foi o domínio da dor. Pois, de que me vale tudo o que o progresso me pode dar, se meu corpo está sentindo dor? Quando a gente sente dor o mundo inteiro desaparece. Nada interessa. O mundo de uma pessoa com dor de dentes se resume... no dente que está doendo: ela não quer chocolate, não quer boite, não quer queijo, não quer beijo... Para que a gente sinta o prazer das coisas boas da vida é preciso que não se esteja sentindo dor.

Na roça se sofria muito, sem esperança. Na roça a dor mandava. É por isso que se dizia, quando uma pessoa morria: “Descansou...“

(Correio Popular, 02/06/2002)