Recordo
a Adélia: “Não quero faca nem queijo;
quero é fome.” Se estou com fome e gosto de queijo
eu como queijo... Mas, e se eu não gostar de queijo?
Procuro outra coisa de que goste: banana, pão com manteiga,
chocolate... Mas as coisas mudam de figura se minha namorada
for mineira, gostar de queijo e for de opinião que
gostar de queijo é uma questão de caráter.
Aí, por amor à minha namorada, eu trato de aprender
a gostar de queijo. Me lembro do filme Assédio sexual.
A estória se passa numa cidade do norte da Itália
ou da Suíça. Um pianista vivia sozinho numa
casa imensa que havia recebido como herança. Ele nem
conseguia cuidar da casa sozinho e nem tinha dinheiro para
pagar uma faxineira. Aí ele propôs uma troca:
ofereceu moradia para quem se dispusesse a fazer os serviços
de limpeza. Apresentou-se uma jovem negra, recém-vinda
da África, estudante de medicina. Linda! A jovem fazia
medicina ocidental com a cabeça mas o seu coração
estava na música da sua terra, os atabaques, o ritmo,
a dança. Enquanto varria e limpava sofria ouvindo o
pianista tocando uma música horrível: Bach,
Brahms, Debussy... Aconteceu que o pianista se apaixonou por
ela. Mas ela não quis saber de namoro, achou que se
tratava de assédio sexual e despachou o pianista falando
sobre o horror da música que ele tocava.. O pobre pianista,
humilhado, recolheu-se à sua desilusão mas...
uma grande transformação aconteceu: ele começou
a frequentar os lugares onde se tocava música africana.
Até que aquela música diferente entrou no seu
corpo e deslizou para os seus dedos. E, de repente, a jovem
de vassoura na mão começou a ouvir uma música
diferente, música que mexia com o seu corpo e suas
memórias... E foi assim que se iniciou uma estória
de amor atravessado: ele, por causa do seu amor pela jovem,
aprendendo a amar uma música de que nunca gostara,
e a jovem, por causa do seu amor pela música africana,
aprendendo a amar o pianista que não amara. Sabedoria
da psicanálise: frequentemente a gente aprende a gostar
de queijo através do amor pela namorada que gosta de
queijo...
Isso me
remete a uma inesquecível experiência infantil.
Eu estava no primeiro ano do Grupo. A professora era a dona
Clotilde. Pois ela fazia o seguinte: assentava-se numa cadeira
bem no meio da sala, num lugar onde todos a veriam, acho que
fazia de propósito, por maldade, desabotoava a blusa
até o estômago, enfiava a mão dentro dela
e puxava para fora um seio lindo, liso, branco, aquele mamilo
atrevido... E nós, meninos, de boca aberta... Mas isso
durava não mais que cinco segundos porque ela logo
pegava o nenezinho e o punha para mamar. E lá ficávamos
nós, sentindo coisas estranhas que não entendíamos:
o corpo sabe coisas que a cabeça não sabe. Terminada
a aula os meninos faziam fila junto à Da. Clotilde,
pedindo para carregar a pasta. Quem recebia a pasta era um
felizardo, invejado. Como diz o velho ditado, “quem
não tem seio carrega pasta...” Mas tem mais:
o pai da Da. Clotilde era dono de um botequim onde se vendia
um doce chamado “mata-fome”, de que nunca gostei.
Mas eu comprava um mata-fome e ia para casa comendo o mata-fome
bem devagarzinho... Poeticamente trata-se de uma metonímia:
o “mata-fome” era o seio da Da. Clotilde...
Ridendo
dicere severum: rindo, dizer as coisas sérias... Pois
rindo estou dizendo que frequentemente se aprende uma coisa
de que não se gosta por se gostar da pessoa que a ensina.
E isso porque – lição da psicanálise
e da poesia – o amor faz a magia de ligar coisas separadas,
até mesmo contraditórias. Pois a gente não
guarda e agrada uma coisa que pertenceu à pessoa amada?
Mas a “coisa” não é a pessoa amada!
É sim!, dizem poesia, psicanálise e magia: a
“coisa” ficou contagiada com a aura da pessoa
amada. Minha avó guardava uns bichinhos que haviam
pertencido a um filho que morrera. Guardo um peso de papel,
de vidro, que pertenceu ao meu pai. E os apaixonados guardam
uma peça de roupa da pessoa amada, e a colocam sobre
o travesseiro, ao dormir... Mesmo depois dela ter morrido.
É como se, através daquela “coisa”
que não é a pessoa amada fosse possível
tocar e acariciar a pessoa amada, ausente.
Pois o
mesmo mecanismo acontece na educação. Quando
se admira um mestre, o coração dá ordens
à inteligência para aprender as coisas que o
mestre sabe. Saber o que ele sabe passa a ser uma forma de
estar com ele. Aprendo porque amo, aprendo porque admiro.
Sabendo o que ele sabe eu carrego a sua pasta, como o “mata-fome”,
faço amor com ele.
Lamento
dizer isso: tive poucos mestres que admirasse. Lembro-me de
um que admiro até hoje, embora já se tenham
passado mais de cinquenta anos: Leônidas Sobrinho Porto.
Professor de literatura, nunca nos atormentou com informações
sobre nomes e escolas literárias. Ele sabia que não
aprenderíamos. Mas quando ele se punha a falar era
como se estivesse possuído. Falava com tal paixão
sobre as grandes obras literárias que era impossível
não ser contagiado. Eu o admirava porque nele brilhava
a beleza da literatura, queijo de que eu não gostava.
Ele me fez amar a literatura.
A Da.
Clotilde nos dá a lição de pedagogia:
quem deseja o seio mas não pode prová-lo realiza
o seu amor poeticamente, por metonímia: carrega a pasta
e come mata-fome...
·
Rubem Alves, educador, psicanalista, escritor. No momento
está escrevendo duas estórias pedagógicas.
A primeira, Pinóquio às avessas, é a
estória de um menininho que nasceu de carne e osso
e, ao receber o diploma da universidade virou um boneco de
pau. E a outra é sobre um galinheiro que começou
a ser atacado por uma raposa. Aconselhadas por um galo garnizé,
pedagogo radical, as aves concluíram que, para derrotar
a raposa, era preciso ter os saberes da raposa. E assim estabeleceram
um currículo raposal...