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Minhas
netas: Vocês já devem ter notado que os adultos estão
assustados. Começaram a falar uma palavra que nunca
falaram antes: “Apagão“. Parece que o tal de
“Apagão“ é um monstro terrível, quem sabe um E.T.
malvado, vindo do planeta Mongo. Parece que o tal
monstro “Apagão“ chega através da eletricidade,
pois eles, os adultos, começaram a apagar lâmpadas,
desligar televisão, implicar com banhos demorados. Eles
estão com medo. A notícia é que, quando o “Apagão“
chega, todas as luzes da cidade se apagam. Tudo fica
escuridão. Uma coisa é o escuro sabendo-se que basta
apertar um botão para que a luz apareça. Outra coisa
é o escuro sem remédio: não adianta apertar o botão
do interruptor porque o escuro continua escuro. Já
imaginaram a noite sem luz, sem televisão, sem jeito de
ler, sem barzinho, sem festa, as ruas escuras, a cidade
no escuro? Medão...
Lá na roça onde eu morava quando era menino, na casa
de pau-a-pique, fogão de lenha e “casinha“ do lado
de fora, havia muitos fantasmas. Eu mesmo nunca vi
nenhum. Mas os grandes haviam visto e contavam casos de
lobisomem, mula-sem-cabeça, saci e almas do outro
mundo. Num dos seus livros Monteiro Lobato conta muitas
estórias sobre eles. Eu acreditava e tinha medo. Mas
nunca ouvi falar nesse tal de “Apagão“, que apaga
todas as luzes. A razão para isso eu explico: para
haver um “Apagão“ é preciso que antes tenha havido
um “Acendão“. O “Acendão“ acende tudo, liga
tudo: lâmpadas, geladeira, chuveiro, televisão, forno
de micro ondas, tocador de CD, secador de cabelo,
torradeira, máquina de fazer café, forno elétrico,
aquecedor... O “Apagão“ é o fantasma que desliga e
apaga o que o “Acendão“ ligou e acendeu. Mas lá
onde eu morava, na roça, não havia eletricidade. Não
havendo eletricidade não havia “como“ acender. E não
havia “o que“ acender. Não havendo o “Acendão“
não havia o perigo de acontecer o “Apagão“.
A gente tinha de aprender a conviver, com o escuro, com
a noite.
O sol ia baixando, chegando perto da linha do horizonte
– noite chegando. Essa chegada da noite tem o nome de
“crepúsculo“. Crepúsculo é uma hora mágica.
Parece que a natureza toda para. É triste e bonito. Cecília
Meireles – que vocês já devem ter lido, na escola -
se não leram é porque há algo de errado com a sua
escola - escreveu um lindo poema em que ela diz que o
crepúsculo é “quando começa o cansaço dos homens,
quando os pássaros têm uma voz mais longa, já de
despedida. Declina o sol - esta é a notícia que a
terra sente, na floresta e no arroio...“
Durante o dia a passarinhada voa doida, alegre, em todas
as direções, procurando insetos distraídos. Quando o
crepúsculo chega o seu vôo fica diferente: eles voam
numa única direção: querem voltar para a casa. Vocês
já viram os patos selvagens voando em formação de
“V“, ao final da tarde, conta o céu azul? É
bonito. Eu sempre me perguntava: “Quem foi que ensinou
os patos a voar daquele jeito?“ Acho que ninguém sabe
a resposta. Há muitas perguntas para as quais não há
respostas. E as galinhas, que durante o dia inteiro só
olham para o chão, ciscando à procura de bichinhos, ao
cair da tarde voltam para o galinheiro, sua casa. Seu
bisavô, meu pai, gostava de observá-las espichando os
pescoços, ensaiando o vôo para um galho de árvore ou
um pau do poleiro. Elas sabem que a noite é perigosa. O
escuro é perigoso. A noite é o tempo quando os bichos
da noite saem de suas tocas, bichos que têm olhos de
enxergar no escuro e gostam de comer galinhas...
O escuro da noite! Do lado de fora da casa a gente podia
olhar em todas as direções: não se via uma única
luz. Breu. Quando o tempo estava bom, o céu negro
aparecia iluminado por milhares de estrelas. Nas cidades
as luzes ofuscam a luz das estrelas. Nas cidades o mistério
do universo, que nos faz pensar e nos torna mais sábios,
é trocado pelo besteirol da televisão. (Se “Apagão“
é o nome do fantasma do escuro, eu batizo de “Besteirão“
um fantasma que sai da televisão e se apossa das
pessoas sem que elas percebam...). Quem pára para ver o
céu? Eu era pequeno mas o céu estrelado já me causava
assombro. Como foi que ele começou? Uma grande mancha
de luz branca atravessava o céu. É a Via Látea.
Quantas estrelas! Milhões? Bilhões? (Na roça havia
uma superstição. Diziam que contar as estrelas com o
dedo apontado fazia nascer verrugas...). Via Látea quer
dizer “Caminho de Leite“. Os gregos antigos
explicavam esse nome dizendo que aquela mancha aparecera
quando um jato de leite esguichou do seio de uma deusa!
Talvez eles tenham razão. O leite da mãe é sempre uma
luz no escuro da noite. Por isso os nenezinhos dormem,
sem medo, enquanto mamam...
Havia também a luz da lua. Nas noites de lua cheia os
campos e as matas ficavam iluminados. Me diziam que a
lua era morada de São Jorge em luta diária com um dragão.
Por que é que São Jorge não matava logo o tal dragão,
pondo fim à luta diária? Acho que se ele matasse o
dragão ele iria se sentir muito sozinho. O dragão era
sua única companhia... Se ele ficasse sem o que fazer,
sozinho, na lua, o pobre São Jorge ficaria louco! Há
uma canção que é parte da alma dos brasileiros mais
velhos, aqueles que não nasceram nas cidades, composta
por Catulo da Paixão Cearense. Ela fala do luar: “Não
há, ó gente, o não, luar como esse do sertão!“
Acho que você gostaria dela. Peça para sua mãe ou sua
professora lhe ensinar a cantar.
De vez em quando uma estrela cadente aparecia e rápido
riscava o céu com a sua luz, para logo desaparecer.
Diziam que eram mágicas; o primeiro desejo que se
tivesse, depois de vê-las, seria realizado.
E havia, também, sobre os campos negros de escuridão,
a luz dos vaga-lumes. Centenas, milhares: brilhavam,
como estrelas, acendendo e apagando suas luzinhas. Eu me
admirava que houvesse bichinhos voadores que carregavam
lanternas no seu traseiro... Ainda hoje não me
explicaram esse mistério: um bicho que tem, como parte
do seu corpo, uma lanterna. Haverá perigo de apagão
para os vaga-lumes?
A casa era também escura. Não havia eletricidade nem lâmpadas.
Era preciso acender as lamparinas que queimavam
querosene com um cheiro forte, enchendo o ar de fuligem.
Ou velas. As velas nos ensinam uma lição: para brilhar
é preciso morrer. As velas, à medida que iluminam, vão
morrendo. A cera dura fica mole com o calor, derrete-se
e escorre, como se fossem lágrimas. E, por fim, a vela
se reduz a um toquinho, até que se apaga
definitivamente. Quem contempla a chama de uma vela,
queimando, fica tranquilo e sábio...
Sem luz elétrica, sem rádio e sem televisão – a
noite era uma hora tranquila. Um amigo me contou que na
cidade em que morava quando menino eram frequentes os
“apagões“. A cidade ficava às escuras. E pasmem:
ele ficava feliz! No escuro o seu pai acendia uma vela,
punha a vela sobre a mesa e ele, o pai e a mãe jogavam
baralho e conversavam. O pequeno “apagão“ fazia com
que eles estivessem próximos de um jeito que não
acontecia quando a luz elétrica estava acesa. A luz da
vela provoca intimidade. Ela aproxima as pessoas.
O melhor lugar era a cozinha. Lá havia o fogo do fogão
de lenha, o café, o bolo de fubá, a pipoca. Quando
fazia frio meu pai punha uma bacia cheia de brasas no chão
e nós nos assentávamos à volta das brasas. Tudo
escuro, apenas os rostos avermelhados pelo vermelho das
brasas. A gente tirava os sapatos e esticava os pés na
direção do fogo...
Os adultos contavam histórias. Histórias de
“antigamente“, do “tempo do onça“, dos tempos
quando se amarrava cachorro com linguiça... Histórias
de quando eram pequenos, de viagens, de bichos, de onças,
de cobras, de macacos, de almas do outro mundo, histórias
engraçadas, histórias de dar medo, histórias de fazer
chorar.
A mãe pegava a cestinha de cerzir meia, com agulhas,
linhas e ovo de madeira. Não sabem o que é cerzir
meia? Naqueles tempos o dinheiro era pouco. Nada podia
ser desperdiçado. Hoje, quando a meia fura, joga-se
fora. Naquele tempo elas eram cerzidas. Cerzir é tecer
com agulha e linha para tapar o buraco da meia. E, para
que essa tecelagem ficasse mais fácil, punha-se dentro
da meia um ovo de madeira. Quando não havia meias a
cerzir, as mulheres faziam crochê, tricô, bainha...
Quando já estava tarde da noite, lá pelas oito horas,
tomava-se leite com farinha de milho, ou leite com
goiabada mole. Era hora de ir para a cama. Cobrir as
brasas do fogão com cinza, para que estivessem vivas
pela manhã. Apagar as velas. Apagar as lamparinas.
Escuridão de sertão. O cri-cri dos grilos, os pios das
corujas, o barulho da água no monjolo, o barulho dos
ratos correndo nas madeiras do telhado. Hora de medo.
Por isso, ao ir para a cama, era preciso rezar. Minha mãe
me ensinou a rezar assim: “Agora me deito para dormir.
Guarda-me ó Deus em teu amor. Se eu morrer sem acordar,
recebe a minh’alma, ó Senhor. Amém.“
Dicas
Se me fosse dado dizer um único verso, esse seria o que
eu diria: “No mistério do Sem-Fim equilibra-se um
Planeta. No Planeta, um jardim. No jardim, um canteiro.
No canteiro, uma violeta. E na violeta, o dia inteiro,
entre o mistério do Sem-Fim e o Planeta, a asa de uma
borboleta...“ (Cecília Meireles). Eu gostaria de ter
sido jardineiro, paisagista, Burle Marx. Quem planeja e
planta jardins espalha amostras do Paraíso. Não fui
paisagista. Mas a minha filha Raquel está realizando
esse sonho meu. Ela é paisagista. Não é preciso um
grande terreno para se ter um jardim. Há jardins lindos
que se fazem nas janelas e nas varandas. Plante um
pequeno Paraíso na sua casa! Você ficará mais feliz.
E peça à Raquel para ela lhe dar umas idéias.
O grupo de poesia que se reúne comigo às 3as. feiras,
os “Canoeiros“ teve uma linda surpresa: de Alfenas,
300 quilômetros de distância, veio um punhado de
pessoas para participar da sopa, da literatura e da
amizade. São professores da “Aquarela – Escola da
Vida“ que, segundo eles, é igualzinha à Escola da
Ponte. Vou visitá-los quando puder.
Uma amiga minha está ensinando a filha a fazer crochê.
E a menina adolescente está gostando!... (Correio
Popular, Caderno C, 03/06/2001.)
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