Ângelus
Silésius, místico só escrevia poesia,
disse o seguinte: “Temos dois olhos. Com um contemplamos
as coisas do tempo, efêmeras, que desaparecem. Com o
outro contemplamos as coisas da alma, eternas, que permanecem.”
Eis aí um bom início para se compreender os
mistérios do olhar! Para se entender os mistérios
do ouvir eu escrevo uma variação: “Temos
dois ouvidos. Com um escutamos os ruídos do tempo,
passageiros, que desaparecem. Com o outro ouvimos a música
da alma, eterna, que permanece.”
A alma
nada sabe sobre a história, o encadeamento dos eventos
no tempo que acontecem uma vez e nunca mais se repetem. Na
história a vida está enterrada no “nunca
mais”. A alma, ao contrário, é o lugar
onde o que estava morto volta a viver. Os poemas não
são seres da história. Se eles pertencessem
à história, uma vez lidos nunca mais seriam
lidos: ficariam guardados no limbo do “nunca mais”.
Mas a alma não conhece o “nunca mais”.
Ela toma o poema, escrito há muito tempo, no tempo
da história... (escrito no tempo da história,
sim, mas sem pertencer à história...), ela o
lê e ele fica vivo de novo: apossa-se do seu corpo,
faz amor com ele, provoca riso, choro, alegria... A gente
quer que os poemas sejam lidos de novo, ainda que os saibamos
de cor, tantas foram as vezes que os lemos! Como a estórias
infantis, irmãs dos poemas! As crianças querem
ouvi-las de novo, do mesmo jeito. Se o leitor tenta introduzir
variações a criança logo protesta: “
Não é assim...” Nisso se encontra minha
briga com os gramáticos que fazem os dicionários:
eles mataram a palavra “estória”. Agora
só existe a palavra “história”.
Freqüentemente os sabedores da anatomia das palavras
ignoram a alma das palavras. Guimarães Rosa inicia
o Tutameia com essa afirmação: “A estória
não quer ser história. A estória, em
rigor, deve ser contra a História.” Um revisor
responsável ao se defrontar com esse texto, tendo nas
mãos a autoridade do dicionário, se apressaria
a corrigir: “A história não quer ser história.
A história, em rigor, dever ser contra a História”.
Puro “non-sense”... Mas aconteceu com um texto
meu que, pela combinação da diligência
do revisor com a minha preguiça ( não reli suas
correções), ficou arruinado...
Escrevi
essas palavras à guisa de uma explicação
a posteriori para uma cena da minha vida acontecida há
muitos anos que vi de novo com meu segundo olho há
poucos minutos. Também a ouvi com meu segundo ouvido
porque nela havia música. Veio-me no seu frescor original.
Não havia tempo algum entre o seu acontecer no passado
e o seu acontecimento, há pouco. As mesmas emoções.
Não. Corrijo-me. A sua beleza estava mais bela ainda,
perfumada pela saudade. Entendo melhor o que escreveu Octávio
Paz: “Parece que nos recordamos e quereríamos
voltar para lá, para esse lugar onde as coisas são
sempre assim, banhadas por uma luz antiqüíssima
e ao mesmo tempo acabada de nascer. Um sopro nos golpeia a
fronte. Estamos encantados. Adivinhamos que somos de outro
mundo. É a ‘vida anterior’que retorna...”
Sim, algo da minha vida anterior retornou como um sopro a
me golpear a fronte...
A cena
é assim ( quase escrevi “foi assim”. Corrigi-me
a tempo. As cenas da alma não têm passado. Elas
acontecem sempre no presente ). Eu e o meu filho de três
anos estamos na sala de estar da nossa casa. Só nós
dois. Havíamos terminado de jantar. No sofá,
sua cabeça está deitada no meu colo. É
a hora de contar estórias, antes de dormir. Aí
ele me diz: “Papai, põe o disco do violão...”
Levanto-me e pego o disco. Tomando toda a capa, a figura de
um violino. Mozart. Ponho a peça que ele mais ama:
“Uma pequena serenata”. É impossível
não amar a pequena serenata... Quem poderia resistir
à tentação de voar que ela produz? Pode
ser que o corpo não voe. Mas a alma voa. Ouvir a “Pequena
Serenata” é uma felicidade... ( Note que a “Pequena
Serenata” é inútil. Não serve para
nada. Ela é uma criatura da “caixa dos brinquedos”,
lugar da alegria...)
Quando
eu me esforçava por exercer a arte da psicanálise
ouvi de uma paciente: “Estou angustiada. Não
tenho tempo para educar minha filha.” Psicanalista heterodoxo
que eu era, não fiz o que meu ofício dizia que
eu deveria fazer. Não me meti a analisar seus sentimentos
de culpa. Apenas disse: “Eu nunca eduquei meus filhos...”
Ela ficou perplexa. Desentendeu. Expliquei então: “Eu
nunca eduquei meus filhos. Só vivi com eles...”
Ali, naquela noite, não me passava pela cabeça
que estivesse educando meu filho. Eu só estava partilhando
com ele um momento de beleza e felicidade. E se a Adélia
Prado está certa, se “aquilo que a memória
amou fica eterno”, sei que aquela cena está eternamente
na alma do meu filho, muito embora ele tenha crescido e já
esteja com cabelos brancos. Parte da alma dele é a
“Pequena Serenata”, o disco do violão...
E por isso, por causa da “Pequena Serenata”, ele
ficou mais bonito...