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Minhas
netas: O mundo de quando eu era criança era tão
diferente do mundo em que vocês e eu vivemos agora que
parece que ele aconteceu há muito, muito tempo mesmo,
no tempo daquelas estórias antigas que começavam
sempre assim: ‘Era uma vez, numa terra distante, há
muito tempo atrás...’ Será que eu vivi no tempo do
‘era uma vez’? A nossa viagem na minha máquina de
tempo nos fez viajar 62 anos na direção do passado,
quando eu era um menino de 5 anos. Vocês vão dizer:
‘Mas vovô, 62 anos é muito tempo mesmo! Você viveu
no tempo do era uma vez!’ Vocês são crianças de 10,
11 anos de idade. 62 anos é, para vocês, muito tempo,
um tempo que vocês nem podem imaginar. Quando eu tinha
a idade de vocês eu sentia do mesmo jeito. Mas não é
muito tempo quando pensamos nos milhares de anos, nas
centenas de milhares de anos que medem o tempo em que os
nossos antepassados começaram a povoar o mundo. Vocês
já ouviram falar sobre eles na escola, os homens pré-históricos,
o homem de Neandertal... Pois eu vou dizer uma coisa
muito esquisita: eu acho que o mundo em que eu vivia
estava mais próximo do mundo desses nossos
antepassados, há milhares de anos, que do mundo de vocês,
o mundo em que nós vivemos! É que, no passado, o tempo
andava muito devagar, porque as mudanças aconteciam
muito devagar. Vocês podem imaginar quantas centenas de
anos levou para que os homens descobrissem a maneira de
produzir fogo? Ou o tempo que levou para que eles
aprendessem a fazer cerâmica? Durante milhares de anos
os homens só usavam instrumentos de madeira e de pedra.
Podem imaginar o tempo que se passou até que eles
descobrissem os metais - e mais - o tempo que se passou
até que eles aprendessem a usar os metais? Para usar
metais, para transformar os metais em ferramentas, eles
tinham de já dominar a tecnologia do fogo – porque é
preciso fogo para fundir os metais. E qual teria sido o
acidente que fez com que eles descobrissem que os
metais, colocados no fogo, a altas temperaturas,
derretiam? Que momento extraordinário deve ter sido
aquele quando um homem, pela primeira vez, produziu uma
lâmina afiada que podia cortar o couro, cortar a
madeira, cavar a terra! Os seus companheiros devem ter
olhado para ele com assombro, respeito – quase como se
ele fosse um deus!
Quando as mudanças acontecem muito devagar o tempo anda
muito devagar. Ao contrário, quando as mudanças
acontecem depressa, o tempo anda depressa. E foi isso
que aconteceu: desde que eu nasci as mudanças começaram
a acontecer de maneira cada vez mais rápida. E a razão
por que as mudanças passaram a acontecer de forma cada
vez mais rápida se deve a isso: antes as descobertas
aconteciam por acidente. Mas, de repente, os homens
aprenderam a fazer as mudanças de propósito. Não
precisavam esperar que acidentes acontecessem.
Aprenderam que, usando o pensamento, eles podiam fazer
as coisas que desejavam. No lugar/tempo da minha infância
as mudanças andavam de carro de boi. No nosso tempo as
mudanças andam de avião a jato! A distância que um
avião a jato percorre em uma hora, um carro de boi,
andando sem parar, dia e noite, levaria 270 horas para
percorrer! Assim, eu posso dizer que o mundo em que eu
vivia quando menino de 5 anos estava mais próximo do
mundo dos nossos antepassados que do mundo em que
vivemos agora. Em 62 anos o mundo experimentou mais
transformações – voou mais - que durante todos os
milhares de anos passados em que nossos ancestrais
viveram!
Eu vivi, assim, muito perto do início da história do
homem! O jeito como as coisas eram feitas no meu tempo
de menino era o mesmo jeito pelo qual elas eram feitas
muitos séculos antes. Vou dar um exemplo. No meu tempo
de menino a gente fazia sabão em casa. Para isso se
usava sebo de vaca e um líquido preto que era obtido
fazendo filtrar água através da cinza. Faz alguns anos
visitei, nos Estados Unidos, uma aldeia que é uma réplica
(réplica = cópia) de uma das aldeias onde viviam os
primeiros norte-americanos, nos séculos XVI e XVII.
Pois encontrei, num canto da aldeia, o lugar onde eles
faziam sabão com a descrição de como eles o faziam.
Pois eles faziam sabão do mesmo jeito como se fazia na
minha casa! Então era como se eu, há 62 anos, vivesse
no mesmo tempo em que viveram os tais norte-americanos,
400 anos antes!
No meu mundo a gente vivia perto do nascimento do
coisas. Vou explicar. Veja o caso do fogo, sobre que já
falamos. Na minha infância o fogo tinha que renascer a
cada manhã. Ele nunca estava pronto. A dona de casa
que, de manhã, tirava as brasas de sob a cinza e
arranjava os paus, os gravetos, os pauzinhos e o capim
em volta e sobre as brasas, estava fazendo o fogo
nascer. Porque as brasas não são fogo. Não produzem
chamas. São fracas demais para cozinhar. As brasas são
apenas sementes de fogo que podem virar fogo se houver
alguém que saiba como incendiá-las! E a dona de casa
então soprava as brasas para que o capim se
incendiasse, e o capim incendiado acendesse os pauzinhos
que, por sua vez, acenderiam os paus! Quando isso
acontecia era uma alegria. O fogo nascia porque ela
sabia fazê-lo nascer! Ela conhecia os seus segredos!
Aquela mulher era uma parteira do fogo!
Nas casas de hoje o fogo já aparece pronto. Não é
preciso saber coisa alguma do mistério do seu
nascimento. A gente torce um botão e aperta outro: o
fogão a gás se acende. Basta apertar um botão do
isqueiro para que o fogo apareça. A gente esfrega o fósforo
na lixa ao lado da caixa e o pauzinho pega fogo. O fogo
já vem pronto. A gente nunca vê o fogo sendo parido
pela arte de uma pessoa.
Nunca vi uma criança assentada quieta olhando o fogo de
um fogão a gás. Fogo de fogão a gás não tem graça.
Mas vejo vocês, crianças, olhando, fascinadas, o fogo
da fogueira, o fogo do fogão de lenha, o fogo da
lareira! Por que será? Vocês têm uma explicação?
E a água? A água, nas nossas casas, não tem mistério.
A gente abre a torneira e a água sai. Ou vai ao
super-mercado e compra água engarrafada. Olhem agora, a
minha casa de pau-a-pique e fogão de lenha: onde estão
as torneiras? Não há torneiras! Se não há torneiras,
como é que a gente vai ter água? Se a gente quisesse
ter água a gente tinha de ir até o lugar onde a água
nascia! Pois a água nasce! Nasce de dentro da terra. O
nosso corpo está cheio de veias. Nas veias corre o
sangue. Quando a gente corta um dedo, o sangue jorra.
Pois a terra é igual ao nosso corpo. Dentro dela há
veias. Dentro das veias da terra corre a água: os veios
d’água! A água é o sangue da terra. É a água que
faz a terra viver. O lugar onde as veias da terra são
cortadas e a água jorra se chama mina. Na mina a gente
vê a água saindo de dentro da terra. Na mina a gente vê
a água nascendo. Vocês já viram uma mina? Já viram a
água nascendo? Não. Vocês nunca viram a água
nascendo. O que vocês vêem é a água saindo da
torneira, a água dentro da garrafa. Água sem mistério!
Porque quando a gente olha para a mina, e vê a água
saindo de dentro da terra, a gente sente que está
diante de um milagre. Se vocês quiserem ver um milagre
acontecendo, tratem de procurar uma mina...
A água saindo de dentro da terra vai, aos poucos,
cavando um buraco à sua volta. Como se fosse uma bacia.
Nessa bacia se acumula a água pura, cristalina,
transparente, fresca. Olhando lá no fundo e gente vê o
lugar exato onde a água sai de dentro da terra. Coisa
parecida com uma erupção vulcânica: erupção de água.
E nesse lugar onde a água jorra, as areinhas são
jogadas para cima. À volta da mina tudo é vida, tudo
é verde. Terra e água fazem vida. Crescem as avencas,
crescem samambaias, crescem plantas de todos os tipos. E
se a gente está com sede, é só fazer as mãos em
concha, mergulhar na água da mina, pegar a água e
beber. É impossível beber água numa mina sem ter
pensamentos de gratidão por haver na natureza coisa tão
bela.
Meu pai trabalhava no campo. Com foice e enxada. O sol
era forte. O corpo coberto de suor. Ficava com sede.
Pensava na mina. Mas não ia beber. Trabalhava mais.
Queria ficar com mais sede. E aí, quando a sede era
insuportável, ele ia para a beirada da mina, e bebia a
água friinha... Ele me contou que isso, ele, com sede
insuportável, bebendo a água da mina, era uma das
maiores felicidades de que ele se recordava, em toda a
sua vida... É preciso que vocês dêem um jeito de
conhecer uma mina. Eu juro: uma mina é uma coisa mais
maravilhosa que tudo aquilo que vocês possam ver num
Playcenter. A água nascendo...A vida nascendo...A
natureza nascendo. Pois, se vocês não o sabem, é nas
minas que a natureza nasce... (Correio Popular, Caderno
C 11/02/2001.)

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