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| A maratona safada | ||
Freqüentemente o diagnóstico da doença é mais fácil que a cura. É o caso dos vestibulares. Lembra-me o Titanic: o número de passageiros era maior que o número de botes salva-vidas. O naufrágio inevitável exigiu que se estabelecesse um critério cruel para separar os que seriam salvos dos que teriam de morrer. Assim é a situação do ensino universitário: as vagas são em número menor que os candidatos. Alguns serão impedidos de entrar.
Os vestibulares da Unicamp, criados na gestão Pinotti e implementados na gestão do atual ministro da Educação, Paulo Renato Souza, foram uma tentativa de modificar os padrões de inteligência e de tipo de conhecimento, sedimentados pelos vestibulares anteriores, e que tanto mal estavam fazendo à educação de ensinos médio e fundamental: modificar os vestibulares para transformar a educação.
“Que tipo de inteligência é aquele que deve ser cultivado nas escolas?” – essa foi a primeira pergunta que se fez. E a resposta: “Não queremos alunos que saibam de cor os mapas e os seus caminhos já conhecidos. Para isso basta ter boa memória. Queremos alunos que, sabendo a `linguagem' dos mapas, sejam capazes de encontrar os caminhos em mapas que nunca viram”.
Esta é a razão da importância atribuída à redação. O objetivo principal da redação não era e não é testar o conhecimento da mecânica da língua. Sua função principal é revelar as formas de pensamento do aluno, pois é através da linguagem que os processos mentais, as várias inteligências, revelam-se.
Com isso a Unicamp enviou às escolas de ensino médio e fundamental a seguinte mensagem: procuramos um outro tipo de inteligência. E, assim, esperava-se que o novo vestibular contribuísse para a renovação do ensino.
Os vestibulares foram bem-sucedidos naquilo que se propuseram. Mas era sabido que não resolveriam a parte mais dolorosa do problema: a sistemática exclusão dos candidatos das classes mais pobres. Os pobres continuariam a olhar para a educação universitária de longe. Continuariam a se afogar no navio que naufragava, enquanto os outros poderiam embarcar nos botes universitários...
Imaginem um país miseravelmente pobre, assolado pela fome. Os países ricos, penalizados, resolvem enviar um avião carregado de alimentos para serem distribuídos. Mas as bocas são muitas e a comida é pouca. Se houver uma simples divisão da comida pelo número de bocas, a cada um caberá não mais que uma pitada de alimento. E todos morrerão de fome. Surge a dolorosa necessidade: é preciso escolher os poucos que irão comer. Mas que critérios usar para escolher os que vão receber comida? É então que um conselheiro do governo apresenta a seguinte sugestão: uma corrida, dez quilômetros. Os primeiros mil a chegar serão aqueles que comerão. Trata-se de um teste objetivo, aberto à fiscalização pública, sem possibilidades de trapaça.
É verdade. Mas a injustiça foi feita no momento em que se definiram as regras da seleção. Os mais fracos foram, de antemão, condenados a morrer.
Essa é a situação dos vestibulares: os pobres estão, de antemão, condenados a ser excluídos.
Os vestibulares da Unicamp alteraram os padrões de inteligência e os tipos de conhecimento exigidos. Mas não são capazes de reverter os padrões de exclusão.