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Uma
horta é uma festa para os cinco sentidos. Boa de
cheirar, ver, ouvir, tocar e comer. É coisa mágica, erótica,
o cio da terra provocando o cio dos homens.
Cheguei de viagem e antes de entrar em casa fui ver a
minha horta. O mato crescera muito. Mas minhas plantas
também. O verde anunciava uma exuberância de vida,
nascida do calor e das chuvas que se alternavam sem
parar. O meu coração se alegrou. Pode parecer
estranho, mas é pelo coração que me ligo à minha
horta. Daí a alegria... Estranho porque para muitos a
relação acontece através da boca e do estômago.
Horta como o lugar onde crescem as coisas que, no
momento próprio, viram saladas, refogados, sopas e suflês.
Também isso. Mas não só. Gosto dela, mesmo que não
tenha nada para colher. Ou melhor: há sempre o que
colher, só que não pra comer.
Semente, sêmen
Horta se parece com filho. Vai acontecendo aos poucos, a
gente vai se alegrando a cada momento, cada momento é
hora de colheita. Tanto o filho quanto a horta nascem de
semeaduras. Semente, sêmen: a coisinha é colocada
dentro, seja da mãe/mulher, seja da mãe/terra, e a
gente fica esperando, pra ver se o milagre ocorreu, se a
vida aconteceu. E quando germina - seja criança, seja
planta - é uma sensaçao de euforia, de fertilidade, de
vitalidade. Tenho vida dentro de mim! E a gente se sente
um semideus, pelo poder de gerar, pela capacidade de
despertar o cio da terra.
Não é à toa que povos de tradições milenares
ligavam a fertilidade da terra à fertilidade dos homens
e das mulheres. Faziam suas celebrações religiosas em
meio aos campos recém-semeados, para que o cio humano
provocasse a inveja da terra, e ela também se excitasse
para o recebimento das sementes. O cio dos homens
provocando o cio da terra. Mas o inverso também é
verdadeiro: o cio da terra pode provocar o cio dos
homens...
Cio é desejo intenso, não dá descanso, invade tudo e
provoca sonhos, semente que não se esquece do seu
destino, vida querendo fertilizar e ser fertilizada,
para crescer. Pois a horta é assim também. Não é
coisa só para boca. Se apossa do corpo inteiro, entra
pelo nariz, pelos olhos, pelos ouvidos, pela pele, toma
conta da imaginação, invoca memórias...
Cheiração beatífica
Horta é coisa boa de se cheirar. Estranho o desprezo
com que tratamos o nariz. Os teólogos de outros tempos
falavam da “visão beatífica de Deus”. Mas nunca
li, em nenhum deles, coisa alguma sobre “a cheiração
beatífica de Deus”. Como se fosse indigno que Deus
tivesse cheiros, que ele entrasse pelos nossos narizes
adentro, por escuros canais até as origens mais
primitivas do nosso corpo.
Pois, se eu pudesse, faria uma teologia inspirada na
horta, e o meu Deus teria o cheiro das folhas do
tomateiro depois de regadas, e também da hortelã, do
manjericão, do orégano, do coentro. Essa coisa indefinível,
invisível, que entra fundo na nossa alma e daí se
irradia para o corpo inteiro como uma onda embriagante,
o cheiro é a aura erótica do objeto, sua presença
dentro de nós, emanação mágica por meio da qual nós
o possuímos. Quem cheira fundo - e para isso até fecha
os olhos, porque o cheiro vai mais dentro que os olhos -
está dizendo o quanto ama...
E fico pensando nessa coisa curiosa: que a horta só
seja percebida como produtora de coisas boas para comer.
Isso só pode ser devido a uma degeneração do nosso
corpo, de sua imensa riqueza erótica, à monotonia
canibalesca que só reconhece o comer como forma de
apropriação do objeto. Os cheiros moram na horta, e
quem não se dá o trabalho de cultivá-la não pode ter
a alegria de reconhecê-los. Há pessoas que se reúnem
para ouvir música; outras pelo puro prazer do paladar.
Mas ainda não se convidam pessoas para concertos e
banquetes de perfumes. O mais próximo seria, talvez,
convidá-las para passear pela nossa horta, e ali nos
deliciar com a sua perplexidade na medida em que lhes
oferecemos folhinhas para cheirar e lhes perguntamos:
“Sabe o que é isto? Veja como é gostoso...“
Olhares para a vida
Horta é coisa boa de se ver.
Dizem os poemas sagrados que Deus Todo-Poderoso, depois
de criar todas as coisas, parou, deixou cair os braços
e foi invadido pelo puro deleite de ver a beleza de tudo
o que existia. Ver é experiência estética, não serve
para coisa alguma. Diferente do comer. Comer é útil. A
mãe insiste com a criança: “Coma o espinafre, meu
bem, ele faz você ficar forte.” O “ficar forte”
justifica suportar o gosto ruim: é a utilidade da
coisa.
Mas nada disso se pode dizer do ato de ver. Ver os
espinafres, as couves, as alfaces, os tomates não é útil
para coisa alguma, não serve para nada. Mas faz bem à
alma. “Não só de pão viverá o homem”, diz o
texto sagrado. Vivemos também das coisas belas.
Há o belo das cores: o vermelho dos pimentões, das
pimentinhas ardidas, dos tomatinhos... Ah! Os
tomatinhos... Falo daqueles pequenos, minúsculos, que não
se encontram em lugar civilizado, não se vendem em
feiras (quanto poderiam valer?). Mas eu os descobri numa
velha fazenda, e não resisti à tentação de trazer
uma mudas. Sua maior utilidade, além de serem
redondinhos e vermelhos, é serem planta da minha infância.
De modo que, na minha horta, eu tenho um arbusto mágico,
que me leva através do tempo, e, quando eu os apanho e
os como, sinto renascer dentro do meu corpo o corpo de
um menino que mora nele.
Há o verde também dos pimentões, que se comprazem em
brincar com as cores das cebolinhas, das alfaces, das
couves, dos espinafres, da salsa. O amarelo das
cenouras, e de novo dos pimentões (vocês já viram
pimentões amarelos? São raros, brilhantes,
maravilhosos. Eu até tive uma árvore de Natal
enfeitada só com pimentões verdes, verrnelhos e
amarelos). O roxo das beterrabas, dos rabanetes, das
berinjelas. O branco dos nabos.
E ao ver essa abundância de cores imagino que a
natureza é brincalhona, ela se compraz na exuberância
e no excesso. E enquanto meus olhos vão andando pela
variedade das cores, coisas vão acontecendo dentro de
mim. Porque isso significa que elas existem dentro de
mim. Se eu fosse cego para as cores, não me aperceberia
de nenhuma diferença. O objeto que vejo revela um
objeto que existe dentro de mim. Os olhos só vêem fora
aquilo que já existe dentro como desejo. Tenho também
um pé de ora-pro-nóbis, coisa de gente pobre, em Minas
Gerais. Só vi referências a ele em dois lugares.
Primeiro, no livro Fogão de lenha, de Maria Stella Libânio
Christo, como uma receita culinária no meio de uma
celebração de 300 anos de cozinha mineira, que vale
pelo puro deleite de ler. E depois num poema de Adélia
Prado - ela sabe muito bem do encanto das hortas.
Ora-pro-nóbis, nome que parece responso litúrgico, é
um arbusto que se planta uma vez na vida. Ele é tão
amigo que fica lá, soltando folhas sem parar.
Pois é: uma festa. Cores e formas, tudo diferente,
natureza brincalhona, artista, imaginação sem fim.
Morangas gomosas; aboborões e abobrinhas; quiabos
escorregadios; berinjelas roxo-pretas, engraçadas em
tudo, até no nome; mandiocas carás de debaixo da
terra; carás do ar, pendentes; inhames; chuchus; nabos
redondos; nabos fálicos; alcachofras; folhas de todos
os desenhos; alfaces; almeirão; acelgas; brócolis;
couve; bertalha; repolhos brancos; repolhos roxos; agrião;
espinafre. Diante desse esbanjamento de inventividade o
jeito é o espanto, o riso e a gratidão de que este
seja um mundo onde o enfado é impossível.
Sons e toques
Horta também é coisa boa de se ouvir. Ora, direis,
ouvir a horta... Plantas não dizem nada, não cantam!
Se fosse passarinho, ou o mar, ou as casuarinas, se
compreenderia. Mas a horta? Horta é coisa calma e
silenciosa. E isso é bom. Ouvir o silêncio.
As pessoas exigem sempre uma palavra. Têm medo de ficar
quietas. Entram em pânico quando o assunto acaba, começam
a falar bobagens só por falar, porque é melhor dizer
besteira que ficar ali na presença do outro, sem nada
dizer e sem nada ouvir.
Com as plantas é diferente. Elas nos tranqüilizam. Se
quisermos falar com elas, tudo bem. Acho que gostam. Mas
o melhor de tudo é que, ao falar com elas, não é
preciso fingir, porque as plantas são extremamente
discretas. Guardam os segredos com uma fidelidade
vegetal...
E as hortas são também coisas boas de se tocar. Sentir
o capim molhado, enfiar a mão na terra... Se você
tiver a felicidade rara de ter uma agüinha que escorre
e cai, você terá uma das experiências mais calmas que
se pode ter. Ouvir o barulhinho da água. Ele trará memórias
ou fantasias de regatos escondidos no meio do mato,
correndo entre pedras, fazendo crescer o limo verde. E aí
você enfiará seus pés dentro dela. Difícil um prazer
igual pela tranqüilidade, pela pureza, pela
profundidade. Porque a água nos reconduz às nossas
origens.
E a terra. Não, não é sujeira. Terra preta com
esterco: ali a vida está acontecendo, invisivelmente.
Meu destino. Um dia serei terra, de mim a vida poderá
nascer de novo. As crianças, sem que ninguém as
ensine, sabem dessas coisas. Somos nós que dizemos que
terra é sujeira, porque preferimos os carpetes assépticos
e mortos e os pisos vitrificados onde mão nenhuma pode
penetrar. Brincar com a terra, conquistar sua dureza,
misturar o esterco esfarelado, senti-la leve e solta,
esguichar a água. Ali, diante dos nossos olhos, uma
metamorfose vai acontecendo, e a terra, de coisa estéril,
dura, virgem, é agora mulher em cio, pedindo as
sementes. Vamos abrindo os sulcos, canteiros, e neles
colocamos a vida que o nosso desejo escolheu. Coisa
gostosa. Estamos muito próximos de nossas origens.
Nossos pensamentos ficam diferentes. Deixam de
perambular pelos desertos de ansiedade e ficam cada vez
mais próximos, colados à mão, colados à terra. Os
pensamentos fantasmas voltam ao aqui e ao agora do
corpo, passam a ser coisas amigas e alegres.
Segundo filósofos de outros tempos, tudo o que existe
se reduz a quatro elementos: a terra, a água, o vento e
o fogo. E ali estamos nós, mãos na terra, terra
molhada, e a brisa sopra. Horta, pedaço de nós mesmos,
mãe. Se compreendermos que ela é não só a nossa
origem como também nosso destino, e se a amarmos, então
estaremos amando a nós mesmos, como seremos. Não, não
tenho uma horta para economizar na feira. Tenho uma
horta porque preciso dela, como preciso de alguém a
quem amo.
Sabores amigos
Há, por fim, o ato supremo de comer.
Comer: dizer que o que estava fora pode entrar, será
bem recebido, eu o desejo, tenho fome. Para isso examino
o que ainda não conheço, pois todo cuidado é pouco.
Nem tudo é bom de se comer: há coisas de nojo e de vômito,
venenosas e de morte. Provo a coisa: primeiro a aparência,
a cor, o cheiro e, cuidadosamente, na ponta da língua,
o gosto, para o veredito final - amigo ou inimigo... É
assim que a criança aprende sua primeira lição sobre
o mundo, mundo reduzido a coisas boas que devem ser
engolidas e coisas más que devem ser vomitadas. Assim
nasceu a ética, na boca, pois é ela a primeira a dizer
“é bom”, “é mau”. E a sua sabedoria é imensa,
pois o corpo é o grande juiz.
A horta é lugar de coisas boas para comer, ali onde se
planta a amizade pelo corpo, onde se plantam os objetos
do nosso desejo, que nos fazem alegres quando estão de
fora e mais alegres ainda quando os colocamos na boca e
dizemos: “Que gostoso...\" Sem saber, estamos
afirmando nossa solidariedade com a terra. A horta é
parte do meu corpo, do lado de fora, e é por isso que
pode ser comida, entrar para dentro, transformar-se em
vida, minha vida. Eu dou vida à horta, preparo a terra,
planto as sementes, rego, elas vivem, e depois se
oferecem a mim, através do meu desejo.
E como elas são brincalhonas. Jiló amargo, careta pra
quem não está acostumado; o picante da pimenta; o duro
amarelo adocicado da cenoura recém-arrancada da terra;
o estranho gosto dos nabos obscenos; as ervilhas,
brincalhonas e redondas; e a peça que os alhos e as
cebolas nos pregam, fica o cheiro, evidência do
crime...
E nós tomamos os frutos da horta e os transformamos
pelo poder alquímico do fogo. Já disse dos quatro
elementos dos sábios de outro tempo, terra, água, ar e
fogo. Sem o fogo só podemos juntar as coisas, do jeito
como a terra nos deu. Mas o fogo nos dá um outro poder,
tudo fica diferente. Misturamos, alteramos, inventamos.
No peixe branco e pálido, o vermelho do urucum, extraído
da frutinha pelo poder do calor. vermelho pra excitar:
na cor mora o quente. Junta-se mais: a cebola, os pimentões
verdes e vermelhos, o tomate, o coentro. E a pimenta,
magia estranha, ainda não entendi por que gosto dela.
Talvez por ser metáfora de certos amores que de tão
ardentes viram ardume, e machucam. E aí tudo junto,
pelo poder do fogo, a moqueca, a horta transformada em
culinária, em gosto inventado.
Comer é ato complicado, há nele uma mistura de amor e
de destruição. As mandíbulas mastigando, infatigáveis,
o movimento brusco da cabeça para frente e para baixo,
boca aberta, para abocanhar o naco que o garfo espetou,
as bochechas estufadas de comida. O ato de comer é como
os sonhos - pode ser psicanalisado, porque revela nossos
segredos de ódio e de amor, nosso nojo ou nossa
voracidade, nossa mansidão ou nossa violência.
Ao comer nós nos revelamos. E nisto está a diferença
entre a comida crescida na horta e a comprada na feira:
na primeira está um pouco de nós mesmos - e ao sentir
seu gosto bom é como se eu estivesse sentindo meu próprio
gosto. “Eu plantei, eu colhi...\" O que está em
jogo não é o tomate, a alface - é o eu que está
sendo servido, disfarçado de hortaliça. A refeição
fica meio sacramental. Come-se um pedaço da própria
pessoa, que se oferece, de forma vegetal, num banquete
canibal. “Tomai, comei, isto é o meu corpo. Tomai,
bebei, isto é o meu sangue...”
Alegria do encontro
Pois é, horta é algo mágico, erótico, onde a vida
cresce e também nós, no que plantamos. Daí a alegria.
E isso é saúde, porque dá vontade de viver. Saúde não
mora no corpo, mas existe entre o corpo e o mundo - é o
desejo, o apetite, a nostalgia, o sentimento de uma fome
imensa que nos leva a desejar o mundo inteiro. Alguém já
disse que somos infelizes só porque não podemos comer
tudo aquilo que vemos. Concordo em parte, pois há
aqueles que vêem tudo, mas não desejam nada. Estão
doentes, prisioneiros deles mesmos. Saúde: quando o
desejo pulsa forte, cio por coisas amadas, e o corpo
vai, em busca do objeto desejado - a horta podendo ser
um pequeno (e delicioso) fragmento dos nossos maiores e
infinitos desejos. O mundo bem poderia ser uma grande
horta: canteiros sem fim, terra fértil, nossas sementes
se espalhando, nosso corpo ressuscitando de sua grande e
mortal letargia.
E penso esta coisa insólita: há lições de kama-sutra
a serem aprendidas na horta, no despertar dos sentidos
que ela provoca. O caminho da saúde, o caminho da
libertação do corpo para copular com os objetos do
desejo (e uso a palavra copular no seu preciso sentido
gramatical de “fazer conexão” e também no sentido
erótico de união entre duas pessoas que se querem e,
por isso, se interpenetram, transgredindo os limites do
próprio corpo) passa pelo caminho do despertamento erótico
dos nossos sentidos adormecidos. A capacidade sutil de
distinguir os perfumes, o olhar extasiado que diz, para
a planta ou para a pessoa, não importa: \"Como é
bom que você existe!”; o ouvido que tem a tranqüilidade
para morar no silêncio, sem se perturbar; a pele que se
deleita com o vento, com a água, com a terra; e a boca
que sente o gosto da coisa como quem prova um vinho.
Uma horta é um bom lugar para começar. E pra
continuar, até acabar. Seria bom saber que alguém
colherá coisas que nós semeamos, depois da nossa
partida, e as plantas continuarão, como um gesto nosso
de amor.
(O quarto do mistério, Papirus, 1995)

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