À Dona Clotilde, modesta professora

 

Meu projeto era escrever uma série de artigos sobre a educação dos sentidos: a visão, a audição, o olfato, a degustação, o toque – e um misterioso sexto sentido. Era e ainda é. Mas, por vezes, justifica-se interromper provisoriamente o planejado por algo de extraordinário, inesperado, que acontece. Aconteceu comigo. Os meus pensamentos bem arranjados, já em marcha, levaram uma rasteira cheia de risos. Explico.

Faz uns tempos escrevi para o “Sinapse” um artigo com o título: “Aprendo porque amo”. Nesse artigo eu sugeri que a pedagogia que se sabe antes de se estudar pedagogia (há uma pedagogia que nasce com a gente, sem estudos. Daniel Pennac, no seu livro Como um Romance, p. 19, escreveu essa frase deliciosa: “Que espantosos pedagogos nós éramos, quando não nos preocupávamos com a pedagogia!”) se vale de artifícios nada científicos, artifícios amorosos, poéticos e mágicos para realizar os seus intentos. O assunto era como as relações de aprendizagem e ensino se dão através das pontes poéticas que o amor constrói. Uma dessas pontes tem o nome de “metáfora”, que faz ligações entre coisas parecidas. No filme “O carteiro e o poeta” o carteiro diz que ele se sentia como um “barco batido pelas ondas”. Essa metáfora ligou a sua alma a um barco. Quem visse um barco batido pelas ondas estava vendo a alma do carteiro. “Metonímia” é quando uma imagem nos conduz a outra por relações de proximidade. Tenho um peso de papel sem valor que o meu pai me deu. É claro que ele não se parece com o meu pai. Não é metáfora. Mas foi objeto do meu pai. Ficava na sua mesa de trabalho. Por isso, porque o peso de papel e o meu pai estiveram juntos, o peso de papel me faz lembrar o meu pai.

No dito artigo eu me referia ao poder pedagógico das metonímias. Para ilustrar o meu ponto relatei uma experiência infantil, quando estava no primeiro ano do Grupo Escolar Brasil, na cidade de Varginha. Era o ano de 1942. Minha professora era a dona Clotilde. Como é possível que muitos dos meus leitores não tenham lido o artigo a que me referi, vou transcrever o parágrafo relevante: “Pois a dona Clotilde fazia o seguinte: assentava-se numa cadeira bem no meio da sala, num lugar onde todos a veriam, e ia desabotoando a blusa até o estômago, ante nossos olhares assustados. Ela não se dava conta do nosso susto porque aquilo que ela estava fazendo era-lhe perfeitamente natural. Aí ela enfiava a mão dentro da blusa e puxava para fora um seio lindo, liso, branco, aquele mamilo atrevido... E nós, meninos, de boca aberta... Mas essa visão paradisíaca só durava alguns segundos. Ela logo pegava o nenezinho e o punha para mamar. Isso era normal, era o que toda mãe casta fazia. E lá ficávamos nós, sentindo coisas estranhas que não entendíamos: o corpo sabe coisas que a cabeça não sabe. Terminada a aula os meninos faziam fila junto à Da. Clotilde, pedindo para carregar a pasta. Quem recebia a pasta era um felizardo, invejado. Mas a pasta não era pasta. A pasta era uma metonímia do objeto desejado, proibido, o seio da dona Clotilde...O que me levou a inventar um ditado que ninguém conhece: “quem não tem seio carrega pasta...” Traduzida para a pedagogia, essa metonimia significa que, com freqüência, os alunos são capazes aprender coisas difíceis ( carregar a pasta) em virtude da admiração que sentem pelo professor.

Pois a rasteira de risos que me desviou dos meus propósitos aconteceu na cidade de Cambuquira, em Minas, bem pequena, bem cheia de matas, lugar de tucanos, de águas minerais, lugar de hotéis luxuosos abandonados, fósseis de um tempo de riqueza, onde o tempo escorre preguiçoso... Tinha ido lá para fazer uma fala. Contei o caso da dona Clotilde. Todo mundo riu. Todo mundo aprendeu. O riso faz bem à inteligência. Aí aconteceu a surpresa alegre: contaram-me que a dona Clotilde está viva, aos 92 anos. Estar vivo aos 92 anos é espanto, coisa rara. Mas pasmem! Ela, aos 90 anos, defendeu tese de mestrado! E sua cabeça está mais lúcida do que nunca, cheia de indagações metafísicas...” Que alegria!

Há muitos anos escrevi sobre um japonês que fez vestibular para medicina aos 70 anos. Explicando a razão porque fazia o vestibular aos 70 anos ( parece inútil, coisa de velho que perdeu o senso da realidade... )ele disse: “Desde menino eu quis estudar medicina. Quando era moço não me foi possível porque eu tinha de cuidar dos meus pais. Quando me tornei adulto não me foi possível porque tinha de cuidar dos meus filhos. Agora, velho, meus pais mortos, meus filhos criados, posso finalmente realizar o meu sonho de menino...” Os seres humanos são assombrosos! Mas o japonês, comparado com a dona Clotilde, não passa de um menino!

Os jornais dedicam espaço a jogadores de futebol, a aficcionados de rinhas de galos, a políticos corruptos e personalidades da “society”... Pois eu ac ho que a dona Clotilde merece muito mais ser notícia. A dona Clotilde, mãe comum, modesta professora do interior, produz assombro, sorrisos e esperança...