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| A DECOLAGEM |
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Era alguma noite do mês de setembro do ano de 1965. No aeroporto Viracopos eu e minha família aguardávamos o vôo que nos levaria para longe do Brasil. Havia medo misturado com o ar. Amigos da Igreja Presbiteriana do Norte dos Estados Unidos patrocinavam a nossa viagem. O motivo oficial da viagem era “estudos”: eu iria fazer o meu doutoramento. Mas o motivo real era outro: estávamos fugindo do medo. Passagens na mão, passaportes, tudo certo. Mas, na verdade, tudo era incerto. O veredicto viria de dentro de um sinistro biombo circular negro que fora colocado no meio do saguão do aeroporto. Suas paredes tinham mais de dois metros de altura. Os que estavam dentro não permitiam que seus rostos fossem reconhecidos. Havia um pequeno furo na parede do biombo, semelhante aos furos das caixas de correio. Uma voz, de dentro, ordenava que ali colocássemos os passaportes. Os passaportes iriam ser comparados aos nomes que estavam na lista negra, a lista dos subversivos que deveriam ser presos. Meu nome estaria nela? Se estivesse eu não viajaria... A sabedoria popular afirma que “quem não deve não teme...” O que esse ditado afirma sem o dizer é que as forças policiais são sempre verdadeiras e justas, que elas jamais fariam mal a um inocente. Pois não é para isso que elas existem, para proteger ao inocentes? Os inocentes podem descansar tranqüilos. Só os culpados sofrem. Se alguém foi preso ou foi morto, isso é prova de que era culpado. Tal como aconteceu com os seis milhões de judeus que os nazistas mataram nas câmaras de gás: crianças, velhos, mulheres, homens comuns, eram todos culpados. Se fossem inocentes nada lhes teria acontecido. Naqueles anos de medo o humor inventou um ditado: “Até provar que focinho de porco não é tomada elétrica vai muito tempo...” Eu sabia que estava em outras listas. Quando, um ano antes, eu regressara dos Estados Unidos, um mês depois do golpe, um amigo que me fora buscar no aeroporto me contou: “Há um documento secreto de acusações contra você e outros seis pastores, na Secretaria Executiva do Supremo Concílio da Igreja...” Eu era pastor. Como sempre aconteceu comigo durante toda a vida, eu caminhava na direção contrária. Eu fazia parte de um grupo que se opunha ao poder constituído na Igreja. Que coisa melhor para se livrar de adversários eclesiásticos que entregá-los ao poder militar? A Igreja sempre procedeu assim. A Inquisição nunca queimou os hereges. Suas mãos sempre estiveram limpas de sangue derramado. Para manter a sua pureza diante de Deus ela entregava os condenados ao “braço secular” do Estado para os procedimentos terminais. Os fracos amam a proteção dos que possuem as armas. Isso lhes confere um sentimento de poder. E haverá coisa mais embriagante que o poder? Contrariamente a certos setores da Igreja Católica que tudo faziam para proteger os seus filhos acusados de subversão, a igreja da qual eu era pastor se apressava em entregar os seus próprios filhos para assim demonstrar o seu amor e subserviência à Ditadura. Voltando ao tal documento. É um direito elementar de qualquer pessoa saber o crime de que está sendo acusada. Dirigi-me ás autoridades da minha igreja pedindo uma cópia do referido documento. Responderam-me que eu não tinha direito de saber as acusações que havia contra mim. Um amigo roubou-me uma cópia do dito e m’a enviou. Estava assinado por dezenas de pastores que eu nunca vira. Que mau historiador eu teria sido! Não guardei a cópia do documento. Havia mais de 40 acusações. Que nós, os sete acusados, pregávamos que Jesus tinha relações sexuais com uma prostituta. Que estimulávamos nossos filhos a escrever frases de ódio contra os norte-americanos, nas latas de leite em pó do programa “Food for Peace”. Meus filhos eram bem pequenos; não sabiam escrever... Que recebíamos dinheiro de Moscou... Esqueci-me das restantes 37... Mas havia um outro documento, mais doloroso, porque fora assinado por uma pessoa que eu considerava um dos meus amigos mais chegados. Era Reitor de uma instituição educacional da igreja, instituição que existia, em parte, graças à proteção que minha família lhe dera no passado. Quem sabe contarei essa estória noutra ocasião... Eu era um jovem professor naquela escola. Conversava com meus alunos sobre os temas quentes daqueles anos, as reformas estruturais que se anunciavam na vida política do país. Acontecido o golpe os militares o procuraram à caça de subversivos. Perguntaram a meu respeito. Ele poderia ter escrito: “Conheço o professor Rubem Alves e ele é merecedor de nossa confiança.” Mas escreveu: “Sabemos que o referido professor defendia, perante os seus alunos, as reformas propostas pelo governo deposto...” Traduzindo de forma direta: “Ideologicamente o professor Rubem Alves apoiava o governo deposto”. Isso valeu-me um processo, um Inquérito Policial Militar (IPM), na Infantaria Divisionária de Juiz de Fora. Fiquei num abandono total. Diz a Cecília Meireles, no “Cancioneiro da Inconfidência”: “Quando a desgraça é profunda, que amigo se compadece?” Os amigos rareiam, fogem. É perigoso ter o nome na caderneta de endereços de uma pessoa que pode vir a ser presa como subversiva... Nas cadernetas de endereços se revelam teias de relações que podem ser mortais. Nenhum irmão me ajudou. Quem me ajudou foi um enfermeiro maçon, o Eugênio. Bateu à minha porta. Atendi. Eu nunca havia conversado com ele. Sem qualquer introdução ele foi direto ao assunto: “Sei que o senhor está em dificuldades. Gostaria de ajudá-lo...” O meu muito obrigado póstumo ao enfermeiro Eugênio, um homem bom... Nada me aconteceu. Não fui preso. Foi só o medo e a solidão. Lembro-me de uma noite, eu rolava na cama, sem poder dormir. Já era madrugada. Meu filho Sérgio, menino de quatro anos, chamou-me de sua cama. “Papai!” “O que é, meu filho?”, respondi. E ele disse: “Eu gosto muito de você...” Sou agradecido à ditadura por esse momento eterno que não teria acontecido se ela não tivesse existido. O que eu temia no aeroporto não aconteceu. Os passaportes saíram pelos orifícios do biombo negro. Nosso vôo foi chamado. Encaminhamo-nos ainda respirando medo. Entramos no avião. O avião taxiou até o início da pista. Acelerou as turbinas. Rodou rápido, cada vez mais rápido até que decolou. Foi uma sensação inesquecível. Fiquei leve. Tive vontade de rir. Não estava mais sentindo medo. Ainda hoje a experiência de decolagem provoca minhas endorfinas. É a libertade. Sou pássaro em vôo. Ninguém me pega. Chamei a aeromoça e pedi um uísque. Desde então o uísque se transformou para mim num sacramento de liberdade... *** Dez da manhã. Telefonei para Três Corações, para falar com a Da. Clotilde, minha primeira professora, de 92 anos de idade. Atenderam-me e me informaram que ela não estava em casa. Tinha ido para a Faculdade dar suas aulas... Publicado no Correio Popular 20/03/2005
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