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Minhas
netas: hoje é o dia das mães. Vou falar sobre a minha
mãe, sua bisavó, que vocês não chegaram a conhecer.
Ela morreu antes de vocês nascerem.
Para falar sobre a minha mãe eu vou dar uma explicação
inicial. Gosto de escrever. Especialmente para crianças.
Tanto para crianças como vocês quanto para as crianças
que moram, escondidas, dentro dos adultos. Se eles
deixassem as crianças que moram neles sair do lugar
onde estão presas, eles poderiam brincar e ficar mais
bonitos.
Escrevendo, eu uso sempre “metáforas“. O nome é
difícil mas é fácil explicar. Metáfora é quando,
olhando para uma coisa, a gente vê outra. Neruda,
poeta, olhou para uma cebola e viu que ela se parecia
com uma “rosa de água com escamas de cristal!“.
Ora, cebola é cebola. Não é rosa. Mas o poeta viu, na
cebola, uma rosa. Cecília Meireles pensou sobre a vida
dela e viu um barco navegando por um mar sem fim. Ora, a
vida não é um barco navegando. Mas a poeta viu, na própria
vida, um barco a navegar no mar azul...
Pois eu vou usar uma metáfora que vocês, a princípio,
não entenderão – mas entenderão, porque toda criança
tem olhos e imaginação de poeta: no tempo da minha mãe,
sua bisavó, as mulheres eram como árvores. Agora, elas
se parecem com pássaros...
Vocês se lembram da estória da Cinderela. O nome
antigo era Gata Borralheira. Vejam: dizer que uma menina
é “gata borralheira“ é uma metáfora. Ela era uma
menina; não era uma gata. Peçam ao seu pai ou sua mãe
que explique para vocês a razão dessa metáfora.
Borralheira é que gosta de borralho. Sabem o que é
borralho? Borralho são as cinzas quentes que ficam no
fogão de lenha, depois de apagado o fogo... Pois a estória
moderna daquela menina triste, do Walt Disney, conta que
ela tinha uma “Fada Madrinha“... Na estória
original - muito antiga - não havia nenhuma “Fada
Madrinha“. Era diferente. A mãe da menina havia
morrido. E agora ela estava nas garras de uma madrasta
malvada e duas filhas invejosas que a mantinham presa na
cozinha – perto do borralho. Abandonada... Não, não,
não! Não estava abandonada. Mesmo morta, a sua mãe
continuava a protegê-la. Quem a protegia não era uma
Fada Madrinha; era a sua mãe! E sabem como ela a
ajudava? Ela, mãe, morava numa árvore que a menina
plantara no quintal da casa. A árvore estava sempre
cheia de pássaros. Os pássaros eram os anjos da mãe.
Eram os pássaros que ajudavam a Gata Borralheira...
As mulheres, nos tempos antigos, nos tempos da minha infância,
eram árvores.
No meu sítio, lá em Pocinhos do Rio Verde, tenho árvores
plantadas para todos os meus amigos que morreram.
Plantei também uma árvore para a minha mãe. Ainda não
plantei uma árvore para o meu pai porque ainda não
encontrei a árvore-metáfora que se parece com ele.
Como pode uma árvore se parecer com uma pessoa? Pode.
Para o meu pai, escolhi uma laranjeira. Meu pai adorava
chupar laranjas. Ele ia descascando as laranjas com incrível
técnica, sem jamais ferir a laranja. Laranja com casca
ferida é ruim de chupar. As cascas inteiras, ele ia
pendurando no braço esquerdo. Cascas de laranja, secas,
são um combustível maravilhoso. Eram usadas, de manhã,
na feitiçaria de acordar as brasas para acender o fogo,
como já expliquei. Essas laranjeiras modernas,
enxertos, não são laranjeiras de verdade. Árvores anãs,
mirradas – as laranjas ao alcance da mão. Para ser
metáfora do meu pai a laranjeira tem de ser das
antigas, que demoravam para crescer e ficavam altas, as
laranjas amarelas lá no alto! Era preciso subir na
laranjeira para apanhar as laranjas. Era o que eu fazia
com meus amigos. Subíamos na laranjeira e chupávamos
sem parar. Cada um com seu canivetinho. Já havíamos
aprendido a arte de descascar laranjas como o meu pai.
Eram tantas as laranjas que chupávamos, que ficávamos
com vontade de fazer xixi. Pois não havia problema: fazíamos
xixi do alto das laranjeiras e morríamos de dar risada,
vendo o xixi cair e se empoçar na terra. Essa é uma
das vantagens de ser homem: fazer xixi do alto de uma
laranjeira... Quando eu encontrar uma muda das
laranjeiras antigas plantarei como metáfora do meu pai.
E então, os passarinhos, especialmente os sanhaços
azuis, anjos dele, virão chupar as laranjas.
Para minha mãe plantei um pé de camélia. Camélias são
flores lindas – tão perfeitas, algumas brancas,
outras vermelhas. Fui a Santiago de Compostela, no norte
da Espanha. Dizem que Deus, em Santiago, é mais forte
que em outros lugares. Por essa razão, os que acreditam
fazem longas peregrinações a pé para chegar até lá,
onde se encontra uma gigantesca catedral. Não fui a pé.
Fui de carro. Visitei a catedral. Não me senti mais
perto de Deus. Me senti mais longe. Uma construção
feia, pesada, escura. Me deu tristeza. Mas, saindo
triste da catedral, entrei nos imensos parques que há
por lá. Tudo era luz, cor, leveza, pássaros voando e
cantando, a vida explodindo em todos os lugares. Fiquei
inundado de alegria. O Criador, no Paraíso, não fez
nenhuma catedral. Se gostasse teria feito. Plantou árvores.
Camélias... Nos parques fora da catedral havia camélias
por todos os lados – árvores enormes, cobertas de
flores. Sempre que vejo a beleza surgindo me sinto próximo
de Deus. Deus é beleza mansa. Sugiro que, no futuro, se
façam peregrinações a Santiago de Compostela para se
ver as camélias. Porque se São Tiago foi enterrado por
lá, como se diz, garanto que ele não está dentro
daquela igreja escura. Está é passeando pelos parques.
Os passarinhos e as flores são os Anjos de São Tiago!
Eu olhava para as camélias e me lembrava da camélia
que plantei para a minha mãe...
Disse que antigamente as mulheres se pareciam com árvores.
As árvores não saem do lugar. Crescem onde plantamos.
Indefesas. Não reagem, não fogem, não gemem – nem
mesmo quando são cortadas a machado. Pois assim eram as
mulheres: nasciam e pelo resto de suas vidas teriam de
obedecer aos homens. Primeiro, tinham de obedecer as
ordens do pai. Depois, tinham de obedecer as ordens do
marido. Carlos Gomes fez até uma cantiga de conselhos
para uma jovem que queria se casar e ele a advertia de
que, com isso, ela iria perder a liberdade: “a
vontade ao marido há de fazer, que esse dever o
casamento traz..“. Na verdade, nem antes de casar
elas estavam livres. Estavam à mercê da vontade dos
pais. Era o pai que decidia se ela devia se casar,
quando e com quem. E nem tinham a liberdade de se
decidir por uma profissão. Lugar de mulher era na casa,
no fogão, na máquina de costura. As mulheres não eram
donas do seu corpo, não mandavam no seu destino. Árvores
à mercê da vontade do jardineiro, sem poder fugir...
Como gostariam de ser pássaros, e voar para longe,
longe...
Não podendo ser pássaros, as árvores dão flores.
Flores são os pássaros das árvores. Flores são vôos
que não conseguiram voar e se cristalizaram em beleza e
perfume. Quem dá uma flor a alguém está lhe dando um
desejo de voar.
Minha mãe era uma árvore que queria voar e não podia.
Aí, como a camélia, ela começou a dar flores. As
flores que minha mãe dava apareciam sob a forma de música.
Menino, eu a ouvia estudando piano horas seguidas.
Enquanto tocava piano ela voava pelo mundo da beleza que
nem pai e nem marido podiam impedir: a alma é livre.
Por que uma pessoa gosta de música? Eu acho que uma
pessoa gosta de música, primeiro, porque a música já
nasce com a gente. Ela está lá, no fundo da alma,
dormindo. Mas é necessário que haja alguém que
desperte essa “Bela Adormecida“. No caso de minha mãe,
eu suspeito que tenha sido um professor de piano... Ah!
os professores de piano, seres perigosos, sedutores... O
Vinícius de Moraes compôs uma música malandra chamada
Aula de Piano que colocaram, indevidamente, junto com as
canções infantis da Arca de Noé. Minha mãe, vez por
outra, se referia ao seu professor de piano. O nome dele
era Riciotti – nem sei se é assim que se escreve. Vi
uma foto dele. Másculo. Tinha bigodes torcidos,
voltados para cima. Fantasiar não faz mal... Fantasio
que minha mãe, adolescente, ficou apaixonada por ele.
Tenho mesmo a suspeita de que ele a amou e chegou mesmo
a compor uma valsa para ela: Ela aos quinze anos. Se
estou errado, meus irmãos que me corrijam. Mas, como
diz o ditado italiano, “se não é verdadeiro, foi bem
imaginado“. Como no filme Festa de Babette – a jovem
ficou apaixonada pelo professor de canto. Proibidos de
se amar pelo pai e dono dela, eles faziam declarações
de amor cantando duetos apaixonados de ópera! Gosto de
imaginar que tenha sido assim.
Professor de música! Pobretão. Meu avô, trisavô de
vocês, Capitão Evaristo, rico comerciante dono de
sobrado colonial e carro importado, jamais iria permitir
que filha sua se casasse com um pobretão. Minha mãe se
casou com meu pai, seu bisavô, um homem muito bom,
divertido, manso, que não tinha cultura musical mas era
rico. Depois, como eu já contei, ele ficou pobre...
“Carminha“ - ele dizia com carinho – “toque uma
daquelas valsinhas boas prá dormir.“ Minha mãe
atendia o seu pedido inocente, interrompia a balada em
sol de Chopin e tocava a valsinha. Logo ele dormia como
uma criança...
Minha mãe era uma camélia mansa cujas flores eram a música.
Há determinadas peças que, ao ouvir, sempre me lembro
dela. Se vocês quiserem conhecer um pouco a alma da sua
bisavó, é só pedir, e eu colocarei para tocar os CDs
com as músicas que ela amava.
Outro jeito que as mulheres-árvores tinham de florir
eram os filhos. Se elas não podiam voar de verdade,
voavam imaginando os filhos voando. Viviam uma vida
simples, modesta, sempre plantadas no chão – e eram
sempre uma sombra e um colo onde os filhos tristes
encontravam conforto. Especialmente nas coisas gostosas
que só as mães sabiam fazer na cozinha. Fazer o prato
predileto do filho: era o jeito que elas tinham de dizer
às noras: “Você nunca tomará o meu lugar!“
Claro, havia umas mulheres revoltadas por não poder
voar. Viravam cactus, só espinho. E os filhos sofriam.
Minha avó era assim – que Deus a tenha. Mas não
minha mãe, que aprendeu ternura com uma velha escrava
chamada Iáiá. Por vezes as mães verdadeiras não são
as mães de barriga – são as mães de coração.
As mulheres, hoje, se cansaram de viver para fazer
vontade de pai e de marido. Estão se transformando em pássaros:
querem voar – determinar o seu destino, ser donas de
suas vidas. Liberdade: esse é um direito de todo ser
humano.
Quando vocês tiverem a minha idade e forem escrever
sobre suas mães, ao invés de dizer que elas eram árvores,
vocês dirão que elas eram pássaros! E como os pássaros
são belos no seu vôo! Podem ser suaves como as
gaivotas ou terríveis como os gaviões... Mas mesmo os
pássaros precisam de uma árvore onde descansar e fazer
os seus ninhos...
Dicas:
Hoje, dia das mães, brinque de ser poeta. Dê, como
presente à sua mãe, uma metáfora poética. De todas
as flores e plantas que você conhece, qual é aquela
que mais se parece com ela? Que flor ou árvore você
plantaria para que nela venha a morar, um dia? Há uma
grande variedade que vai dos delicados jasmins do
imperador até os cactus... Mas pode ser que sua mãe
seja um pássaro!
“Diz-se que para que um segredo não nos devore é
preciso dize-lo em voz alta no sol de um terraço ou de
um pátio. Essa é a missão do poeta: trazer para a luz
e para o exterior o medo.“ Sophia de Mello Breyner,
poeta portuguesa. (Citado no livro Clube dos Poetas
Vivos – Oficina de Poesia, do Centro de Formação
Camilo Castelo Branco, Vila Nova de Famalicão,
Portugal).
Atenção, especialmente os terapeutas: “Creio que
dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o
terror.“ (Bernardo Soares - Fernando Pessoa).
Acaba de sair o livro A escola com que sempre sonhei sem
imaginar que pudesse existir – onde está relatada a
experiência da Escola da Ponte, em Portugal, sobre que
escrevi. Na capa está o meu nome, como autor. Está
errado, por minha culpa. Os autores são muitos: Ademar
Ferreira dos Santos, Fernando Alves, os professores,
Pedro Barbas Albuquerque, José Pacheco, Rubem Alves,
mas, também e principalmente, as crianças, vida
da escola, que fizeram as ilustrações coloridas.
O restaurante Dali, que desde agosto do ano passado está
sob a direção do Pedro Carlos Sforcini Júnior, tem
agora uma homepage: www.dalirestaurante.com.br. Dê uma
espiada! (Correio Popular, Caderno C, 13/05/2001.)

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