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Todo
mundo tem saudade de uma mina – ainda que nunca tenha
visto uma. É que na alma... Ah! Você não sabe o que
é alma! Eu explico. Alma é um lugar, dentro do corpo,
onde ficam guardadas as coisas que a gente amou e se
foram. Elas se foram mas não morreram. O amor não
deixa que elas morram. Ele as guarda nesse lugar chamado
alma. Ficam lá, esquecidas, dormindo... Mas, de
repente, a gente se lembra! E quando a gente se lembra,
vem a saudade... Saudade é o que a gente sente ao se
lembrar de uma coisa gostosa que foi embora... Onde estão
as minas? Você nunca viu uma. Mas eu garanto: em algum
lugar da sua alma, e na alma de todo mundo, há uma mina
de água cristalina. E a gente gostaria de beber da sua
água, com as mãos em concha...
O Pequeno Príncipe... Você já deve ter lido o livro.
Se não leu, trate de ler. Não veja vídeo nem ouça o
CD com a estória. Leia. Os vídeos são ruins porque
eles não deixam a gente imaginar a imaginação da
gente. O que está no vídeo é a imaginação de um
outro. E os CDs não são humanos. Eles vão contando a
estória sem parar, mesmo quando a gente gostaria que
eles fizessem uma pausa. Quando a gente está lendo, ao
contrário, a alma vai produzindo o seu próprio vídeo:
a imaginação é um vídeo só nosso. Lendo, a estória
fica sendo minha; é a minha estória. E é possível
parar, quando quer, voltar atrás, ler de novo. O
Pequeno Príncipe vivia num asteróide. Caiu, por
acidente, aqui na terra e foi andando, encontrando-se
com homens, conhecendo costumes, com olhos de criança.
Tudo lhe parecia espantoso! Pois ele se encontrou com um
homem que lhe tentou vender pílulas de matar a sede.
‘Para que servem as pílulas de matar a sede?’ –
perguntou o principezinho. O vendedor se espantou. Como
era possível alguém tão ignorante, que não
percebesse os benefícios da técnica e da ciência? E
tratou de explicar: ‘Os cientistas e pesquisadores
verificaram que, durante um mês, as pessoas perdem 30
minutos, só indo aos filtros, geladeiras e bebedouros
para beber água. Gastam esse tempo porque têm sede. Se
não tiverem sede elas não gastarão mais esse tempo. A
pílula de matar a sede, como diz o nome, mata a sede. Não
sentindo sede, não precisam beber água. Não indo
beber água, economizam, por mês, 30 minutos.’ O
Pequeno Príncipe ficou espantado. ‘E o que é que eu
faço com esses 30 minutos?’, ele perguntou. ‘Com
esses 30 minutos você faz o que você quiser’,
respondeu o vendedor. ‘30 minutos para fazer com eles
o que eu quiser! Que coisa maravilhosa! E o que eu quero
fazer com esses 30 minutos? Ah! Já sei! Se eu tivesse
30 minutos para fazer com eles aquilo que eu quero, eu
iria tranqüilamente, andando até uma mina, para beber
água...’ Eu também gostaria de poder ir até aquela
mina sobre que lhes falei, na última vez em que lhes
contei sobre o mundo em que vivi na minha infância...
Mas as minas apresentam um problema: sede a gente tem o
tempo todo; mas não há minas em todos os lugares. Isso
era um problema sério para os homens que tinham de
fazer longas caminhadas por lugares que não conheciam,
para caçar. Eles não podiam ficar na dependência de
encontrar minas que eles não sabiam se existiam, ao
longo dos caminhos desconhecidos. E era também um
problema para aqueles que trabalhavam na agricultura.
Freqüentemente as minas ficavam muito longe do lugar do
trabalho. E havia também o problema das pessoas
doentes, fracas e velhas, que não tinham forças para
caminhar até as minas.
Tem um ditado que diz: ‘É a necessidade que faz o
sapo pular’. Tradução: ‘É a necessidade que faz a
cabeça pensar’. Quando a gente não sente necessidade
a inteligência não se move. Fica paradona, preguiçosa.
E se recusa a aprender um punhado de coisas que, na
escola, querem que ela aprenda. Às vezes a inteligência
se recusa a aprender precisamente porque ela é
inteligente! Ela pergunta: para que aprender uma coisa
de que não necessito? Mas a sede é uma necessidade.
Sem água a gente morre. E a inteligência logo se deu
conta de que, se não houver um jeito de levar a água
aos lugares onde não há minas por perto, há o perigo
de morrer. E aí, pôs-se a pensar.
As mãos em concha são a solução simples para quem
está ajoelhado ao lado da mina. Mas, e se a pessoa não
puder se ajoelhar, por reumatismo ou velhice? Os homens
observadores viram que há umas grandes folhas nas quais
a água fica depositada, depois da chuva. Folhas de
inhame. (É lindo ver as gotas de chuva, redondas e
brilhantes, guardadas nas folhas de inhame. Quem viu uma
vez não esquece. Fica guardado na alma...). Perceberam,
então, que as folhas de inhame podiam ser usadas para
substituir as mãos. Com duas vantagens. Elas são muito
maiores que as mãos: guardam mais água. E, por não
terem dedos, a água não escorre pelo meio deles.
Folhas de inhame substituem as mãos, quando aquilo de
que se necessita é a água. Assim, passaram a usar
folhas de inhame para pegar a água da mina.
Folhas de inhame para substituir as mãos... Quando a
gente fala em tecnologia a gente pensa sempre em máquinas
complicadas. Não é nada disso. Técnica é tudo o que
se faz para melhorar algum órgão do corpo. Óculos são
melhorias dos olhos. Facas são melhorias dos dentes.
Arcos e flechas são melhorias dos braços. Sapatos são
melhorias dos pés. Bicicletas são melhorias das
pernas. Cotonetes são melhorias dos dedos. Pois foi
assim que a técnica nasceu: quando os homens aprenderam
que podiam usar coisas que encontravam na natureza como
ferramentas para atender às suas necessidades.
Mas não é possível ir viajar levando água numa folha
de inhame! Para levar água longe seria necessário um
objeto que prendesse a água. Aí eles observaram uns
frutos curiosos, parecidos com abóboras, que não
serviam para comer, vazios por dentro, que nasciam de
trepadeiras. Cabaças, cuias. A imaginação funcionou:
cabaças são muito melhores que folhas de inhame.
Cortadas no meio, funcionam como se fossem conchas
grandes. Ou copos. (Os índios fazem lindos artesanatos
sobre cuias. E os gaúchos, movidos pela necessidade de
tomar mate, aprenderam que cuias são maravilhosas para
nelas se preparar o chimarrão...). É fácil guardar água
numa cuia. Inteiras, com um furinho que se tampa com uma
sabugo de milho, vira um cantil. Cantis e garrafas são
cabaças melhoradas. Mas, para não se ter o trabalho de
ficar segurando a cabaça de água com a mão, pode-se
amarrá-la com um cipó ou uma embira, à volta da
cintura. Cipós e embiras são melhorias das mãos: as mãos
ficam livres para segurar as armas ou as ferramentas.
(Sei que você não deve saber o que é embira. Mas não
vou explicar. De propósito. Se você estiver curioso, vá
consultar o dicionário. Uma das coisas mais importantes
que você deve aprender na escola é consultar um dicionário
ou uma enciclopédia. Mais importante que ‘saber’ é
‘saber achar’. O bom professor não é aquele que
ensina coisa pronta; é aquele que ensina você a
achar.)
Difícil era levar a água da mina até a casa. Não
havia canos. Havia uma árvore que podia ser usada como
cano, por ser oca por dentro: a embaúba. Ela se parece
com um mamoeiro. Viajando por aí a gente a reconhece no
meio das matas pelo prateado das suas folhas. Mas embaúbas
não crescem em todos os lugares! Foi pela observação
do jeito das águas correr que a inteligência encontrou
uma solução. Os homens perceberam que a água sempre
anda por conta própria. É só lhe dar um leito por
onde correr que ela corre, sem que a gente precise fazer
força. Aí veio a idéia de se fazerem miniaturas de
rios que levassem a água de onde ela estava até o
lugar onde queriam que ela estivesse. Assim se
inventaram os ‘regos’. Um rego é um riosinho
artificial, para a água correr. Mas há uma coisa que a
água não faz: ela não sobe morro...
Daí se deduz a primeira regra de como fazer a água
chegar até perto da casa: é preciso que a mina d’água
esteja mais alta que a casa. Estando mais alta, faz-se o
rego e a água corre, até chegar à casa... Se estiver
mais abaixo, o jeito é ir até lá e trazer a água num
pote ou jarro...Potes ou jarros são vazios cercados de
argila por todos os lados, menos o de cima... O
importante no pote é aquilo que não existe: o vazio
que está dentro dele. A cerâmica só tem a função de
segurar o vazio... Porque é do vazio que a gente
precisa. É o vazio que contém a água.
Difícil era tomar banho. Especialmente no tempo de
frio. Era preciso esquentar água no fogão de lenha, e
como não havia banheiro e chuveiro dentro da casa, o
jeito era tomar banho de bacia, com canequinha.
Complicado. O que significa que não se tomava banho
todo dia. Banho diário é invenção moderna,
felicidade não conhecida naqueles tempos. O que se
usava, mesmo, era lavar os pés numa bacia. Foi assim
durante milhares de anos. Jesus lavou os pés dos seus
discípulos. Muitas vezes eu lavei os pés do meu pai.
(Correio Popular, Caderno C, 11/03/2001)
Foi
assim durante milhares de anos. Jesus lavou os pés dos
seus discípulos. Muitas vezes eu lavei os pés do meu
pai. (Correio Popular, Caderno C, 11/03/2001)

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