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A Mema tinha a delicadeza de uma asa de borboleta.
Jovem, tinha sido muito bonita. Teve um caso de amor.
Mas o pai não permitiu o casamento. O moço era pobre e
da ‘prateleira de baixo’. Ela aceitou o veredicto do
pai e transformou sua tristeza numa delicadeza mansa
para com tudo e todos, especialmente para com os
sobrinhos. Sempre que algum deles adoecia, a Mema era
chamada. Todos a adoravam. Naquela manhã ela reuniu os
sobrinhos e os levou para passear, longe da casa. Eles não
entenderiam o que estava para acontecer. Na verdade,
eles não deviam entender. Na casa o movimento era
incomum, mulheres entrando e saindo de um quarto, água
fervendo no fogão, o marido andando como um bobo de um
lado para o outro. Até que se ouviu o choro de uma
criança. O choro anunciava o nascimento. A parteira
anunciou: ‘É um menino!’ A mãe ficou desapontada.
Já tinha três filhos homens. Tinha rezado muito para
que na sua barriga estivesse uma menina. Toda mãe sonha
com uma menina como companheira e enfermeira, para
quando os dias forem maus. Quando a Mema voltou com os
meninos, eles foram informados pelo pai que um irmãozinho
havia chegado - sem explicar nem como e nem de onde. Era
o dia 15 de setembro de 1933. Assim foi: no desejo de
minha mãe eu deveria ter sido uma menina... Ela mesma
me disse, muito tempo depois, carinhosamente.
Hoje, decorridos sessenta e seis anos, mortos meu pai,
minha mãe, Mema, parteiras, comadres, eu fico pensando
sobre o enigma do casamento do meu pai e da minha mãe.
Eu nunca os vi brigando. Nunca ouvi uma troca de
palavras ásperas entre eles. E, no entanto, nunca pude
entender por que eles se casaram. Minha impressão era
de que eles viviam em mundos imensamente distantes,
bolhas que não se comunicavam. Vieram-me à memória as
palavras que Thomas Mann colocou na boca de José. José,
vendido pelos irmãos invejosos a mercadores de escravos
que iam para o Egito, diz ao seu novo dono: ‘Estamos
assentados a um metro de distância um do outro. E, no
entanto, ao teu redor gira um universo do qual tu és o
centro, e não eu. E ao meu redor gira um universo do
qual o centro sou eu, e não tu.’ (Thomas Mann, José
no Egito). Era assim que eu sentia o meu pai e a minha mãe.
Meu pai era um sonhador. A fotografia dele de que mais
gosto é uma em que ele está assentado numa poltrona,
fumando o seu cachimbo, com olhar perdido. O cheiro e a
fumaça do cachimbo têm um poder ‘desrealizador’
(essa palavra inexistente, eu acho, é de Bachelard...).
A fumaça, em suas espirais azuis, vai dissolvendo os
contornos nítidos das coisas. Os pintores chineses
sabiam disto e, para misturar realidade com irrealidade,
enchiam suas telas com neblinas. O cachimbo é um
produtor de neblinas. Na neblina, ali onde a realidade
fica irrealidade, o cachimbo abre o mundo dos sonhos.
Meu pai, homem de origem humilde e pobre, sem árvore
genealógica, foi homem de negócios bem sucedido e rico
e terminou sua vida como caixeiro viajante pobre. Quem
desejar saber algo sobre a alma dos caixeiros viajantes
que leia a peça de Miller ‘A morte do caixeiro
viajante’. Quando vi esta peça pela primeira vez, num
teatro em São Paulo, o impacto foi tão grande que me
senti fisicamente mal. Era a estória da vida do meu
pai. Mas o fato é que, na alma, ele nunca foi nem uma
coisa e nem a outra. Se tivesse podido teria sido um
ator de teatro. Sei mesmo que ele chegou a fazer algumas
experiências no palco, lá em Boa Esperança. Não teve
sucesso como ator de palco mas foi um ator, a vida
inteira. O que caracteriza um bom ator é que, ao
representar, ele se esquece que está representando. Ele
não representa; ele vive os papéis. Ri, chora, sofre,
como se fosse verdade. Vida a fora meu pai se
especializou em papéis alegres. Seu público era
qualquer grupo de pessoas. Qualquer assunto era motivo
para que ele criasse, através da palavra, uma trama
fascinante que a todos encantava. Essa capacidade é uma
grande virtude nos atores profissionais. Mas estes sabem
que, ao sair do palco, o teatro terminou. Vida e teatro
não são a mesma coisa. Mas meu pai não saía do
palco. Não distinguia entre teatro e vida. Para ele a
vida inteira era um teatro. Pagou um preço muito caro
por sua vocação artística. Porque o ‘script’ da
vida não é igual ao ‘script’ da peça. Por isso
morreu pobre. Meu pai sonhou a vida inteira.
Minha mãe vinha de um mundo completamente diferente.
Nascida num rico sobrado colonial, com vidros coloridos
importados, longos corredores, salas barrocas, festas,
sua família se gabava de ancestrais nobres e poderosos.
Diziam, inclusive, que um dos seus membros havia sido
governador da província das Minas Gerais, havendo
deixado em Ouro Preto um chafariz com o seu nome - fato
que nunca pude comprovar. As viagens para o exterior não
eram incomuns. Minha tia Georgina, jovem de dezoito anos
no final do século passado, foi sozinha aos Estados
Unidos tratar de saúde, numa longa viagem de vapor.
Todas as filhas eram pintoras. Todas sabiam tocar algum
instrumento: bandolim, cítara (lembro-me de duas cítaras
abandonadas, bordadas com madrepérola), piano. Minha mãe,
além do bandolim, que abandonou, era pianista.
Entendam-me. Não é que ela soubesse tocar piano e o
fizesse em saraus musicais, como o fazem inúmeras
mocinhas. O piano era a sua alma. Lembro-me dela tocando
a Sonata ao Luar, de Beethoven, a balada em sol menor de
Chopin. Minha mãe, mulher tímida e de poucas palavras,
ao se assentar ao piano entrava num mundo de beleza
musical a que poucas pessoas tinham acesso. Tocava, e a
música criava ao seu redor um bolha encantada onde ela
estava só. Meu pai ficava sempre de fora, embora fosse
delicado e atencioso. Vez por outra ele dava um palpite:
‘Toque uma daquelas valsinhas boas para dormir...’
Ela sorria e tocava. Deixava sua bolha mágica para
atender ao pedido da criança. Porque, esteticamente,
meu pai era uma criança.
Foi minha mãe que me abriu o mundo da música. Menino
ainda, ela me levava aos concertos no Teatro Municipal
do Rio de Janeiro. Foi com ela que ouvi Brailowski,
Nikita Magallof, Friedrich Gulda. Curiosamente, foi ela
que ensinou o piano a uma comadre, Da. Augusta Freire, e
suas filhas, em Boa Esperança. Pois Da. Augusta, num
descuido do amor, ficou grávida de novo depois de
muitos anos, e o menininho intruso recebeu o nome de
Nelson Freire, que atualmente é um dos maiores
pianistas do mundo.
Minha mãe falava pouco, muito pouco. Nós nos comunicávamos
pela música. Ela ficava assentada, ouvindo, sem nada
dizer, enquanto eu estudava a sonata de Chopin.
Há músicas que a gente ouve e gosta imediatamente. Sua
beleza está no jardim de entrada. Ouvindo estas músicas
a gente tem uma experiência imediata de comunhão:
todos são igualmente comovidos. A música clássica é
diferente. Sua beleza não se encontra no jardim de
entrada mas num quarto fechado à chave. Quem não tem a
chave não entra. A beleza da música clássica precisa
ser aprendida paciente e disciplinadamente. Quem
aprendeu tem a chave: entra no quarto e tem a experiência
da beleza. Quem não aprendeu fica de fora e não
percebe nada. Por isso a música clássica pode produzir
uma dolorosa solidão.
Do meu pai, eu acho, herdei o gosto pela palavra, o
prazer em criar mundos pela escrita e pela fala. O mundo
do meu pai se abre para fora, para uma comunhão fácil.
Da minha mãe recebi as chaves que abrem as portas que
levam ao mundo da música clássica. O mundo de minha mãe
se abre para dentro, onde se encontram a alegria e uma
comunhão difícil que beira à solidão.

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