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Raquel
 
 

Pensei essas coisas porque minha filha Raquel vai fazer aniversário. Nome de filho é feito bolso de menino: tem muita coisa guardada lá dentro.

No meu bolso chamado Raquel há coisas alegres, há coisas tristes, há coisas bonitas.

Enfio a mão no bolso e me lembro de uma menina de cinco anos filosofando, ao contemplar os espaços sem fim de Campos de Jordão: “Papai, as coisas não se cansam de ser coisas?” só muito mais tarde vi o espanto da Raquel transformado num poema de Fernando Pessoa que dizia ter dó das estrelas, obrigadas a luzir sem parar,  sem nenhum descanso...

Enfio a mão de novo no bolso e tiro lá de dentro uma menina de três anos. É cedo de manhã. Seis horas. Ela me acorda. A pergunta que ela tinha para fazer não podia esperar:

“Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades...”

Sem nunca haver tido qualquer contato com a morte ela sabia que nisso estava o seu horror: a saudade. Muitos anos depois ao lado da cama de uma mulher que ia morrer, ela,  sem ter ninguém com quem pudesse conversar sobre a sua morte, me perguntou: “ Rubem, será que eu saio dessa?” Ela sabia que não iria sair daquela. Então, por que me perguntava?  É que ela queria conversar comigo sobre a morte. Não respondi.Fiz outra pergunta: “Você está com medo de morrer, não está?” “Não”, ela respondeu. “Não esotu com medo de morrer, estou com medo da saudade...”

A Raquel, não sei por que sabedoria astral,  sabia que o medo da morte não é o medo da morte;é o medo da saudade: ficar longe daquilo que se ama. Diante do meu silêncio espantado a Raquel concluiu: “Não chore. Eu vou abraçar você.” Escrevi uma estória a partir desse diálogo, A Montanha Encantada dos Gansos Selvagens.

Tiro outra cena do bolso. Uma visita longa, que não terminava nunca. Já estávamos cansados. A Raquel, que até aquele momento estava conosco na sala saiu silenciosamente. Após alguns momentos retornou e disse às visitas em tom de tranqüila franqueza: “Fui à cozinha, tive uma conversa com o relógio e ele me disse que está na hora de vocês irem embora...”

Ah! Que diplomata! Não era ela que desejava que as visitas se fossem. Era o relógio...

Foi para ela que escrevi a minha primeira estória: A Menina e o Pássaro Encantado, que considero a minha melhor estória. Eu viajava freqüentemente para o exterior e ela tinha medo da saudade. O espaço da saudade é o espaço da ausência dos objetos amados. Eles estão longe. E com a saudade vem as fantasias do “nunca mais”. Era isso que repetia o corvo de Poe : “Never more, never more...” O “nunca mais” é ausência sem retorno, a morte. Ela tinha medo  que eu não voltasse, que eu morresse. Escrevi a estória para dizer, primeiro,  que o pássaro que partia haveria de voltar. Segundo, para dizer que a dor da saudade faz bem ao amor. Depois ela cresceu Ganhou asas. Partiu. Ficou longe muito tempo. Eu tive saudades. Até aprendeu uma língua que eu não falo. E se tornou uma escultora de espaços. Um escultor toma uma matéria, argila, mármore, ferro, e lhe dá uma forma. Os arquitetos usam como sua  matéria prima o vazio. O vazio, é o vazio. Não é bonito e nem feio. Os arquitetos colocam coisas no vazio para que ele se torne visível e bonito.Paredes, colunas, aberturas por onde passa a luz, escadas, pontos luminosos, pisos em níveis diferentes: eis uma casa! O arquiteto cria um vazio que é bom para morar. A Raquel é arquiteta, escultora de vazios.
 
 
Rubem Alves
Para a Raquel
Correio Popular
06/11/05