BULLYING
"Ela se
apresentou: "Meu nome é Cleo Fante..." E com um gesto passou-me seu livro
que acabara de ser publicado: Fenômeno Bullying . Estranha a presença
de uma palavra inglesa no título. É que não se encontrou uma palavra nossa que
diga o que "bullying" quer dizer. "Bully" é o valentão. Um tipo que,
valendo-se do seu tamanho, agride e intimida seus colegas, crianças ou
adolescentes mais fracos e que não sabem se defender.. Por vezes, o "bullying"
não se expressa por meio de murros e tapas. Comumente ele se vale de zombaria e
do ridículo: um grupinho concorda em transformar uma pessoa em motivo de
chacota, por meio de apelidos e, com isso, humilha-a e a exclui do meio
social. Uma vítima do "bullying" jamais é convidada para participar das
festinhas...
O "bullying" é
diferente das brigas que freqüentemente acontecem entre iguais, provocadas por
motivos eventuais. Essas brigas acontecem e acabam. O "bullying" ao contrário, é
contínuo, é metódico, persistente, não precisa de razões para acontecer. A
vítima, ao se preparar para ir à escola, sabe o que a aguarda. O seu desejo é
fugir, mas não pode. E não há nada que possa ser feito para que o "bullying" não
aconteça. Informar os professores, só pode agravar a sua situação. Misturado ao
medo, cresce o ódio, o desejo de vingança e as fantasias de destruir os
agressores.. Essas fantasias um dia, poderão se transformar em
realidade."
"Sadismo é uma
monstruosa deformação espiritual. O sádico é uma pessoa que sente prazer ao
produzir ou contemplar o sofrimento de um outro, prazer que pode, eventualmente
chegar ao ponto do orgasmo."
"Freud nunca entendeu as razões
do sadismo. É como se o sádico fosse possuído por um demônio...Invocou o
"instinto de morte". Mas isso nada explica. Apenas indica os abismos sinistros
da alma humana."
"O "bullying"
é um fenômeno universal. Diariamente milhares de crianças e adolescentes o
experimentam, sendo marcados na sua auto-imagem e na aprendizagem. Uma criança
apavorada não pode aprender.
Não conheço
nenhuma teoria pedagógica que leve em consideração esse fato como parte do
espaço escolar. O que não quer dizer que não exista."
"No entanto, os seus efeitos são
mais importantes do que tudo que possa ser ensinado."
"Sofri
pensando no sofrimento das crianças e adolescentes. É preciso que as escolas
tomem consciência do "bullying" e incluam nos seus objetivos educacionais, a
criação de um espaço de PAZ.
APRENDER A PAZ É MAIS
IMPORTANTE QUE PREPARAR PARA O VESTIBULAR.
Um bom começo seria conversar com
professores e alunos sobre esse demônio.
Rubem Alves
Trechos da crõnica "Bullying",
publicada no jornal "Correio Popular" em 08/05/05
Campinas - SP