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\'É
um homem grande, 1.90 de altura; obviamente, um homem
forte. Seus cabelos castanhos já estão grisalhos. E
tem um grande bigode. Seus olhos profundos são azuis e
bondosos. E o seu piscar revela humor. Um veadinho se
esfrega nele pedindo carinho e sua mão grande deixa a
caneta sobre a mesa e delicadamente agrada o bichinho.
Lá fora, os crocodilos algumas vezes dormem com suas
enormes mandíbulas abertas. E há os hipopótamos, os
pelicanos, a vegetação impenetrável que se reflete
nas águas barrentas do rio.\'
A aparência é de um homem sólidamente plantado nesse
mundo. Mas não é verdade. Seu coração e sua cabeça
se movem de acordo com uma lógica estranha de um outro
mundo que só ele vê.
Nasceu em 1875, numa aldeia da Alsácia, filho de um
pastor protestante. Desde muito cedo ficou claro que ele
era diferente. Sua sensibilidade para a música chegava
à dor. Ele mesmo conta que, à primeira vez que ouviu
duas vozes cantando em dueto - ele era muito pequeno
ainda - ele teve de se encostar na parede para não
cair. Outra vez, ouvindo pela primeira vez um conjunto
de metais ele quase desmaiou por execesso de prazer. Com
cinco anos começou a tocar piano. Mas logo se apaixonou
pelo órgão de tubos da igreja na qual o seu pai era
pastor. Aos nove anos já era o organista oficial da
igreja, e tocava para os serviços religiosos.
Sentimento amoroso idêntico lhe provocavam os animais.
Ele relata que, mesmo antes de ir para a escola, lhe era
incompreensível o fato de que as orações da noite que
sua mãe orava com ele apenas os seres humanos fossem
mencionados. \'Assim, quando minha mãe terminava as
orações e me beijava, eu orava silenciosa-mente uma
oração que compus para todas as criaturas vivas\' :
Oh, Pai, celeste, protege e abeçoa todas as coisas que
vivem; guarda-as do mal e faz com que elas repousem em
paz.\'
Ele conta de um incidente acontecido quando ele tinha
sete ou oito anos de idade. Um amigo mais velho
ensinou-o a fazer estilingues. Por pura brincadeira. Mas
chegou um momento terrível. O amigo convidou-a a ir
para o bosque matar alguns pássaros. Pequeno, sem jeito
de dizer não, ele foi. Chegaram a uma árvore ainda sem
folhas onde pássaros estavam cantando. Então o amigo
parou, pôs uma pedra no estilingue e se preparou para o
tiro. Aterrorizado ele não tinha coragem de fazer nada.
Mas nesse momento os sinos da igreja começaram a tocar,
ele se encheu de coragem e espantou os pássaros.
Seu amor pelas coisas vivas não era apenas amor pelos
animais. Ele sabia que por vezes era preciso que coisas
vivas fossem mortas para que outros vivessem. Por
exemplo, para que as vacas vivessem os fazendeiros
tinham de cortar a relva florida com ceifadeiras. Mas
ele sofria vendo que, tendo terminado o trabalho de
cortar a relva, ao voltar para a casa, as suas
ceifadeiras fossem esmagando flores, sem necessidade.
Também as flores têm o direito de viver.
Também não podia contemplar o sofrimento dos animais
em cativeiro. \' \'Detesto exibições de animais
amestrados. ´Por quanto sofrimento aquelas pobres
criaturas têm de passar a fim de dar uns poucos
momentos de prazer a homens vazios de qualquer
pensamento ou sentimento por eles.\'
O nome desse jovem era Albert Schweitzer. Doutorou-se em
música, tornou-se o maior intérprete de Bach da
Europa, dando concertos continuamente. Doutorou-se em
teologia e escreveu um dos mais importantes livros de
teologia desse século. Doutorou-se também em
filosofia, e era professor na universidade de
Estrasburgo, sendo também pastor e pregador.
Schweitzer tinha tudo aquilo que uma pessoa normal pode
desejar. Ele era reconhecido por todos. Mas havia uma
frase de Jesus que o seguia sempre: \'A quem muito se
lhe deu, muito se lhe pedirá.\' E, aos vinte anos, ele
fez um trato com Deus. Até os trinta anos ele iria
fazer tudo aquilo que lhe dava prazer: daria concertos,
falaria sobre literatura, sobre teologia, sobre
filosofia. Ao trinta anos ele iniciaria um novo caminho.
E foi o que ele fez. Aos trinta anos entrou para a
escola de medicina, doutorou-se em medicina, e mudou-se
para a África, para tratar de uns pobres homens
atacados pelas doenças e abandonados. E lá passou o
resto de sua vida.
É preciso entender que Schweitzer não era só um
médico curando doentes. Ele não se conformaria com
isso. Dentro dele viviam a música, a filosofia, o
misticismo, a ética. Schweitzer sabia que somente o
pensamento muda as pessoas. E o que ele mais desejava
era descobrir o princípio que vivia encarnado nele. E
ele conta que foi numa noite - ele e remadores navegavam
pelo rio para chegar a uma outra aldeia - seu pensamento
não parava - e ele se perguntava - \'qual é o
princípio ético?. De repente, como um relâmpago,
apareceu na sua cabeça a expressão: reverência pela
vida. Tudo o que é vivo deseja viver. Tudo o que é
vivo tem o direito de viver. Nenhum sofrimento pode ser
imposto sobre as coisas vivas, para satisfazer o desejo
dos homens.
Há algo estranho na psicologia de Schweitz\\er. Um dos
maiores desejos da alma humana - de todos - é o desejo
de reconhecimento. Na Europa Schweitzer era admirado
universalmente: organista, filósofo, teólogo,
escritor. Aos vinte e poucos anos seu nome já era
símbolo. Aí toma uma decisão que o levaria para longe
de todos os olhos que o admiravam: a absoluta solidão
de uma aldeia miserável. Hoje uma decisão como a dele
seria imediatamente notada: os jornais e a televisão
logo fariam brilhar a sua imagem de Cavaleiro Solitário
- e ele apareceria como heroi. Seria grande, imensamente
grande na sua renúncia! Também as renúncias podem ser
motivo de vaidade! ( A esse respeito relembro a última
cena do filme O Advogado do Diabo. Merece ser visto de
novo. )Mas ele opta pela invisibilidade, a solidão,
longe de todos os olhos e de todos os aplausos.. Isso
só tem uma explicação: ele era, antes de tudo, um
místico. O que lhe importava não era a brilho
narcísico mas a consciência de ser verdadeiro com o
princípio de \'reverência pela vida\', o seu mais alto
princípio religioso.
Esse princípio, Schweitzer viveu intensamente. Não é
difícil ter reverência pelas coisas fracas, a relva,
os insetos, os animais. Fracos, eles não têm o poder
de nos resistir. Difícil é ter reverência pelos
homens fortes, que se encontram ao nosso lado. Jesus
ordenou \'amar o próximo\'. Porque é fácil amar o
distante. O próximo é aquele que está no meu caminho,
que tem o poder de me dizer não. Mais difícil que amar
os doentes, que são carência pura, fraqueza pura,
dependência pura, mendicância pura, é amar aqueles
que estão ao meu lado e que são tão fotrtes quanto
eu. Reverência pelos que estão ao meu lado. Se
Schweitzer se relacionou com os pobres negros doentes
por meio da compaixão, ele se relacionou seus
próximos, iguais, companheiros de hospital por meio de
amizade. E ele formula, na sua Ética, o princípio de
que \'um homem nunca pode ser sacrificado para um fim.\'
Schweitzer não era um ser desse mundo. Talvez ele tenha
compreendido isso e que essa tenha sido uma das razões
porque ele saiu do mundo civilizado, se embrenhando nas
selvas da África. No mundo civilizado, das
organizações, será possível ter reverência pelo
próximo? Na lógica das organizações não há
\'próximos\' nem amigas. A lógica das organizações
diz: \'cada funcionário é apenas um meio para o fim da
organização, não importa quão grandioso ele seja!
Nas organizações os sinos das igrejas não tocam para
impedir que o pássaro seja morto.
\'É
um homem grande, 1.90 de altura; obviamente, um homem
forte. Seus cabelos castanhos já estão grisalhos. E
tem um grande bigode. Seus olhos profundos são azuis e
bondosos. E o seu piscar revela humor. Um veadinho se
esfrega nele pedindo carinho e sua mão grande deixa a
caneta sobre a mesa e delicadamente agrada o bichinho.
Lá fora, os crocodilos algumas vezes dormem com suas
enormes mandíbulas abertas. E há os hipopótamos, os
pelicanos, a vegetação impenetrável que se reflete
nas águas barrentas do rio.\'

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